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"Operação Stop" na Rádio Observador. Todas as semanas, as principais novidades do mundo automóvel, como sempre, com o Alfredo Lavrador. Alfredo, sê muito bem-vindo. Como é que estás? Como é que foi essa semana?
Foi ótima. Menos animada do que a vossa aí na rádio, devido à politiquice habitual.
Exato. No mundo automóvel, hoje vamos falar de um cavalinho galopante, um cavalo rampante, aliás, vamos falar da Ferrari, que lançou o seu primeiro veículo elétrico, o primeiro com cinco lugares também, o que não deixa de ser incomum num carro da gama Ferrari, mas tudo indica, Alfredo, que há aqui uma pontinha de iPhone em cada um destes modelos. O que é que pode existir em comum entre os produtos destas duas marcas bem emblemáticas no mercado? Falo da Ferrari e da Apple.
Curiosamente, não é obviamente nem os motores, porque os iPhones não têm motores, nem o ecrã, nem nada do gênero. O que acontece foi que a Ferrari tem o hábito de recorrer a designers, a gabinetes de design externos à companhia, apesar de terem o centro stile Ferrari, para terem ideias frescas sobre a abordagem a novos modelos. Normalmente recorriam à Pininfarina ou à Bertone. Neste caso, como é um carro diferente, destinado a um público diferente também, porque a Ferrari admite que não é o cliente tradicional que vai comprar este Luce, o Ferrari elétrico, decidiram recorrer a um gabinete de design que foi criado pelo ex-chefe de design da Apple, que desenhou iPhones, iPads e por aí fora. E daí a curiosidade, são duas marcas emblemáticas, cada uma na sua área, e se bem que ambos carros têm preços completamente diferentes, porque o Ferrari custa €550 mil mais impostos e os iPhones, por muito caros que sejam, dificilmente lá chegam. Mas essa é a associação entre as duas marcas. Cada Ferrari destes elétricos tem um bocadinho de Apple.
Tudo isto, Alfredo, vem a propósito do mais recente carro da Ferrari, o Ferrari Luce, que é simultaneamente o primeiro modelo elétrico da marca. Não será arriscado para um construtor que sempre apostou na potência e no rugir dos motores, aliás, uma das grandes marcas da Ferrari, estar agora a entrar pelo silêncio que caracteriza esta mobilidade elétrica? Não se perde aqui um pouco da magia?
Eu acho que meteste o dedo na ferida. A Ferrari está obviamente preocupada com essa possibilidade. Tanto que, para teres uma ideia, e para os nossos ouvintes também fazerem uma ideia, o Luce é o primeiro veículo em que a Ferrari não exige que tu já possuas Ferraris, para aceitar a tua encomenda. Ou seja, podes comprar o Ferrari Luce sem possuir um Ferrari de um modelo anterior. Simultaneamente, é também o primeiro carro que a Ferrari aceita limitá-lo a 5% da venda total da marca. Ou seja, como eles vendem cerca de 20 mil carros por ano, estamos a falar de mil unidades. E nota que para produzir este Luce, a Ferrari teve que construir uma fábrica específica para este modelo, uma vez que a tecnologia não tem nada a ver com os outros. Não há V8, V12, V6, nem turbos, nem nada do gênero. Logo, foi uma coisa feita de raiz.
Alfredo, não é só de potência que vive um superdesportivo. Será que este Ferrari Luce está à altura dos pergaminhos da marca no que diz respeito a comportamento em curva e a uma condução nos limites?
Sim, o que tu afirmaste inicialmente é completamente verdade. Ou seja, há uns pergaminhos, há um standard que o Luce, elétrico ou não elétrico, tem de respeitar. E daí que ofereça 1050 cavalos, 310 km/h de velocidade máxima, 2,5 de 0 a 100 e por aí fora. Agora, no que diz respeito ao resto, ou seja, o comportamento, a travagem, tudo isso, a Ferrari esforçou-se para que este carro fosse tão bom elétrico quanto uma berlina convencional pode ser. E daí que tenha colocado quatro motores, um por roda, que é para poder aplicar potência em cada um dos motores para modular, digamos assim, o comportamento do carro, tornando-o mais neutro para um cliente mais conservador ou que vá apenas em ritmo de passeio, mas mais ousado, ou seja, com mais atravessadelas e por aí fora, para um cliente mais agressivo e que se queira divertir ao volante. Simultaneamente, este carro, obviamente, como tem quatro motores, tem quatro rodas motrizes, mas também possui quatro rodas direcionais, para que seja mais ágil na cidade, mas seja mais eficiente a curvar muito depressa em autoestrada ou onde quer que seja. De maneira que há uma série de fatores que eles não abriram mão para a conceção deste primeiro carro elétrico.
Ora, a palavra passa agora também para o público e para os consumidores. Quantos Luce é que pensa a Ferrari produzir, Alfredo, e quantos é que espera vender? É possível ter ideia desses números?
A Ferrari é bastante comedida nas previsões. E isso por quê? Porque a pior coisa que lhe pode acontecer é eles abrirem muito a boca, como se costuma dizer, na altura das previsões e depois falharem e acusarem o modelo em causa de ser um fiasco. Eles nunca são muito adeptos de fazer previsões muito otimistas. Agora, para já, em cima da mesa estão aquelas mil unidades por ano que eu te falei. É bem provável que esse valor venha a ser ultrapassado. E por quê? Porque na apresentação, a Ferrari admitiu que todos os veículos que eles podem construir este ano e no próximo, já estão vendidos. E nota que a Ferrari nunca produz um carro que não tenha já cliente. Ou seja, não há stock de Ferraris. Eles só fazem carros em que alguém já pagou uma parte, já encomendou, o que implica pagar uma boa parte, e está à espera que lhe entreguem. De modo que será difícil que sejam apenas mil unidades, mas a verdade é que ninguém pode dizer. O que eu também te garanto é que, a menos que algo corra muito mal, não será o único Ferrari elétrico que vamos ver nos próximos anos.
Para já surge este Ferrari Luce, o primeiro elétrico desta marca italiana, uma das mais incontornáveis do mundo do automobilismo.
E é um brinquedo que te calhia muito bem. Basta que reúnas aí €550 mil, mais impostos, claro, e pronto, tinhas um carro giríssimo para andar aí a passear.
Cinco euros de cada vez, pode ser que um dia dê para.
Ora vê, isso é que é estratégia.
Meu caro, um grande abraço. Voltamos a marcar encontro para a semana para mais uma "Operação Stop". Até lá, Alfredo, tudo a correr bem.
Adeus.