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Bem-vindos ao "Sofá ao Rato". Temos recebido todas as quartas-feiras simpatizantes e militantes do PS que tomaram posição nas eleições internas do partido. Hoje junto ao Paulo Ferreira e a nós junta-se o João Torres, ex-secretário-geral-adjunto do PS e foi apoiante de Pedro Nuno Santos. Bem-vindo. Foi convidado para ser diretor de campanha de Pedro Nuno. Preocupa-o para já a falta de propostas concretas para o país por parte do secretário-geral do PS?

Muito bom dia, antes de mais, e obrigado pelo convite. Eu não creio que estejamos perante falta de propostas concretas para o país. O Partido Socialista viveu um momento totalmente legítimo de clarificação interna. Essa clarificação interna decorreu até há muito pouco tempo. E o que penso ser mais importante realçar neste momento é que o Partido Socialista está unido, está coeso e está mobilizado. Teremos no próximo fim de semana um grande momento de afirmação externa. Essa afirmação é também pontuada pelo Congresso Nacional do Partido Socialista e seguramente ao longo das próximas semanas o Partido Socialista terá a possibilidade de apresentar-

E vamos conhecer algumas bandeiras ou vamos ter já um resumo geral desse programa?

Há que aguardar pelo discurso ou pelas intervenções do secretário-geral eleito do Partido Socialista. Agora, há uma ideia que Pedro Nuno Santos tem referido e que me parece ser muito importante recordar. É a ideia de que nós não partimos do zero. Nós assumimos a governação dos últimos oito anos, assumimo-la com pleno orgulho e essa governação é uma governação que tem um histórico de progresso e de desenvolvimento económico e social, de melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Mas há questões que têm mudado, como por exemplo, a devolução do tempo de serviço aos professores, que tem sido uma das que foi referidas durante a campanha. Isso pode ser alvo de uma clarificação neste congresso?

Que os portugueses conhecem e reconhecem. Se me permite, só para concluir muito poucos segundos esta ideia. E, portanto, do meu ponto de vista, as pessoas reconhecem bem o Partido Socialista como o partido que garante que os salários, em particular o salário mínimo nacional, aumenta, o salário médio aumenta, as pensões aumentam, há um reforço do investimento no Estado social, desde logo na educação e na saúde pública, que para o Partido Socialista devem permanecer públicas. E sabem também que o Partido Socialista consegue fazer isto e que a proposta do Partido Socialista passa por fazer isto tudo, preservando também o rigor orçamental, a responsabilidade financeira e orçamental.

E é por isso que ainda não detalharam esta questão da devolução dos tempos de serviço.

Daquilo que nós chamamos de política de contas certas. É conhecida a posição do novo secretário-geral do Partido Socialista sobre o tema da devolução do tempo de serviço aos professores. Os portugueses percebem perfeitamente que os partidos têm, essencialmente, uma identidade, uma matriz de propostas políticas. Eles percebem perfeitamente que, havendo uma alteração à liderança do partido, o novo secretário-geral do PS não pense exatamente da mesma forma em todas as matérias. E esta é uma questão em que o novo secretário-geral do PS já tinha previamente assinalado uma posição, que não é exatamente a mesma que vinha sendo assumida, mas não vemos nisso, naturalmente, nenhum problema.

Mas João Torres, esta é só uma das questões em que Pedro Nuno Santos tem uma linha diferente de António Costa. Outra será a TAP, em que não vê com bons olhos Pedro Nuno Santos que os privados entrem para uma maioria de capital. E eu pergunto-lhe se nessa linha de posicionamentos diferentes perante as empresas, se, por exemplo, a nacionalização dos CTT será uma das medidas possíveis de um eventual governo PS liderado por Pedro Nuno Santos.

António Costa e Pedro Nuno Santos são socialistas, são militantes do Partido Socialista e tal como os demais militantes do Partido Socialista partilham uma mesma visão para o país e já agora para a Europa e para o mundo. E, portanto, qualquer tentativa de mostrar divergências de posição ou de posicionamento político, mesmo perante casos concretos, são de um ponto de vista muito artificiais. Nós teremos de aguardar pela intervenção do novo secretário-geral do PS no Congresso ou pelas intervenções do novo secretário-geral do PS no Congresso. Agora não me parece que do ponto de vista estrutural haja nenhuma divergência de fundo entre Pedro Nuno Santos e entre António Costa. Muito pelo contrário, os dois são rostos visíveis de um governo que salvou uma companhia aérea nacional. E em relação à TAP, do ponto de vista do esclarecimento público, do ponto de vista até da clareza política, há uma pergunta que nunca foi respondida, que é: o que teria feito, em idênticas circunstâncias, o maior partido da oposição? E isso é algo que nenhum de nós Sabe responder? Nem os próprios. Enquanto que no Partido Socialista nós temos um patrimônio, esse patrimônio é o da preservação da companhia aérea nacional.

