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Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do programa "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Bruno Vieira Amaral. Eduardo, boa tarde. Hoje vamos falar de maldade. É possível falar da maldade de uma forma levezinha?

Olá, Bruno. Prazer estar à conversa outra vez consigo.

É verdade, de vez em quando reencontramo-nos aqui.

Exatamente. Bruno, levezinha eu acho que não, como é evidente. Mas acho que, se calhar, às vezes falamos pouco dela. Às vezes temos a ideia que somos todos inacreditavelmente bons e que as pessoas à nossa volta não deixam de ser assim também um pouco. E depois, quando nos confrontamos com manifestações exuberantes de maldade, ficamos mais descansados, suspiramos, afinal, não temos nada a ver com aquelas pessoas. No entanto, eu acho que é importante que tenhamos todos a noção que de vez em quando somos capazes de ser um bocadinho maus. Somos distraídos, somos descuidados, às vezes somos indiferentes, que é pior que tudo. E nessas circunstâncias, tomando em consideração aquilo que as pessoas esperam de nós, somos um bocadinho maus, sim. Sermos um bocadinho maus não significa sermos más pessoas. Aliás, eu acho que temos a noção, todos nós, que quando somos um bocadinho maus, isso é uma interpelação tão séria, que às vezes precisamos de pisar o risco ou ultrapassá-lo ligeiramente para fazermos as escolhas devidas que pretendemos fazer e percebermos que a bondade é uma escolha, antes de mais, e é um exercício de inteligência logo a seguir. E se for assim, às vezes as pequenas maldades são fatores de crescimento que nós agradecemos, porque sem eles talvez não conseguíssemos ser como somos.

Mas a maldade também é uma escolha? O Eduardo dizia que a bondade é um exercício, é algo que se escolhe. E a maldade?

Bruno Vieira Amaral. Bruno, eu acho que sim. Vamos lá ver. Eu acho que quando nós vamos a uma unidade de cuidados intensivos neonatais e percebemos como somos frágeis e como o apego é um apelo absolutamente visceral e que nós transformamos o apelo em amor a seguir, nós percebemos que não há ninguém que nasça mau e que a maldade é o resultado da exposição a experiências muito violentas. E já agora, a muitos apelos ao apego que foram sendo insatisfeitos pelo caminho. E, portanto, em muitos momentos, a maldade é um exercício, que dito desta maneira, pode parecer escorregadio, mas é em muitas circunstâncias, Bruno, um exercício impulsivo, reflexo, às vezes, que no final de contas, tem uma cota de vida a puxar por ele, sem dúvida nenhuma. O problema não é esse exercício impulsivo, e é o que se faz a seguir, que às vezes atrás da maldade vem uma inveja de morte em relação a todas as pessoas que têm o que não temos e que nós achamos que por mais voltas que possamos dar, nunca venhamos a conseguir ou a conquistar. E, portanto, nessas circunstâncias, a maldade é uma fuga ao pensamento, de facto, porque acima de tudo, quando se é mau uma vez, duas, três, compulsivamente mau, claro que é uma escolha. É como se, no fundo, já se tivesse perdido tudo ou se tivesse perdido o essencial, o indispensável, que já nada vale a pena e que nessas circunstâncias, faz com que as pessoas escolham continuar a fugir pra frente sem terem um pingo de culpabilidade, sem fazerem um gesto de reparação e sem medirem sequer aquilo que fazem aos outros, sobretudo porque às vezes a dor dos outros é uma forma de sossegarem um bocadinho mais a dor que têm dentro de si e que tentam ocultar todas as vezes.

Portanto, na origem da maldade estará sempre esse sofrimento. Será a maldade que nós praticamos uma forma de retribuição da maldade de que fomos vítimas em algum momento da nossa vida?

De certa forma, sim. Eu acho que a dimensão da maldade é proporcional à violência a que fomos expostos. E, portanto, todos nós sabemos, a um nível muito mais pequenino, que quando estamos zangados com o mundo ou com a vida, somos capazes de dar um pontapé na primeira coisa que apareça. E, obviamente, todos nós percebemos que um exercício desse, de uma raiva, que é no fundo, mais ou menos inocente, ainda assim, parece aliviar-nos um bocadinho uma dor que vai ganhando espaço dentro de nós. Mas sim, é uma forma de nós tentarmos entrar num movimento olho por olho, dente por dente e nessas circunstâncias Acertarmos contas com uma vida que nos desamparou, que nos decepcionou, que nos magoa todos os dias.

