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Olá, seja bem-vindo. Eu sou a Maria João Simões, muito obrigada por nos acompanhar em mais um episódio do "Valor da Floresta", o podcast do Observador e da Navigator que nos leva a pensar no bem precioso que é a floresta como organismo vivo e em transformação com impacto direto nas nossas vidas. Ainda assim, continua a existir uma distância entre a sociedade e a floresta, muitas vezes feita de mitos e percepções erradas. Como comunicar melhor e aproximar o público urbano deste que é um patrimônio comum? É o que vamos tentar responder nos próximos minutos, com a ajuda da professora Helena Pereira, da Universidade de Lisboa. Bem-vinda, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Obrigada pelo convite, é um prazer estar aqui a falar das florestas.
Professora, quais são os maiores desafios em comunicar a importância das florestas a quem não tem contato direto com as mesmas, por exemplo, a população que reside em centros urbanos?
É um desafio atualmente enorme. As florestas têm um papel absolutamente determinante para o planeta e concretamente para o nosso país, onde são importantíssimas, mas de fato são muito desconhecidas por esta população, hoje em dia essencialmente urbana, e que não tem nenhum contato cotidiano com as florestas. É, de facto, um desafio para conhecer as florestas, para as relacionar com os jovens, com os adultos, com a população em geral, que não vive a floresta. E mesmo quando os jovens ou os adultos passeiam na floresta, é sempre um contato superficial. Portanto, claramente é preciso conhecer melhor as florestas, saber o seu papel, tornar as florestas, de certo modo, amigas.
E devemos adaptar a comunicação florestal aos diferentes públicos, ou seja, às crianças, aos agricultores, aos cidadãos comuns e até aos decisores políticos, de que forma, professora? E quem é que deve ter esse papel, essa responsabilidade?
É claro que sim. A comunicação tem que ser diferenciada para os vários públicos. Em geral, em Portugal, nós temos uma cultura do território um bocadinho pouco desenvolvida. E do território como bem coletivo, com a sua diversidade, com as suas potencialidades. Portanto, aumentar esta cultura do território é um dos grandes desígnios para Portugal. E neste território estão, obviamente, as florestas. Claro que esta mensagem tem que ser dirigida, direcionada para os diferentes públicos.
Claro. Uma criança não vai perceber da mesma forma que-
Ora bem, crianças, jovens universitários, por exemplo, adultos, decisores, têm que ter mensagens específicas para cada campo. Tem que se criar o interesse, a curiosidade pelo tema.
A doutora Helena é professora na Universidade de Lisboa. Quando se fala em promover a literacia florestal, existem, com certeza, estratégias educativas com mais e menor impacto ou resultados. Quais são os que funcionam melhor? É difícil, se calhar.
Claro que é difícil. Primeiro, deixe-me falar dos atores. Todos os atores, todos os transmissores de conhecimento são importantíssimos. Mas deixe-me aqui destacar dois grupos que eu considero importantíssimos na transmissão deste conhecimento: os professores. Sem dúvida, os professores de todos os níveis são importantíssimos, mas também os jornalistas. Os jornalistas são uns atores importantes de transmissão deste conhecimento, desta curiosidade, deste interesse pela floresta. Quais são as estratégias? Haverá múltiplas, certamente. Mas penso que todas elas se baseiam em criar nos jovens, nos adultos, nestes grupos, interesse e curiosidade pelo tema. E é isso que vai promover a sua adesão às ideias sobre a floresta. Claro que depois há estratégias práticas de fazer atividades "hands-on", de passeios, campos de férias, etc.
De aproximar as pessoas, não é?
Ora isso mesmo.
E como é que podemos tornar a literacia florestal parte da nossa cultura, da cultura nacional e não apenas projetos pontuais, professora?
Ora bem, temos que ter uma estratégia educativa. Temos que ter um plano estruturado que aborda as diferentes vertentes da floresta e das árvores. Eu falo sempre também das árvores.
Essa distinção sim é importante.
Porque não é só a floresta, aquela massa às vezes um bocadinho indiscriminada de uns troncos, de um verde, etc., que as pessoas nem se apercebem bem o que é. E depois temos as árvores singulares, com a sua diversidade, que são importantíssimas.
E com o seu papel também, não é?
Ora bem, portanto, eu muitas vezes digo estas duas coisas, florestas e as árvores. E temos que ter, como estava a dizer, um plano estruturado de intervenção. Não é apenas uma ideia pontual que é aplicada uma vez e depois nunca se repete. Não, é ter pensado, com o objetivo final de introduzir no conhecimento público, digamos assim, as florestas e as árvores de uma maneira estruturada, pensada e que nos garanta o sucesso de mostrar a importância total que as florestas têm em Portugal e no planeta.
E no planeta, sim. Professora Helena Pereira, no início deste episódio, falei em mitos e percepções erradas sobre as florestas. Quais são os mais comuns e que ainda persistem em Portugal?
