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Bem-vindo ao "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de uma mãe divorciada há quase uma década, que iniciou uma nova relação, só que o filho adolescente não aceita o novo namorado. Olá, Eduardo. O que representa a entrada de um novo adulto na vida de um adolescente?
Olá, Judite. Representa uma surpresa desagradável, sobretudo quando ele acabou por ter uma preponderância e um protagonismo muito grande, durante muito tempo, na vida da mãe. Começou, certamente, por ser um estranho, depois passou por todos aqueles degrauzinhos que as mães usam, quase como se fosse uma linguagem cifrada: é um amigo da mãe, depois passar a ser um amigo especial da mãe, o namorado da mãe e, finalmente, ocupar um lugar muito mais preponderante. Nessas circunstâncias, um filho adolescente, por mais que seja crescido, por mais que entenda que a mãe tem todo o direito de ter uma vida para além da de mãe, propriamente dita, reage de uma forma enxofrada, não acha graça. Admito que possa ser difícil, que possa ser insolente, às vezes, e que ponha o namorado da mãe muito à prova. Tão à prova, que se o namorado da mãe e a mãe não tiverem a sensatez, mas a firmeza indispensáveis, admito que um adolescente possa fazer com que uma relação como esta, entretanto, se possa gripar muito.
Deve o namorado tomar a dianteira, tentar criar proximidade ou esperar um sinal do adolescente?
Não. Eu acho que deve tomar a dianteira, Judite, mas com esta certeza: é normal que numa circunstância destas, um namorado da mãe possa ser um bocadinho desajeitado. Nessas situações, nem sempre fazer as abordagens mais consistentes ao filho da namorada. Admito que, às vezes, possa criar ali uma cumplicidade não tão sincera quanto isso. Admito que, às vezes, possa encolher-se e ter uma relação mais ou menos acanhada e, às vezes, utilizar uma linguagem mais arejada, por mais que um adolescente tenha uma sensibilidade fora do lugar e sinta que aquela linguagem não é a adequada, mas claro que deve ter a dianteira, sendo certo que não pode condescender com insolências e é natural que nestas circunstâncias elas existam. E, sobretudo, a mãe não pode sentir que todos os desempenos do namorado numa circunstância como essa, acabam por se transformar numa espécie de teste do algodão à relação que ela, entretanto, organizou, porque às vezes é isso que acontece. Quem os meus filhos beija, beija a minha boca adoça. Tem que ter ela própria, também, um protagonismo significativo, porque se este adolescente passar dos limites uma, duas, três, várias vezes, esta mãe tem que o chamar à razão e, de alguma forma, sem explicações ou sem subserviência, ter a atitude firme que uma mãe serena e sensata tem que ter numa circunstância destas.
E onde é que começa, se é que começa, o papel educativo do companheiro da mãe?
Judite, eu acho que se ele for um homem firme e sereno, pode ser uma ajuda muito importante. Um homem firme e sereno percebe que um adolescente pode se colocar em bicos de pés, nisto de dar uma canelada ou outra, só para mostrar que alguém está a interferir num perímetro que até aí parecia ser só seu. Compreender não é condescender com nada disto, é compreender, legendar este tipo de comportamentos. É um sinal muito importante por parte do companheiro da mãe e não permitir tudo que sejam atitudes que vão para além do razoável, é um sinal ainda melhor, que mostra que alguém pode ser sensato, cúmplice, mas ao mesmo tempo pode ser uma pessoa justa, que não está ali numa atitude de subserviência, mas simplesmente porque gosta muito de uma mulher que, entretanto, tem um filho crescido, com tudo o que isso implica.
Quando a ausência do pai, que é o caso nesta história e neste e-mail que nos foi enviado, a ausência do pai ao longo do ano é enorme. Só está com este adolescente nas festas, digamos, isso ajuda ou pesa na rejeição de um outro homem?
Judite, pesa muito mais, porque o fato de o pai não estar vai fazer com que alguém que apareça, se por maioria de razão for de fato uma pessoa sensata, vai fazer com que a ausência do pai se sinta muito mais. Eu às vezes tentando fazer algum humor, costumo dizer que quando uma sogra tem um comentário ligeiramente ao lado, a cotação da nossa mãe tem logo uma revisão em alta. E quando se tem um candidato a padrasto, que ainda assim é uma pessoa presente, sensata, que de alguma forma não foge a esse tipo de investidas, mas também não as permite sem que estabeleça um conjunto de regras que são adequadas. Uma pessoa destas, sendo potencialmente muito forte na vida de um adolescente ou podendo vir a ser muito forte, acentua muito mais a ausência do pai e faz com que ela seja significativamente mais incompreensível. E, portanto, por maioria de razão, num primeiro momento, um adolescente reagir à canelada, não estou a propor nada, Judite, mas pode ser até lisonjeante para este namorado. Significa que o adolescente está ali a debater com toda a força que tem para que este homem se afaste, porque de alguma forma, se ele for muito importante na vida da mãe e se se tornar importante na vida deste adolescente, o papel do pai, que já estaria muito comprometido, pode ficar ainda mais comprometido. E, portanto, debater-se com alguém que pode vir a ser muito importante não significa que não queira gostar dele. Pode significar, sobretudo, que tem muito medo de ficar a gostar ainda menos do pai.
Faz todo sentido. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Conto consigo, Judite. E até amanhã.