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Diz-se que quem ama confia, mas também se diz que um bocadinho de ciúmes até sabe bem. Afinal de contas, Eduardo, em que é que ficamos? Olá.
Olá, Judite. Saber bem, isso tem um toque de polvo avinagrado, não é?
Mas é um sentimento normal ter ciúmes?
Não, é um sentimento claramente saudável. Judite, então quando nós gostamos muito de alguém, por mais que nós compreendamos e aceitemos que essa pessoa tem que ter a sua vida, é evidente que quando sentimos que ela tem olhos para outras pessoas que não nós, ou um olhar com um brilho que, se calhar, em muitas circunstâncias, não é bem o brilho que nós sentimos todos os dias em relação a nós, ou mesmo quando nós sentimos que essa pessoa tem um brilho no olhar em relação a um filho que não é capaz de ter em relação a nós, claro que se acende uma luz. E essa luz faz com que nós tenhamos algum ciúme. O grande problema do ciúme não é tanto senti-lo. Já de si, é um bocadinho chato. O grande problema é que quando nós o sentimos, falamos dele de uma forma tão esquisita, tão inacessível, tão hermética, amuamos, fazemos birra, somos provocatórios, enfim, aquelas coisas todas que era suposto que não fizéssemos, que nessas circunstâncias, de facto, estragamos tudo e, portanto, o ciúme é indissociável de uma relação amorosa e quanto mais amamos, num primeiro momento, mais ciúme temos. Sendo certo, que à medida que nós amamos profundamente alguém, percebemos que há uma diferença muito grande entre aquela pessoa ser nossa e aquela pessoa fazer parte de nós. E temos a noção, e por isso é que depois nós somos muito inteligentes a gerir isso tudo, que se nós a magoamos com o nosso ciúme, ela gosta menos de nós e nós precisamos muito que ela goste todos os dias mais um bocadinho. E é por isso que depois, tentando compatibilizar isso tudo, amamos e temos ciúmes ao mesmo tempo.
E o que os ciúmes revelam sobre a nossa autoestima?
Que somos pessoas de coração quente, dito de frontal, inevitavelmente. Agora, vamos lá separar os ciúmes saudáveis dos ciúmes doentios. E os ciúmes doentios aí já é outro campeonato completamente diferente, Judite, porque os ciúmes doentios já pressupõem que uma pessoa seja exigente, se perca em pequenices exorbitantes e outras coisas do gênero, porque feitas as contas, se tem em tão má consideração que, no final, acha que qualquer movimentozinho da autonomia da outra pessoa é um exercício declarado de traição e, portanto, esse tipo de insegurança verdadeiramente doentia, que transborda de uma forma muito clara em muitas relações amorosas, esse sim, é que merece ser taxado com sobretaxas e sobretaxas. Agora, eu também percebo que, num primeiro momento, quem é vítima desse ciúme, às vezes se enreda e confunda aquilo que é um exercício de prepotência com aquilo que é uma relação amorosa, que parece estar a palpitar sempre no máximo, como às vezes quem tem esse tipo de ciúmes dá a entender.
E o ciúme pode ser um pedido de atenção?
Judite, também é. Feitas as contas, não é?
É um pedido para: "Dá-me mais atenção."
Seguramente. Pelo menos é uma carta reivindicativa, e como carta reivindicativa, não está nada mal. Agora, volto a lhe dizer, o grande problema das cartas reivindicativas é se não são claras o suficiente. E se são escritas de uma forma tão cheias de entrelinhas, de meias-palavras e de murmúrios e outras coisas do gênero, que aquilo que no fundo é um pedido de colo, passa a ser uma dor de cabeça. Aliás, eu não me canso de chamar a atenção que as crianças nunca pedem colo, exigem colo. Ou seja, pedem colo, mas puxam-nos pelas calças, olham pra cima e dizem: "Eu quero colo", sabendo de antemão que o vão ter. E eu não percebo por que às vezes quando nós crescemos, não fazemos o mesmo.
É verdade que há pouco falava do ciúme obsessivo, daquele que quer controlar. E esse sufoca. As relações sobrevivem a isto?
Como relações amorosas, não, claro que não, Judite. Porque são relações em que uma pessoa, em vez de se sentir preenchida de luz, se sente cada vez mais opaca e cheia de bancos de nevoeiro a separá-la da outra pessoa e, portanto, não, de todo. Agora, sejamos razoáveis. Muitas das nossas pequenas ou grandes perturbações mentais, e todos nós temos as nossas, por mais pequeninas que sejam Onde elas ficam a nu é nas relações amorosas, nas relações mais próximas e mais íntimas, e por isso é que o melhor das nossas desorganizações vai sempre cair no colo de quem gosta muito de nós, seja a pessoa que nos acompanha ou os nossos filhos. E portanto, nessas circunstâncias, isso faz com que uma relação pareça um bocadinho osteoporose, não fratura, mas vai se esboroando, e quando damos conta morreu.
Já pouco resta. É uma forma de controlar o outro e muitas vezes está no âmbito até da violência doméstica.
Sem dúvida, Judite, porque depois as pessoas fazem as confabulações mais diversas, por isso é que pondo o acento tónico neste ciúme doentio, muitas vezes as pessoas falam delírios de ciúmes. Ou seja, passam a projetar naquela pessoa de quem gostam muito, todos os fantasmas que foram construindo ao longo da sua vida e que não têm rigorosamente nada a ver com ela. E portanto, às vezes tentam exorcizar esses fantasmas de cada vez que lhe fazem mal, sendo certo que, de uma forma muito pouco razoável, estão a danificar, provavelmente, a única relação que lhes dá vida e lhes dá até saúde mental nesse contexto. E portanto, sim, estão muitas vezes associados à violência doméstica, mas cuidado, que às vezes nós imaginamos a violência doméstica naquela versão de nódoas negras e coisas muito graves, como tragicamente vamos ouvindo por aí, e às vezes há uma violência doméstica quase de seda, que são aqueles comentários mais depreciativos, a maneira como não nos tocam, por exemplo, ou quando procuramos o toque, as pessoas reagem com alguma repugnância. E portanto, há uma certa violência doméstica silenciosa que faz com que as pessoas que são vítimas dela, muitas vezes tenham até dificuldade em perceber no primeiro momento o que é que está a acontecer.
Já agora, para terminar. É uma emoção que pode ser educada numa relação saudável?
Judite, claro que sim. Todos nós já fomos muito parvos por causa de ciúme, de que não haja dúvidas disso.
E vamos aprendendo.
Claro, Judite, porque nós vamos tendo outros tipos de experiências e as pessoas que estão conosco muitas vezes educam-nos de uma forma quase inacreditável para aquilo que nós imaginávamos, mas é evidente que, nomeadamente nas paixões dos adolescentes, quando eles começam a descobrir o amor, vão também descobrindo dimensões um bocadinho absurdas de manifestarem isto tudo. A verdade é que se não as manifestarem, depois não têm a oportunidade para as educar. E portanto, educar, volto a dizer, não é reprimir, é só um exercício de sabedoria. E quando nós não renunciamos à sabedoria, ficamos todos mais inteligentes e mais bonitos, e era importante que não perdêssemos isso.
Não desfarecemos o ciúme do romantismo, porque já ninguém cai nessa.
Por favor.
Eduardo, obrigada.
Eu é que agradeço.
Até amanhã.
Até amanhã.