Tem toda a razão. Há, de facto, uns mitos e umas percepções muito erradas sobre as florestas em Portugal. Dado o pouco tempo que temos, eu vou aqui, se calhar, citar só dois. O primeiro é que toda a envolvente da conversa sobre as florestas está absolutamente inquinada pelo ódio ao eucalipto. Este ódio ao eucalipto começou nos anos 60 do século passado, aumentou fortemente, depois nos anos 70, nos anos 80, e é de facto um ódio muito enraizado na comunicação pública contra o eucalipto. O eucalipto Não é uma invasora. O eucalipto está cá desde o século XIX, com múltiplas funções, muito acarinhado quando foi introduzido e hoje é, em muitas regiões, considerado naturalizado. Portanto, é um bocadinho estranho este ódio enraizado, esta xenofobia biológica, como eu às vezes digo, em relação ao eucalipto. Claro que ele não é autóctone, vem bem longe, do outro lado do planeta, como vêm muitas outras espécies. A nogueira, por exemplo, o plátano, aquela árvore que todos nós tanto gostamos, a tipuana, por exemplo, que há nas ruas, nas praças, etc. E culturas agrícolas, para citar dois exemplos agora muito recentes que entraram no nosso cotidiano, que é o kiwi e o abacate, por exemplo. Portanto, o acolher espécies biológicas que não são daqui, sempre fez parte da nossa cultura, desde tempos imemoriais. O eucalipto, por outro lado, constitui uma base importantíssima da nossa economia e do funcionamento da sociedade, especialmente a sociedade rural. Seria uma desgraça completa se os eucaliptais e a indústria associada aos eucaliptais, por alguma razão, não contribuíssem para os 60 mil empregos que criam, as exportações, etc. Pronto, este é se calhar o primeiro mito.
O primeiro dos que estaria bem claro.
Os outros dois são os incêndios. Culpar a floresta pelos incêndios rurais é habitual e não é só a floresta, é muito especialmente também os eucaliptais. Ora bem, e os dados? Se olharmos para os dados, que é sempre bom vermos os factos, os dados não mostram isso. Os dados mostram que a maioria dos incêndios ocorrem em matos e em terrenos abandonados.
Está a desmistificar essa associação.
E mesmo dentro da floresta, quando ocorrem na floresta, não é o eucalipto a espécie que mais arde. Os pinhais, por exemplo, ardem mais. De certo modo, nós temos um clima mediterrânico, portanto, temos um verão quente e seco. Temos também estes fenómenos das alterações climáticas que potenciam, nesta época, existirem incêndios, que são incêndios de origem meteorológica e também pela ação humana, sem dúvida. Mas quando há um incêndio de flagre e adquire uma intensidade muito grande, as chamas não olham a espécie, portanto, o que importa é haver ou não haver biomassa combustível naquela zona. E para isso, o que é importante? É não haver aquilo que infelizmente nós temos muito em Portugal, que é abandono de terras, que é matos, que é incultos, portanto, isso é que é, de facto, o grande problema.
E o grande inimigo.
É. A chave é o quê? É gestão. Se gerimos bem, temos aqui uma prevenção de incêndios que nos vai ajudar muito a controlar isto.
Eu ia perguntar-lhe como é que se desconstrói esta associação automática entre floresta e incêndios, se calhar, lá está, passa por gestão, não é?
É a gestão. E na gestão está obviamente incluída a prevenção. Portanto, a prevenção dos incêndios no território é um fator-chave e esta prevenção não é no verão que se faz.
Sim, é um trabalho que vem de trás, não é?
Vem de trás, faz-se ao longo do ano, ao longo dos anos. E isto requer que as florestas sejam geridas, que o território seja gerido. Para dizer de uma maneira mais abrangente, este território, que é um bem coletivo, seja gerido e acarinhado. Às vezes falta-nos este carinho.
É mesmo, por aquilo que é nosso, na verdade, de todos nós. Professora, estamos a terminar, mas imagino que no exercício das suas funções académicas, tinha a oportunidade de implementar uma única política pública para melhorar a literacia florestal em Portugal, qual seria?
Eu gostava de fazer muitas. Bom, mas cingindo-me apenas a uma, e um bocadinho no seguimento do que tenho estado a dizer, acho que o que faria em termos de política pública era uma intervenção no sistema educativo. E logo muito cedo, na pré-primária, no primeiro ciclo, no segundo ciclo, introduzir a obrigatoriedade, no bom sentido, a obrigatoriedade de considerar as florestas e as árvores nos currículos escolares.
Para haver logo essa aproximação.
Um pouco à semelhança do que foi feito aqui há uns anos e com bastante sucesso, quando foi introduzido a questão da reciclagem e da separação seletiva do lixo e, portanto, os programas escolares tiveram esta componente fortemente, e que foi com sucesso. Portanto, de certo modo, era algo semelhante, dada a importância que as florestas têm para Portugal e para o planeta, mais uma vez. Portanto, isto requer que haja esta ação concertada no sistema educativo. E introduzir isto nos currículos obriga, obviamente, a que os professores estejam preparados, que haja materiais pedagógicos, manuais, equipamentos lúdicos, atividades fora da sala de aula, que se desenvolvam para tornar, ao fim e ao cabo, o quê? Para tornar as florestas, as árvores, nossas amigas.
Como disse no início, não é, professora?
Ora bem.
Professora Helena Prata, muito obrigada por ter estado conosco no "Valor da Floresta", uma iniciativa do Observador e da Navigator. Foi um gosto conversar consigo, professora. Muito obrigada.
Obrigada, foi um gosto para mim também.
Eu sou a Maria João Simões, regresso daqui a 15 dias com um novo convidado. Espero por si.