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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos à boleia de um e-mail de uma mãe falar sobre o primeiro ano e de crianças de seis anos que chegam a casa e não querem saber dos trabalhos de casa, nem do banho, nem do jantar. Olá, Eduardo. Esta mãe conta que a filha deu uma volta de 360 graus na passagem do pré-escolar para o primeiro ciclo. É mesmo assim uma fase tão disruptiva? Aliás, a mãe fala numa volta de 360 graus, mas agora que eu estou a pensar, foi só uma volta de 180.
Olá, Judite. É uma grande volta, é verdade que sim. Desde logo, porque eles têm que ficar sentados, o que para crianças que estão habituadas a ter uma liberdade de movimentos no contexto da vida e infância, acaba por ser um desafio muito grande, sem dúvida nenhuma. E depois porque há muitos conteúdos novos, muitas coisas fascinantes, todavia, porque eles sentem que é uma promoção absolutamente fora de lugar e portanto sentem que está ali uma oportunidade de aprenderem inúmeras coisas. Portanto, é quase como quem de repente põe uns óculos com uma graduação adequada e a realidade começa a ter outro tipo de leituras que são muito estimulantes. Agora, eu fico preocupado com as mães. As mães, na sua generosidade e na ânsia de criarem as condições indispensáveis para que os filhos tenham o sucesso, que todos gostamos que os nossos filhos acabem por ter, às vezes criam uma pressão muito grande. E é uma desolação enorme que muitas delas passam quando as primeiras notas começam a surgir e não são milimetricamente de acordo com os sonhos das mães. Eu não me canso de chamar a atenção que as crianças não são corredoras de 100 metros, elas vão lá, elas aprendem, mas entre começarem a ter um conjunto de conteúdos e apanharem o jeito, às vezes precisam de algum tempo. Os trabalhos de casa, como sabe, eu não sou o maior fã de trabalhos de casa, percebo que às vezes podem ser importantes para que os pais cheirem um bocadinho os cadernos e tenham uma ideia do que se passa no dia a dia, até porque a forma como se ensina, em muitas circunstâncias, não tem a ver com o modo como os pais aprenderam e, portanto, é fundamental que haja ali uma sintonia para que depois, numa parceria de sucesso com a escola, possam ir todos para ali adiante. Seja como for, eu compreendo que uma criança de seis anos chegar a casa não tenha a maior vontade do mundo de fazer trabalhos de casa, como se compreende.
Tomar banho.
Quer brincar, quer estar, quer ter direito ao tempo livre, que faz parte do crescimento saudável das crianças e, portanto, num contexto desses, a mãe não deve ficar preocupada, deve perceber isso como uma espécie de greve de zelo em relação aos compromissos que uma criança sente que são um bocadinho mais chatos numa circunstância dessas. Lá está, depois há este equilíbrio indispensável entre a vontade de uma criança e as exigências de bom senso de uma mãe que são indispensáveis para que finalmente ambas se sintonizem e cheguem a um patamar de algum equilíbrio. Mas no primeiro momento, é um choque, sim senhor, não tem a maior graça do mundo, porque de repente, para quem estava habituado a ter uma vida mais tranquila, há ali uma velocidade de cruzeiro que vai muito para além daquilo que uma criança está à espera.
Esta pode ser considerada uma birra, não é nada que mereça mais atenção do que isso?
Não, Judite, não é, é mesmo uma greve de zelo. E como greve de zelo, eu também acho que deve ser respeitada.
Mas há aqui, como dizia, uma compreensão e uma cedência que pode criar um mau hábito, não é?
Isso sim, claro. Evidentemente que eu tenho sempre muita esperança que no primeiro ciclo os professores sejam um bocadinho mais poupados nos trabalhos de casa e no primeiro ano da escolaridade, mais ainda. Sendo certo que, em muitos momentos, as crianças gostam muito de desenhar letras e de repente mostrarem inclusivamente aos pais que estão rigorosamente crescidas, emancipadas em relação às dificuldades que tinham e que entram numa espécie de outro campeonato, agora de pessoas muito mais a sério, que as faz aprender. Eu percebo isso. Mas é claro que tem que haver um grande equilíbrio e é óbvio que uma criança tem que perceber que uma mãe, por mais que às vezes assuma, de forma injusta, digo eu, o papel de chato social de uma família, ainda assim tem que ser serena, mas firme naquilo que exige, para que depois isto tome um escalãoÉ fácil que aconteça assim. Se a mãe cede uma vez, cede duas, cede três, depois qualquer criança saudável no mundo funciona como uma confederação sindical em relação a direitos adquiridos.