Sobre a TAP fica clara a posição e evolução do PS, se quiser. Eu perguntava, João Torres, sobre os CTT e perguntava também porque há uma notícia dos últimos dias do Jornal Económico, a compra pela Parpública, algures entre 2020 e 2021, não se sabe ao certo, na bolsa, a compra de ações dos CTT, depois de um despacho do ministro das Finanças, João Leão. Acha que este caso deve ser esclarecido e consegue perceber por que a Parpública, entidade pública, fez isto de forma secreta, sem publicidade a esta compra?

A única coisa que me ocorre comentar sobre essa matéria é que quando o Estado opera determinado tipo de transações, seguramente que o faz num contexto de mercado e ao fazê-lo num contexto de mercado, deve fazê-lo preservando e salvaguardando o interesse público. E tenho a certeza absoluta de que o interesse público foi salvaguardado nessa operação financeira. E tenho a certeza absoluta também, ou a convicção, de que se essa operação ou transação não foi tornada pública da forma mais evidenciada possível no momento em que aconteceu, foi também para preservar exatamente o mesmo princípio, o interesse público. E é normal e natural que assim seja. E esse é o comentário que faria sobre essa matéria, que de resto também devo dizer que não conheço em promenor e em detalhes, vi apenas algumas notícias durante o dia de ontem e por isso também não me alongarei no comentário. Mas insisto nesta ideia que me parece ser muito importante. Tenho a profunda convicção de que foi preservado o interesse público e essa é a mensagem mais importante que os portugueses devem ter presente e que é hoje já seguramente uma garantia.

Vamos então à vida interna do PS, que vai ficar decidida definitivamente neste congresso, com a eleição dos órgãos nacionais. O João Torres já foi secretário de Estado, é agora secretário-geral adjunto do PS, vai ser diretor de campanha nas legislativas. Caso vençam, ambiciona vir a ser um ministro do governo Pedro Nuno Santos?

Essa questão é absolutamente extemporânea. Eu, na verdade, já estou na condição cessante de secretário-geral adjunto do Partido Socialista.

Esse modelo vai manter-se com Pedro Nuno Santos, tem alguma indicação?

É um órgão do partido que só existe quando o secretário-geral do PS é simultaneamente o primeiro-ministro e, portanto, tecnicamente, esse cargo já não existe. Só voltará a existir quando o secretário-geral do PS voltar a ser simultaneamente o primeiro-ministro de Portugal.

Portanto, não será eleito em congresso, é isso? Ou escolhido, neste caso.

Nunca é eleito em congresso, é eleito em comissão nacional e só é eleito em comissão nacional nessa circunstância de o secretário-geral do PS ser simultaneamente o primeiro-ministro de Portugal. Circunstância que agora, pelos motivos óbvios e naturais, não acontece. Mas sim, fui secretário de Estado, assumo agora com muita motivação esta responsabilidade também de dirigir a campanha do PS das eleições legislativas de 10 de março deste ano de 2024. Eu penso que as questões que dizem respeito ao meu futuro são absolutamente secundárias e diria mesmo com respeito, naturalmente, pela questão que colocou, são extemporâneas neste momento. Não são questões que me preocupam a mim, nem devem preocupar o partido. Acho que agora todos os militantes do PS têm a obrigação, isso sim, de estar focados em dar o seu contributo para que o PS vença as eleições. E é também isso que eu fiz ao aceitar.

E já conversou com António Costa para contar com ele na campanha? Vai querê-lo quase em permanência, porque conseguiu a última grande vitória eleitoral do PS.

O próprio secretário-geral do Partido Socialista já teve a oportunidade de falar com António Costa. Houve aliás um momento simbólico, mas de transição de pasta na sede nacional do Partido Socialista, no Largo do Rato, logo no dia seguinte à data da eleição do novo secretário-geral, portanto no dia 17 de dezembro. E António Costa tem sido muito claro em relação a essa matéria, ao dar nota de que estará disponível para ajudar o partido em todos os momentos e em todas as circunstâncias. Por isso não tenho a mais pequena dúvida em afirmar que António Costa é um grande ativo para o Partido Socialista e seguramente todos os socialistas terão um grande gosto e um grande orgulho em poder contar com a sua participação na campanha eleitoral.

Mas uma presença muito assídua de António Costa na campanha não poderá de alguma forma fazer sombra a Pedro Nuno Santos?

Eu não sei se a presença será ou não muito assídua. Agora há algo que ninguém tem qualquer dúvida. António Costa é um militante do Partido Socialista, é primeiro-ministro em funções do nosso país, é um apoiante do Partido Socialista e estará seguramente ao lado do PS na campanha eleitoral. Essa ideia de que as pessoas fazem sombra umas às outras, naturalmente compreendendo a questão que se suscita, mas os portugueses não deixam de compreender bem o papel de cada um e, portanto, não parece haver qualquer risco de um fazer sombra ao outro ou vice-versa, porque naturalmente os eleitores, os portugueses, que são quem vai votar e quem vai eleger uma nova composição da Assembleia da República, sabem bem qual é a responsabilidade que cada um tem neste momento. Agora, não pode restar qualquer dúvida em relação a esta matéria. António Costa é um grande activo do Partido Socialista, e nós contamos com António Costa para a campanha eleitoral do Partido Socialista.

