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Estamos todos em busca do sucesso, mas será que o conceito evoluiu ao longo do tempo? E o que de fato nos faz sentir realizados e felizes? Olá, Eduardo. O que significa ser bem-sucedido na sociedade em que vivemos hoje em dia?
Olá, Edite. Eu tenho medo que, na sociedade em que vivemos, ser bem-sucedido signifique fundamentalmente ter grandes recursos financeiros e acesso a um conjunto de bens que em condições normais as pessoas não têm. Eu acho que todos medimos muito o sucesso por aí. E então, quando perspetivamos o sucesso dos nossos filhos, perspetivamo-lo de uma forma escorregadia, todavia, acho eu, pressupondo que quanto mais depressa eles forem autônomos financeiramente e ganharem muito dinheiro, muito depressa, isso é sinônimo de sucesso. Feitas as contas, eu não acho que seja rigorosamente assim.
A hipótese do sucesso estar relacionado com a felicidade?
Pois, Edite, eu acho que sim.
Era o ideal, não era?
Mas é por aí que temos que ir. Sendo certo que às vezes há sempre aquelas pessoas com humor conflitivo, que costumam dizer que o dinheiro não traz felicidade a ninguém, mas seriam infelizes com dinheiro. Não sei eu. Eu também acho que é ser feliz. Os psicólogos muitas vezes definem isso como um bem-estar. E essa designação é uma designação razoavelmente sensata, porque no fundo não tem aquele furor de uma ideia de felicidade como um desejo a que se chega com uma facilidade fora do lugar. E, por outro lado, tem esta dimensão de uma tarefa aberta. É qualquer coisa que se constrói peça a peça e que de vez em quando desequilibra um pouquinho e se constrói outra vez. E, portanto, eu acho que sim, sem dúvida alguma, um bem-estar é muito mais razoável para uma ideia de sucesso. Agora, isso também se faz de escolhas, Edite. E a determinada altura, aquilo que nos inquieta a todos, seguramente, é que as escolhas parecem viver numa espécie de centrifugadora para muitas pessoas. E elas, no fundo, têm a noção do que é importante, têm a noção dos caminhos que são indispensáveis para que depois cheguem lá e conquistem, de fato, essa ideia de felicidade e de sucesso. Mas, ao mesmo tempo, as contingências da maior parte das pessoas, lá está, por questões de natureza, sobretudo financeira, são contingências tão significativas e tão sufocantes que de repente parece que, de fato, o sucesso e o bem-estar passam a ser objetivos mais ou menos longínquos, quando não deviam ser.
Depois a isto junta-se a pressão das redes sociais, em que o sucesso é espelhado diariamente, e sucesso e felicidade andam a pari passo. Sucesso, aqui sucesso material e felicidade.
É verdade. Eu acho que todos nós sabemos que aquilo que aparece nas redes sociais muitas vezes é um Photoshop fantástico, mas depois quando nós nos confrontamos com aqueles posts que acabam por aparecer, como diz o nosso amigo Ricardo Conceição, irrita, até porque as sopas são tão bonitas que parecem pouco reais em relação àquelas que nós conhecemos. E, portanto, com tanto Photoshop, aquilo que parece é que a vida da maior parte das pessoas é tudo aquilo que muitas vezes não é a vida de quem não coloca lá uma fotografia, um comentário e de certa forma se mostra, se exibe junto dos outros. A mim parece-me que quanto mais nós estamos seguros em relação ao nosso bem-estar, menos precisamos de andar exuberantemente a demonstrar que isso acontece. E, portanto, há ali uma partilha que eu muitas vezes não entendo que seja uma partilha no sentido literal. Às vezes é muito mais uma forma de as pessoas se porem em bico de pés e passarem a vida a exibir-se e a dar a entender, tomando em consideração todos os outros, que elas têm as melhores sopas, os melhores automóveis, vão aos melhores sítios, como se no fundo estivessem sempre a dizer: "Eu estive lá". E estar lá não significa que eu, de alguma forma, tenha vivido as coisas como era suposto que o fizesse.
E depois a isso se junta a comparação constante. Como é que nós lidamos com o sucesso alheio, Eduardo?
Edite, a diferença com a inveja é como faz parte, e ainda bem, porque nós somos pessoas particularmente influentes e, portanto Quando alguma pessoa chega a um patamar que nós gostaríamos que fosse nosso, claro que nós nos recoslijamos muitas vezes e temos esta capacidade de admirar quem trabalha para lá de chegar e fazemo-lo de uma forma genuína. Evidentemente que há sempre pessoas que insinuam que o sucesso dos outros se faz por uns atalhos mais ou menos sombrios, mas não é verdade. Há pessoas que trabalham enormemente e às vezes solitariamente, até que cheguem a um sucesso e, portanto, merecem a nossa admiração. Agora, eu também gostava que houvesse uma ponta de inveja, porque ao contrário daquilo que nós imaginamos, sentir inveja e sermos invejosos não é a mesma coisa. Sentir inveja significa que nós reconhecemos o que é bom, que de alguma forma cobiçamos isso e às vezes não nos damos conta, mas transformarmos o sentimento de inveja não é uma coisa destrutiva, é a constatação de um objetivo, de um desejo que gostaríamos que fosse concretizado também por nós. Quando fazemos isso e transformamos o sentido de inveja em ambição, aos dites, como nós crescemos.
Mas quando não é aspiracional e é uma comparação per si, ela pode ter impactos negativos em nós.
Evidentemente, porque depois passamos a vida a ser corrosivos e damos sempre a entender, quantas vezes nós vimos isto, que os outros conseguem as coisas de uma forma muito íngreme, muito ilícita, muito obscura e que nós não as conquistamos, não tanto porque não sejamos capazes, porque não tenhamos as qualidades para isso, é porque queremos ser o exemplo dos exemplos. E quando chegamos aí, e nós vimos isso em todas as áreas, na política, na vida de todos os dias mesmo, das pessoas que estão ao nosso lado, estamos ali a ficar corroídos, mordidos de inveja, como às vezes as pessoas sabiamente acabam por dizer, e quanto mais o fazemos, menos acabamos por crescer. E isso sim, é trágico. E há muitas pessoas que passam a vida a dizer que têm um sucesso enorme, porque de alguma forma têm este tipo de princípios que os outros não cultivam, quando no fundo, lá está, quando as pessoas afirmam em voz alta, muitas vezes as qualidades que têm e os outros não, é motivo para estarmos de pé atrás, porque provavelmente nem sempre aquilo que elas dizem corresponde àquilo que elas fazem.
Fica o desafio, questionarmos o que realmente importa, sem cair na tentação das comparações. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e encontramo-nos amanhã para mais um tema. Obrigada.
Até amanhã, Judite.
Até amanhã.