Essa maldade que nós praticamos mantém-nos presos a um ciclo de sofrimento, porque a maldade nunca afeta só a pessoa a quem se dirige, mantém preso o autor. A pessoa que pratica a maldade mantém essa pessoa presa a esse ciclo, do qual é muito difícil sair.

Sim. Fica cercado, basicamente. Quando se vomita a maldade, há um sentimento de triunfo logo a seguir e depois surge, inevitavelmente, a sensação de que as pessoas sobre quem se despeja a maldade podem vingar-se a qualquer momento e, portanto, esse sentimento de triunfo, logo a seguir, acaba por ser acompanhado de uma dimensão um bocadinho persecutória de que não só aquela, como todas as outras pessoas nos possam fazer tanto mal quanto aquilo que nós fizemos. E, portanto, sim, é um cerco apertado, sufocante e é um cerco de morte, basicamente, porque não vale a pena termos a ideia que se conquista a vida, a vivacidade praticando o mal. Não faças mal à espera que te venha bem.

Resulta algum bem.

Exatamente. É aquela máxima sábia com que todos nós crescemos e que fomos aprendendo com as nossas pequenas maldades, como é evidente.

Sendo a maldade uma escolha também individual, um comportamento individual, haverá épocas, períodos históricos em que estejamos ou sejamos, enquanto um todo, mais propensos à maldade? Vivemos numa dessas épocas ou não?

Eu tenho a ideia que se nós consultarmos as redes sociais e os comentários a coberto de um nickname, somos tentados a dizer que sim. Quando nós percebemos, a nível da política, por exemplo, a forma como se lesem os maus e se tentam exterminar, digamos assim, e isso se pratica com alguma naturalidade, eu estou tentado a dizer que sim. Quando nós percebemos pessoas no plano político e social a serem assumidamente maus, rudes, agrestes, muito mal-educados e fazerem quase disso um exercício de vaidade, eu estaria tentado a dizer que sim. Ou seja, às vezes, nestes momentos em que há grandes convulsões de natureza econômica e social, as pessoas ficam todas muito mais sofridas e, no fundo, reagem como uma multidão. Em 1900, já lá vão um par de anos, houve um homem francês que falou sobre a psicologia das multidões e dizia que, no fundo, uma multidão não pensa, reage, é impulsiva, é muito sensível aos apelos de uma emoção que passa de boca em boca e se generaliza. É quase contagiosa essa reação. E se nós percebermos aquilo que muitas vezes se passa nas redes sociais, estaríamos tentados a dizer que sim, claro. Agora, há um pormenor que eu acho que é importante. A natureza humana passou por violências tremendas. Os nossos antepassados viveram violências ao longo do seu crescimento e viram coisas tão inacreditáveis que tinham todos os argumentos do mundo para se vingarem por ali adiante. E a humanidade foi crescendo, apesar de todas as maldades, e foi crescendo em nome do bem. Portanto, eu acho que quando nós olhamos pra história, devemos perceber que às vezes, como se diz por aí, parece haver um conjunto de ciclos em que a economia, as questões sociais se balham todas. E depois existe sempre alguém, mais ou menos messiânico, que diz: "Os culpados são aqueles". Mas depois nós vamos crescendo e vamos ficando significativamente bons. E, portanto, eu não acho que devemos estar assustados com o futuro, mas se pudermos participar no presente, criando uma espécie de contraditório em relação a tudo aquilo que se faz nas escolas, em casa, etc, eu acho que nós só saímos a ganhar.

E terminamos o "Porque sim, não é a resposta de hoje" com esta nota de esperança otimista, Eduardo. A maldade sendo uma escolha, podemos escolher não seguir esse caminho. O "Porque sim, não é a resposta de hoje" chega ao fim. Estamos sempre em podcast, nas plataformas habituais, no site observador.pt. Envie-nos as suas mensagens para o e-mail eduardosar@observador.pt. Eduardo, muito obrigado. Um grande abraço. Até amanhã.

Outro para si. Até amanhã.