Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar da primeira desilusão amorosa. Olá, Eduardo. Pra um adolescente, o primeiro coração partido pode parecer o fim do mundo. O que é que nesse momento está em jogo pra um adolescente?

Olá, Judite. Ai, Judite, a vida toda. Fica tudo debaixo de uma névoa de dúvidas. Até porque é verdade que nós somos todos um bocadinho egocêntricos quando amamos e, portanto, estamos à espera que alguém a quem nos dediquemos seja capaz de nos dar tudo, mais ou menos a esse nível ou ainda mais reforçado. E quando percebemos que, afinal, aquilo que somos ou aquilo que damos, pode não chegar pra que outra pessoa diga: "Sim, eu quero ficar contigo", ficamos absolutamente destroçados e, portanto, nessas circunstâncias, ficamos sem jeito. Morremos um bocadinho pra vida, Judite. Eu acho que a expressão morrer de amor vem um bocadinho daí. Depois, quando temos experiência de vida e às vezes passamos por algumas dessas situações, às vezes somos nós a protagonizá-las. Percebemos que, do ponto de vista amoroso, acontece morrermos algumas vezes de amor e depois sermos capazes de nos regenerarmos. Mas uma primeira vez é uma coisa muito séria. O único aspecto que eu acho que merece reservas, Judite, é que em relação a um primeiro amor, nós ficamos sempre muito enternecidos com os nossos filhos. Mas às vezes descrevemos a pessoa de quem eles se separaram como a namoradinha ou o namoradinho, que é quase uma maneira de dizer, por outras palavras: "Sim, namoraram, mas não é uma coisa tão importante assim." E eu não estou tão seguro. Diz-me a vida, a experiência, sobretudo, que às vezes estas relações ficam mais ou menos em aberto a vida toda. E eu já perdi a conta de pessoas que se divorciam e vão à procura de um primeiro amor de quem se desencontraram sem querer, pessoas que ficam viúvas e vão à procura de um primeiro amor. Ou seja, não é um pormenor tão insignificante na vida de uma pessoa, mas às vezes é a primeira perda clara e significativa que se tem na vida, o que, em cima de ser uma rutura amorosa, torna tudo muito mais doloroso.

Os adultos tendem a minimizar, não é? Com o: "Isto passa", o: "Ainda és muito novo". É uma tentativa de consolar que não funciona.

Judite, e ainda bem que estamos só a conversar os dois. Mas às vezes não é só de consolar. Eu acho que às vezes as pessoas crescidas têm uma pontinha de inveja em relação à convicção, à autenticidade com que um adolescente se entrega a uma relação. E o "isso passa" tem um pouco a ver com alguém que certamente já passou por situações semelhantes e que se calhar tem dificuldade em se recordar da forma séria e dolorosa como sobreviveu a elas. A verdade é que passa, claro que passa, mas nunca passa a ponto de nos sentirmos capazes de ultrapassar essa relação e resolvê-la. Muito bem resolvidinha, porque em muitas circunstâncias, deixa ali algumas páginas em branco dentro de nós, que ainda por cima, porque não temos experiência de vida e porque somos um bocadinho intermulados a falar, nunca esclarecemos devidamente. E, portanto, não deixa de haver névoas grandes que impedem que depois percebamos o porquê. E às vezes o porquê não tem nada a ver conosco, pode ter a ver com outras coisas, mas às vezes os porquês ajudam muito a nós sairmos de uma relação mais ou menos reparados, restaurados, digamos assim. E quando se é adolescente, isso é mais difícil, claro.

Ainda por cima agora, quando as redes sociais complicaram tudo. Porque o ex-namorado continua visível, a vida dele continua online.

Judite. Sim.

Não é? Como é que ele-

E a ex-namorada faz uma coisa que os adolescentes, não são só os adolescentes a fazer, Judite, que é: "Pelo sim, pelo não, vou dar uma espreitadela às redes sociais." Às vezes os adolescentes são muito bonitos na maneira como dizem isso, porque são muito autênticos. "Eu até nem me importo que ele venha a ter outra namorada, mas eu queria que, ao haver alguém a namorar outra vez, eu queria ser eu a primeira pessoa a namorar." Que é como quem diz: "Se eu puder sofrer um bocadinho por aquilo que eu sofri, paciência, eu também não deixo de dormir por causa disso."

Mas a verdade é que desapegar é mais difícil quando o outro não desaparece.

Eu acho que o grande ponto de sabedoria das relações amorosas é que depois de alguém entrar na nossa vida, nunca mais sai. Nunca mais. E portanto, eu acho verdadeiramente ternurento quando os adolescentes chegam ao pé de mim e me perguntam: "Eduardo, como é que eu me posso esquecer de alguém?" E ficam invariavelmente zangados comigo quando eu digo: "Esquecer, não, por favor. Esquecer é que não é possível, porque não é mesmo possível." As pessoas quando entram na nossa vida passam a ter um bocadinho do nosso coração, nunca mais as esquecemos, no melhor e no pior. No pior, porque às vezes deixam um rasto de dores e de episódios feios. No melhor, porque construímos com elas, apesar de toda a ingenuidade, alguns episódios tão bonitos e tão inimitáveis, que não há como esquecer tudo isso, porque passa a ser um património nosso. O grande desafio a seguir não passa por nos esquecermos depois de nos separarmos, mas por sermos capazes de um dia encontrarmos alguém que valha tanto mais que aquela pessoa, que aparentemente até parece que nos esquecemos dela, sendo que, todavia, ela continua a viver dentro de nós.

Há adolescentes que se fecham completamente. Muitos não querem sair depois disto, não querem falar. Quando é que isto começa a ser preocupante, de alguma forma?

Judite, quando os pais perdem mão na situação, que é uma coisa fácil, porque os pais e as mães, no meio daquele embaraço, deitam mão a tudo, inclusivamente falando de algumas experiências que tiveram. Ora, as experiências dos pais são importantes, mas às vezes há linhas muito fininhas a separar aquilo que é bom que o filho saiba, daquilo que o filho agradeceria se não soubesse. Ou quando os pais ficam tão aflitos que reagem da forma menos razoável pra um adolescente, que é: ficam aflitos. Que é como quem diz: "Por favor, não estejas assim, porque eu não sei como é que hei de gerir, eu não sei como é que te hei de ajudar." E, portanto, isso acaba por ser uma desilusão tão grande pra um adolescente, porque é como se ele dissesse: "Uou, eu afinal julgava que tinha uma mãe e um pai topérrimo de gama", mas depois quando uma pessoa está aflita, percebe que são excelentes pais, mas depois têm aqui algumas dificuldades que eu gostaria que não tivessem. Portanto, ele tem direito a estar triste, muito triste, mas tem direito a pais chatos. Chatos é que estejam lá, que não se rendam à tristeza de um filho, que por ensaio e erro, como os pais fazem tão bem, Judite, o resgatem permanentemente e que não digam aquelas coisas que todos dizemos quando ficamos embaraçados, que é: "Pronto, vais encontrar alguém melhor." Não, naquele momento não, por favor. A mãe e o pai também tiveram muitas desilusões amorosas. Ninguém quer saber, se faz favor, e outros tipos de banalidades, mas quando nós estamos aflitos, são compreensíveis, porque o grande problema é: nós, os pais, estamos equipados pra tudo, menos pra vermos nossos filhos sofrerem, porque ficamos tão assustados, que de repente, eles estão ali com uma dor imensa e nós a sentirmo-nos maus pais, quando a ideia não é essa.

É assim, um coração partido. O primeiro coração partido. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Até amanhã, Judite. Um abraço pra você.