Algum truque? Não há pois não.
Não, Judite, é só ser coerente, mas sobretudo constante. Não há mãe nenhuma que no meio de uma certa aflição não esteja a conseguir sintonizar-se com a sua criança, não há mãe nenhuma que às vezes não exagere. E não é por aí que as crianças se estragam. Agora, exagerar é o quê? Às vezes falar um bocadinho demais, às vezes tão depressa exigir como fechar os olhos. E são estas alterações que causam diferença. Eu não me canso de chamar a atenção que havendo uma mãe, havendo um pai e havendo uma criança, estamos a fazer as contas pelo mínimo dos mínimos. Em todas as famílias saudáveis, às vezes, em vez de haver uma lei, há quatro: a da mãe, a do pai, que nem sempre estão sintonizados, a da mãe e do pai, e a de uma criança quando tenta fazer as suas reivindicações. E portanto, às vezes quando há quatro leis a discutir, é meio caminho andado para uma belíssima confusão. O ideal é que a lei da mãe, do pai e a lei da mãe e do pai juntos, sejam uma lei, porque a partir daí a coisa fica mais serena e as crianças vão aprendendo com essas coordenadas a reivindicar, como todas as crianças saudáveis, mas de alguma forma a aceitar que quando os pais exigem seja o que for, a última coisa que querem é magoá-las ou incomodá-las. Querem só criar uma plataforma para que elas tenham sucesso. Todas as crianças adoram ter boas notas. Claro que elas adoram ter boas notas trabalhando o mínimo possível. Nós temos que dar um bocadinho mais do que o mínimo possível para que depois as boas notas as tornem motivadas, porque é assim que elas ficam com gosto pela escola.
Há uma parte de motivação que pode não estar a funcionar tão bem, que é a parte da competição e da comparação. A mãe fala até numa espécie de um escrutínio. Isso pesa também?
Judite, pesa. Porque quando uma criança chega à escola, está habituada a vencer. E é óbvio que estas comparações acabam por estar um bocadinho mais diluídas no jardim de infância. As comparações entre eles não deixam de estar. E não é mau que esteja, mas às vezes o escrutínio vem também da parte das próprias mães, umas em relação às outras, tomando em consideração o desempenho dos seus filhos. E isto, sendo compreensível naquela ânsia de: "Caramba, a minha filha é mesmo a mais inteligente", que todas as mães saudáveis adoram assumir, às vezes não se traduz logo nisso. E portanto, de repente, há uma amiga que se calhar até estuda com a mãe ou com o pai, que se está a desembaraçar melhor e há mães que ficam um bocadinho assustadas. Quando as mães e os pais ficam um bocadinho assustados em relação aos desempenhos dos filhos, é meio caminho andado para eles se engasgarem, porque eles depois ficam ainda mais assustados, quase como quem diz: "Oh, meu Deus, mas afinal eu não sou tão bom ou tão boa como eu imaginava e agora o que vai ser da minha vida?" Mas sejamos razoáveis, estes sobressaltos à entrada do primeiro ano de escolaridade fazem parte do crescimento. E depois espera-se que os professores tenham a sensatez adequada para explicar àquela gente que não pensam todos da mesma maneira, não se desembaraçam todos da mesma forma, que essa ideia de ter sempre a resposta pronta na ponta da língua nem sempre é verdade. Nem sequer às vezes representa tanta sabedoria assim, porque se eles depois puserem em equilíbrio, como a esmagadora maioria dos professores faz, todos eles aprendem e aprendem bem, sem sobressalto senhora, e já agora sem ser necessário fazer pacotes e pacotes de trabalhos de casa.
Fica a nota para os professores. E vá, um grande abraço.
Ninguém ouviu.
Ninguém ouviu. Um grande abraço e até amanhã.
Até amanhã, Judite. Um abraço grande.