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Está no ar a "Operação Stop". Mais uma semana, mais um episódio, sempre com Alfredo Lavrador. Alfredo, muito bem-vindo.

Olá, Miguel. Obrigado.

Semana passada foste promovido a mestre, esta semana esqueci-me, mas não volta a acontecer. Até porque hoje vamos falar de um automóvel que é quase um mestre do mercado. Vamos falar de Ferraris, mas vamos falar também de automóveis elétricos. Isto até há poucos dias parecia que não era uma mistura, era como misturar água com azeite, talvez.

Com azeite, exatamente.

Mas a verdade é que a Ferrari, numa altura em que os construtores reduzem investimentos na mobilidade elétrica, devido, claro, à desaceleração das vendas que temos vindo a falar aqui, anunciou o preço do primeiro modelo a bateria, o primeiro carro elétrico, e revela também que muito em breve vai lançar um segundo. Portanto, temos logo aqui panoplia para falar disto, Alfredo.

Isto é que é coragem, Miguel. Mas sabes que há muitos anos que a Ferrari está a desenvolver um modelo elétrico. E esta desaceleração das vendas dos carros a bateria, que tu falaste e muito bem, é algo muito mais recente, tendo-se tornado evidente no início de 2024, quando se começou a mencionar a possibilidade da proibição das vendas de automóveis com motor de combustão, que está prevista para 2035, pudesse derrapar alguns anos. E nota que não é desaparecer, é apenas atrasar. E ninguém acredita que seja por um período superior a três, cinco anos. Isto se se verificar. Mas a Ferrari, que produz mais de 13 mil unidades por ano, ou seja, é um construtor de nicho, todas elas, isto é que é a parte curiosa, todas essas 13 mil unidades já estão vendidas muito antes de entrarem na linha de produção, não se preocupa muito com estas mudanças de humor dos legisladores. Basta recordar que lançou os primeiros modelos híbridos plugin há meia dúzia de anos, em que poucos acreditavam, também foi muito comentada essa adoção da tecnologia PHEV, e hoje a realidade é que vende mais de 50% dos veículos com esta tecnologia. O construtor italiano sabe ainda que tem clientes que lhe pedem um Ferrari elétrico, pelo que tem que avançar e satisfazer os clientes, pois para esta marca, este é um mercado em que a procura comanda a oferta, como aliás deve ser.

Pois, mas meio milhão de euros é um preço acessível para um Ferrari ou o construtor italiano está a tentar vender o primeiro elétrico mais caro do que os modelos a gasolina?

Miguel, eu acho que nós é que estamos a ganhar pouco.

Mas é sempre. O problema somos sempre nós.

Claro, exatamente. Para um carro da marca, € 500 mil é lamentavelmente, para nós, claro, um valor perfeitamente razoável. Isto se tiver em causa um dos Ferraris mais recentes e mais potentes da gama. Basta que analisemos o preço de um dos modelos mais recentes, o SF90, é também um dos mais potentes e rápidos, e é um híbrido plugin, como falámos há pouco, que produz 100 cavalo. Tem um preço similar, de maneira que efetivamente 500 mil pode fazer arrepios na coluna de muita gente, mas a verdade é que para os clientes da marca, não assusta ninguém.

Muito bem. Não falta quem pense que os superdesportivos vivem, sobretudo, do motor e da emoção provocada pelo rugido, aquele rugido rouco. Há clientes para comprar um Ferrari elétrico?

A Ferrari diz que sim. Aliás, de outra forma, nota que a Ferrari não se omitiu a conceber, a desenvolver e a produzir o carro que irá chegar ao mercado no final de 2025, um Ferrari elétrico. A Ferrari construiu dentro das suas instalações uma linha de produção específica para este tipo de modelos e anda a trabalhar há muito tempo, afinçadamente, o desenvolvimento de baterias, motores elétricos, porque eles têm um problema quando tu és Ferrari ou Lamborghini ou essas marcas sumarentas que há por aí, tu tens de apresentar um produto que seja melhor que a concorrência, uma vez que a tua imagem depende disso. E a Ferrari é a primeira a dizer que tem a certeza absoluta que a maior parte dos seus clientes querem motores de combustão, nem que sejam versões híbridas plugin, em que o motor original é um motor de combustão. Mas acredita que este novo motor elétrico vai representar facilmente 10% do total de vendas. Como, entretanto, já têm um segundo modelo em carteira, quer dizer, em desenvolvimento, rapidamente concluímos que a Ferrari pode estar daqui a dois, três anos a vender 20% de carros elétricos, o que não é nada mau.

Olhando aqui para a Ferrari, sempre dominou o mundo dos superdesportivos, quando os motores de combustão ditavam a lei, podemos dizer assim. Vai continuar a ser desta forma na fase dos motores elétricos alimentados por bateria?

Olha, esse é que é o tema que eu acredito que todas as reuniões do board da Ferrari, que devem ser altamente polêmicas e a discussão deve ser, por vezes, extremamente violenta, porque para a Ferrari, este é um investimento do tudo ou nada. A Ferrari instalou-se no mercado com aquela imagem inabalável, ou seja, eles têm os motores mais potentes, eles têm os motores mais nobres, no que significa capacidade de fazer autorrotação, extrair uma potência específica superior à concorrência, etc. E também leves, que é para terem um comportamento exemplar. Contudo Eles vão começar a brincar num parque onde nunca estiveram. Eles não dominam a tecnologia elétrica, nem as baterias, nem os motores, e vão ter que lidar com um carro muito mais pesado. Mas quem desenvolve carros de Fórmula 1, carros protótipos, ainda agora venceram Le Mans, consegue arranjar uma forma de fazer tudo aquilo funcionar. E o mercado, neste momento, está de olhos postos, porque os rivais já anunciam potências na casa dos 2000 cv, o que é fisicamente impossível de atingir com o motor que respeita as normas de poluição necessárias para ser homologado, para circular na via pública. A fasquia está muito alta, mas se alguém consegue, devem ser estes senhores italianos.

Mas será que aqui há semelhança dos grandes construtores mais populares e que propõem carros mais acessíveis? Também a Ferrari vai sofrer com a concorrência dos elétricos chineses, por exemplo?

Dificilmente.

É outro mercado, não é?

Eu e tu, se tivéssemos que apostar, apostávamos no não. Porque de uma forma como, por exemplo, um outro segmento, não tem nada a ver, mas também a imagem é determinante. A China tem uma série de marcas de telemóveis, mas nenhuma delas consegue rivalizar com a Apple, que curiosamente é feita na China. Logo, há uma questão de imagem. E a Ferrari ainda está muito por cima de todos os construtores chineses, europeus, norte-americanos e por aí fora. Ou seja, teria que a Ferrari não ser capaz de responder aos melhores produtos, aos melhores desportivos da concorrência, para que essa imagem fosse molestada. E aí voltamos à tua questão anterior, a Ferrari vai fazer tudo para que isso não aconteça, porque o negócio deles depende de continuarem a ser os melhores. No dia que isso não acontecer, vão ter problemas.

Muito bem. E aí temos Ferrari elétrico.

Miguel, já agora, se me permites, é uma vantagem, porque se a imagem se degradar, o que eu não acredito, podemos comprar finalmente uma Ferrari com preço mais em conta.

Sim, se ninguém quiser, nós estamos aqui disponíveis para o receber à vontade.

Para sofrer, estamos cá nós.

Sim, não nos importamos nada de sofrer com a Ferrari destes na mão. Muito bem, Alfredo. Um abraço, até para a semana.

Abraço.