Quem também vai estar ao lado de Pedro Nuno Santos é José Luís Carneiro. Já chegaram até a acordo para apresentar listas conjuntas neste congresso. Que papel é que vê para José Luís Carneiro no PS? Vai ser, por exemplo, candidato a deputado?

José Luís Carneiro é um militante muito importante do Partido Socialista, e é um militante importante não apenas porque se candidatou à liderança do PS, já o era antes. Foi e é um ministro da Administração Interna, penso que consensualmente reconhecido como extraordinariamente competente. Com o devido respeito também, terá que lhe perguntar a ele, ao próprio, quais são as suas intenções e quais são as suas disponibilidades, qual é o seu quadro de disponibilidades para o partido. Agora, o PS conta, evidentemente, com José Luís Carneiro, como conta com muitos outros quadros políticos que são absolutamente fundamentais para o desafio do próximo dia 10 de março e para aquilo que se vai seguir ao dia 10 de março, em que nós esperamos voltar a revalidar a confiança que os portugueses depositaram em nós no ano de 2022.

João Torres, há este entendimento entre Pedro Nuno Santos e José Luís Carneiro para as listas conjuntas. O que perguntamos também é se esse entendimento vai também para a adoção de propostas que foram feitas por José Luís Carneiro nesta corrida interna do PS, nomeadamente o fundo Medina. Se vai ser uma dessas propostas.

O PS é um só. E portanto, essa ideia de que havia duas visões ou dois programas naturalmente muito distintos um do outro ou essencialmente distintos um do outro, é uma ideia que não tem correspondência com a realidade. De facto, não tem correspondência factual. O programa eleitoral do Partido Socialista está naturalmente a ser preparado, na sequência também das moções e, neste caso, da moção da orientação política de que foi o primeiro subscritor o secretário-geral eleito, Pedro Nuno Santos. Não há qualquer razão para entendermos que não é possível fazer aproximações em relação a algumas matérias, mas essa questão não é crítica, porque o PS é um partido único, é um partido uno e coeso também, e desse ponto de vista, não há nenhuma divergência que exista ou que deva ser especialmente sanada e que tenha resultado da campanha eleitoral interna do Partido Socialista.

A terminar, e olhando para o principal adversário do PS nestas eleições, que vai ser o PSD, por que apesar das garantias de Luís Montenegro, o PS insiste que o PSD vai acabar por fazer um acordo com o Chega?

Olhe, em primeiro lugar, porque olhamos para o histórico e olhamos para aquilo que aconteceu na Região Autónoma dos Açores. Mas aqui a questão não tem que ver com nós duvidarmos da palavra deste ou aquele agente político, deste ou daquele protagonista político, mesmo tratando-se do caso do líder da oposição e do líder do maior partido da oposição. Aquilo que aconteceu na Região Autónoma dos Açores é algo que o PSD nunca explicou devidamente. E justamente por nunca se ter demarcado aquilo que aconteceu, menos com, desculpe a expressão, mas a barafunda que ali foi criada e que vai levar também, como se sabe, à realização de eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, nunca tendo havido uma demarcação muito clara sobre aquilo que aconteceu, nunca tendo havido uma explicação sobre o que ali aconteceu, os portugueses não têm razões para estar descansados quanto às reais intenções e tentações do PPD/PSD de se aliar ao Chega. E portanto, eu não respondo apenas com retórica política. Respondo com o histórico de uma situação, de uma circunstância muito concreta que aconteceu no nosso país, na Região Autónoma dos Açores.

Mas o PS não contribui para isso ao dizer que não viabiliza um governo de maioria relativa do PSD para manter essa suspeição da necessidade do apoio do Chega.

Eu peço imensa desculpa, mas os partidos devem ser muito claros ao dizer com quem estão disponíveis para falar e com quem estão disponíveis para dialogar. Nós estabelecemos uma doutrina, já nem é da última campanha eleitoral, mas ficou mais clara, ficou absolutamente meridiana na última campanha eleitoral, quando dissemos que entre o Partido Socialista e o Chega, há uma linha vermelha que nos separa.

O PSD diz o mesmo.

Essa forma tão clara de demarcação não parece que seja uma evidência do lado do PPD/PSD e se diz o mesmo, não faz o mesmo. E portanto, há uma profunda incoerência do PSD em relação à forma como lida com o Chega e a melhor demonstração, a prova disso mesmo, é o que aconteceu na Região Autónoma dos Açores.

Obrigado a João Torres. Chegamos ao fim do nosso tempo. Obrigado pela disponibilidade para este Sofá ao Rato, que termina esta semana com o Congresso do PS. Na próxima quarta-feira estamos de regresso à Assembleia da República, ao formato original, ao Sofá do Parlamento.