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"Pouco Se Não É a Resposta" com o Eduardo Sá. Hoje sem a Ana Filipa Rosa, só comigo, Ricardo Conceição. Olá, Eduardo, boa tarde.

Olá, Ricardo. Desculpe o meu microfone, constipou-se.

Acontece. É a magia do direto. Bem-vindo, Eduardo. Vamos falar deste tema, que é daqueles chamados temas fraturantes e que divide muito as opiniões: a questão da maternidade independente. E eu começava por lhe perguntar, Eduardo: a maternidade independente, enquanto opção, é uma boa opção ou uma má opção? Desculpe colocá-lo nesta posição, mas queríamos ouvir a sua opinião.

Os nossos amigos nos fazem isto.

É importante perceber a sua opinião sobre isto.

Se eu fosse um político a falar consigo, começaria por dizer: "É uma resposta muito difícil, tio Conceição". Ricardo, quando uma pessoa chega a uma decisão dessas, eu não sinto que chegue sem se questionar mil vezes sobre os passos que está a dar. Às vezes, é uma maneira de concretizar o desejo de ser mãe, depois de reconhecer, porventura, na maior parte das vezes é assim que acontece, que não encontra nenhum pai à altura daquilo que deseja. E, portanto, é uma maneira de dizer: "Bom, não sendo assim, entre eu arranjar um pai à pressa, ter uma dor de cabeça muito previsível ou de alguma forma concretizar um sonho e lutar sozinha no sentido de o concretizar, eu prefiro ir desta maneira". E, portanto, muitas vezes, uma maternidade desta forma é, de facto, uma maneira de uma pessoa se afirmar perante um desejo muito grande de ter uma criança e o reconhecimento de que talvez não consiga um pai que o acompanhe. Muitas vezes, também, uma maternidade independente é uma maneira de, no contexto de alguém que tenha uma relação homossexual com outra mulher, é uma forma de contornar esse obstáculo, muitas vezes assumindo a relação ou às vezes ainda não a conseguindo assumir no plano familiar ou até social. Se me perguntar assim: é uma maternidade igual às outras? Claro que é uma maternidade igual às outras do ponto de vista obstétrico da coisa.

Claro!

Eu tenho a noção que, no fundo, há viva uma necessidade muito grande de uma pessoa repartir os cuidados e as exigências de um bebê. E eu não tenho dúvidas que haverá algumas mães, que porventura agora nos estejam a escutar, que digam assim: "Calma, mas eu se calhar tinha um pai formalmente para o bebê, tinha alguém ao pé de mim, mas depois, feitas as contas, eu estive numa espécie de maternidade independente, havendo um pai ao meu lado".

Exato.

Também acontece. E, portanto, nessas circunstâncias, Ricardo, muito sinceramente, entre uma pessoa sentir-se acompanhada por fora, mas ao mesmo tempo sozinha em tudo aquilo que significa dividir uma maternidade ou assumir desde o princípio uma maternidade sozinha, eu reconheço que nessas circunstâncias até pode ser uma maternidade mais límpida de mal-entendidos e mais protegida de algumas dores que, obviamente, uma solidão mais ou menos acompanhada acaba por trazer.

Então, depreendo das suas palavras, Eduardo, que o Eduardo considera que se trata, quando é tomada esta decisão e a mulher vai em frente com ela, o que implica sempre uma dose de coragem, o Eduardo vê esta decisão como um ato de amor e não como, às vezes, algumas pessoas classificam esse tipo de opção como um ato egoísta, de alguém que quer ser mãe e pronto.

Não, é um ato egoísta, claro, Ricardo Conceição.

E podem coexistir?

Por quê, Ricardo?

O egoísmo e o amor num ato desses?

