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Bem-vindo ao "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França e hoje vamos falar sobre dizer não. Olá, Eduardo. Por que dizer não ainda é visto como um sinal de mau feitio?
Olá, Judite. Porque eventualmente fomos todos mal-educados. E confundimos a bondade com o fato de sermos bonzinhos. Só por isso.
Mas há um momento em que agradar passa a ser uma espécie de autoanulação?
Facilmente, Judite. Deixa-me só fazer este trajeto, que se calhar pode ser engraçado. Quando nós temos um filho muito pequenino e ele vai ganhando autonomia e vai sabendo quanto vale, basicamente. Salta-nos do colo e começa a ter a vista na ponta dos dedos, que é uma coisa magnífica. Menos quando se dirige ao armário dos cristais ou, por exemplo, ao armário dos terzentos. Seja como for, nessas alturas, o que uma criança pequenina faz é estar interessadíssima a descobrir o que é que lá estão os copos a fazer, por exemplo. E de repente, há um não da mãe muito vincado. A mãe diz não com os olhos e diz não com a boca. E o que as crianças fazem, de uma maneira que eu acho deliciosa, é a certa altura pensar assim: "Pronto, eu vou ter que perceber o que está a acontecer, porque uma mãe com o coração imenso não pode dizer que não desta maneira." E o que as crianças fazem depois é, pé ante pé, vão direitinhas até o armário e antes de começarem a mexer nos copos, olharem pra mãe, às vezes elas estão com a xuxa no canto da boca, a dizer assim: "Pronto, agora vou fazer um sorriso supersimpático e tu não vais ter coragem de me dizer que não." E a mãe diz não, e aquilo estraga tudo. E a certa altura, as crianças pensam assim: "Pronto, isto é muito importante pra ela, eu vou ter que perceber como é que funciona." "Olha, o bebê quer ir à rua." "Não", respondeu. "Bom, o bebê quer ficar em casa." "Não." E a certa altura, passa-se por um momento em que tudo é não, porque no fundo, um bebê está a perceber como é que funciona. Primeiro, nós aprendemos a dizer que não, depois aprendemos a dizer que sim, depois aprendemos a dizer por quê e finalmente aprendemos a dizer eu. E, portanto, eu acho que se calhar, em muitos momentos, nós fomos um bocado mal-educados para isto tudo, Judite, porque temos a ideia que o não é, de facto, um conflito. Claro que é um conflito. É eu dizer a uma pessoa de quem gosto muito: "Olha, eu não estou a gostar, tu magoaste-me, não pode ser desta maneira." E, portanto, quando eu digo que não a alguém, estou a dizer o quê? Estou a dizer que sim àquilo que eu acho. Vou dizer que sim à capacidade de entendimento que tu certamente traz em relação aos meus nãos. E já agora, porque eu digo isto no contexto desta relação, estou a dizer que sim à nossa relação. Portanto, um não são três sims. Mas nós fomos muito educados pra trazer um pouquinho as pessoas ao colo. Se nós não dissermos que não, as pessoas gostam mais de nós. E isto, a certa altura, cola-se à pele. E cola-se mal, Judite. E, portanto, há sempre uma altura em que é preciso invertermos isto. Claro que se nós vamos habituando mal as pessoas e finalmente dizemos que não, vai haver sempre alguém a dizer assim: "Olha, que bicho é que te mordeu?" Que é quase como quem diz: "Mas tu eras uma pessoa tão fixe, como é que de um momento pro outro te tornaste assim?" Evidentemente, quando nós não dizemos que não, ficamos sempre com esta dúvida: as pessoas gostam de mim por quê? Porque eu sou bonzinho ou porque eu sou verdadeiro? E eu acho muito mais graça quando gostam de nós, porque somos verdadeiros.
Claro. Como é que se aprende a pôr limites?
Dizendo que não. Ou seja, se aquilo que o outro está a fazer me está a magoar, Judite, é não.
Mas depois de habituar essa pessoa ao sim, é difícil dizer não.
É, isso é verdade, Judite. E às vezes perdem-se relações. Entretanto, admito que sim, que se calhar não eram pessoas que gostavam de nós. Eram pessoas que gostavam dos nossos sims permanentes, como é evidente. Agora, a verdade é que quando nós dizemos que não a alguém, Judite, de alguma forma estamos a educar pessoas, estamos a dizer assim: "Olha, eu até acredito que tu não tenhas feito por mal, calma, mas a verdade é que quando falaste neste tom, magoaste. E, portanto, tenta falar de outra maneira." E isto de nos educarmos uns aos outros, permite que nós possamos Dizer tudo uns aos outros com boa educação. Eu acho que nós vivemos num tempo muito esquisito, em que, de repente, a boa educação parece ser um bem em vias de extinção e nós temos que a reabilitar com a seriedade que um patrimônio da humanidade como esse merece.
Porque senão, de outra forma, ficamos de bem com os outros, mas de mal conosco.
Exatamente, o Sérgio Godinho dizia isso de uma maneira muito difícil.
Diz, sim, senhor.
Porque depois a interpelação que se faz é mesmo: mas que força é esta? E, portanto, numa circunstância dessas, inevitavelmente, que é exigível, digo eu, que quando os nossos filhos, na escola, com o professor, num registro social, compreensivelmente, às vezes, a medo, por insegurança, seja pelo que for, se encolhem e não dizem que não, é muito importante que nós nos cheguemos à frente e dizer assim: "Eu fico muito zangado se tu, esquecendo essa força magnífica que tens, faças um esforço pra estar de bem com os outros e de mal contigo, porque a alternativa não é estarmos de bem conosco e de mal com os outros, é estarmos de bem conosco e de bem com os outros. E as coisas não são incompatíveis."
Mesmo que surja um conflito, isso é mais honesto.
Ó, Astrid, voltamos àquilo que já dissemos aqui mil vezes, que um conflito é sempre o caminho mais pequenino pra duas pessoas que têm opiniões diferentes ficarem mais perto uma da outra. Se nós queremos crescer à margem dos conflitos, não crescemos, como é evidente, parecemos clonados uns nos outros, isso é uma coisa terrível que não devia ser sequer admissível.
E vivemos numa espécie de harmonia artificial.
É uma mentira pegada, sim. Claro que sim, Astrid.
Eduardo, hoje ficamos por aqui. Amanhã voltamos com mais um tema. Até lá, já sabem, escrevam-nos pra eduardosa@observador.pt. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Até amanhã, Astrid.