Claro que podem, porque eu acho que quando nós somos pais pela primeira vez, Ricardo, é sempre um ato muito egoísta a presidir uma decisão dessas, porque nós queremos um bebê. E queremos, ponto. E pode-me dizer: mas uma pessoa reflete, pensa, deita contas aos passos da casa, ao quanto custa. Sim, sendo certo que todas as contas que uma pessoa faz, todas as relacionais, as mais íntimas, as financeiras propriamente ditas, todas as contas ficam francamente aquém daquilo que nós imaginamos. Portanto, num primeiro momento, é de facto um ato egoísta e eu não vejo qual é o mal que vem daí. Aquilo que depois nós fazemos quando temos um filho no colo, já é completamente diferente, porque aí descentramos de nós e tudo começou como uma história um bocadinho egoísta, mas depois nós descentramos de nós e centramo-nos tanto dele que realmente não é por começar assim, como começam todas as histórias, continuo a dizer, que deixa de ser um ato de amor, muito para lá disso.

E como é que quando as crianças começam a fazer as perguntas sobre quem é o pai, quem é a mãe.

Pois.

Como é que se lida depois com isso?

Com muito embaraço. A maior parte das mães, nestas circunstâncias, sabe desde o primeiro minuto que isso vai acontecer.

Essa pergunta vai aparecer.

Sempre, é incontornável, não é, Ricardo? Mas depois tentam adiá-la para o mais tarde que é possível. Às vezes não têm coragem e inventam um romance. O pai foi para longe e outras coisas do gênero. E depois têm muita dificuldade em desfazer tudo isso. O que é muito importante é que nós tenhamos a noção que estes dilemas fazem parte de todos nós e que às vezes não é fácil uma mãe assumir um ato que, sinceramente, no limite, eu acho que é, de facto, um ato que só merece orgulho por parte dela, porque uma mãe quando vai a jogo sozinha ainda faz mais contas, não é, Ricardo? E tem a noção que a vida dela vai levar uma reviravolta e que vai ter apoios, todavia, mas que tudo isto a dividir por um, é sempre um pouco mais exigente. Às vezes é muito mais exigente do que tudo isto a dividir por dois. E, portanto, eu se pudesse fazer uma recomendação, eu sugeria que, por mais que às vezes a tentação seja uma pessoa iludir a pergunta ou responder no impulso, nem que seja no dia a seguir, uma pessoa apanhe a bola e diga: "Olha, eu disse isto, mas não é bem isto, a verdade. A mãe decidiu querer muito que tu nascesses e pronto, porque isso enche a alma de um filho, por mais que não pareça."

Mas depois essa criança, esse futuro adulto, vai conviver bem com essa decisão? Ou depende muito também de pessoa para pessoa?

Não, vai. Depois há ali um patamarzinho, que é um patamar que faz parte da maneira como as crianças confabulam estas coisas. Porque as crianças nunca são sensíveis à história da sementinha que os avós insistem em contar e que eu peço, por favor, não contem também. Porque o problema das crianças não é a sementinha, é como é que o diabos a sementinha lá foi parar. Esta é a questão das crianças. E, portanto, as crianças são muito sensíveis àquela explicação do gênero: a mãe e o pai gostavam muito um do outro e tu nasceste. Ponto. E, portanto, se vir por aí, a mãe queria muito o bebê e tu nasceste, não é tão longínqua disto e isso sossega uma criança, porque aquilo que está presente na dúvida de uma criança é: e ela desejou verdadeiramente que eu nascesse? E a resposta é: desejou. Desejou, que trabalhou arduamente para que isso fosse possível e, portanto, isso sossega mais do que pode parecer. Não é assim uma dúvida tão fraturante pela vida fora, como às vezes as mães nestas circunstâncias imaginam.

E vamos, por certo, voltar a este tema um dia destes.

Vamos.

Já com a Ana Filipa de regresso, com a Ana Filipa Rosa. Eduardo, marcamos encontro para amanhã. Vamos dar aqui uma notícia. Amanhã vamos ter um "Porque Sim, Não é Resposta" especial. Amanhã à noite. Até porque amanhã vamos ter uma emissão especial. Depois vamos contar mais na rádio como é que vai ser. Fica combinado.

Está combinado, Ricardo.

Um abraço, Eduardo.

Um grande abraço e até amanhã.

Olá, eu sou Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.