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Jorge Tavares da Silva é investigador na Universidade de Aveiro, especialista em Relações Internacionais, está connosco no Jornal das 10. Bem-vindo, obrigado pela disponibilidade.

Obrigado, bom dia.

Obrigado. Podemos estar aqui perante uma degradação desta que é uma relação já frágil entre Estados Unidos e China?

Sim, este incidente, de facto, não ajuda nada nas relações, num primeiro momento, não ajuda nada nas relações entre os dois países, que é uma relação tensa, com muitas matérias pendentes e algumas complicadas do ponto de vista internacional. Mas também podemos ler este contexto com dois patamares. Há aqui, no meu entendimento, também um exagero por parte dos Estados Unidos, utilizando aqui uma retórica muito agressiva em relação a este episódio, que acaba por ser exagerado, porque há outros motivos, há outros meios para a China fazer espionagem. Nós sabemos, os sistemas de satélite, há mesmo espiões no território chinês, como há espiões americanos no território chinês. Enfim, é habitual este tipo de ações e, portanto, um balão, na verdade, é relativo do ponto de vista das informações e está a ser exaltado, sobretudo numa altura que o secretário de Estado americano tinha prevista a viagem para a China e teria matérias importantes para resolver, e foi adiado. Há aqui um empolgamento desse ponto de vista, no meu ponto de vista, que é para tirar algum proveito do ponto de vista negocial, tirar poder negocial, pressionar a própria China para mais adiante poder tirar dividendos. Para mim é isto, para depois passar deste tal primeiro plano, que é um bocadinho teatral também, para um segundo plano mais sensato, para se tentar retirar dividendos diplomáticos e poderem ter uma conversa um bocadinho mais reservada e poderem, no fundo, dialogar, tirar benefícios desses mesmos diálogos. Para mim, parece-me um pouco isso.

Que aspetos é que podem fazer parte desse eventual diálogo? Podemos estar a falar aqui, por exemplo, da questão de Taiwan, pode ser relevante neste momento?

Eu não diria que é a questão de Taiwan. Claro que essa é sempre uma questão obrigatória, mas eu julgo que por parte dos Estados Unidos, uma das grandes preocupações, por exemplo, e fala-se muito disto, é o déficit comercial que os Estados Unidos têm em relação à China. Seria um elemento importante para pôr em cima da mesa das negociações, para pôr a dialogar entre os dois lados, esta questão comercial, reduzir este déficit, obrigar um bocadinho os chineses também a comprarem bastante nos Estados Unidos no sentido geral. E se quisermos logo num contexto a seguir, enfim, virão as outras matérias, ou que a China poderá também ter algum, enfim, também pode tirar alguns ganhos do ponto de vista negocial. Essas coisas são sempre de um lado e de outro. Só que os Estados Unidos usam muito este tipo de tática, e fizeram-no no passado, usam muito a pressão negocial, colocando a pressão sobre o outro. Por exemplo, há um conjunto, eu dou mais uma ideia, não é só esta questão do balão. Há um conjunto de generais nos Estados Unidos, agora nos últimos dias, que disseram que vai haver um conflito armado entre China e Estados Unidos, assim de forma direta. Pressionando a própria China, que a China vai invadir Taiwan em 2027. É outro general, outro militar que diz isto. Inclusivamente, esta ainda é mais perigosa, se quisermos. Nós vamos ter a hipótese de Kevin McCarthy, que é agora o líder da Câmara dos Representantes, substituiu a senhora Pelosi, pode vir a visitar Taiwan. Isso será uma afronta à China imensa. Todos estes elementos têm aparecido agora nos últimos tempos e agora acresce a questão do balão. Para mim, eu interpreto assim, são uma forma que os Estados Unidos também estão a usar para pressionar a China, para ceder em algumas matérias do ponto de vista negocial. Não sei se vão conseguir.

E internamente, Joe Biden tem sido alvo de muitas críticas pela forma como tem gerido várias destas questões. Internamente, esta posição de maior força relativamente à China neste momento, pode ser benéfica numa altura em que se preparam novas eleições.

Exatamente. É engraçado, as eleições são fundamentais nos Estados Unidos. Por um lado, a própria China sabe disso, vai haver eleições, vamos ter eleições em Taiwan e vamos ter eleições nos Estados Unidos, e a China está um bocadinho mais reservada, mais contida, exatamente nestes últimos tempos, sobretudo desde o início deste ano. Inclusivamente, os discursos de Xi Jinping no início do ano foram muito mais contidos. Nem falaram muito na questão de Taiwan, nem falaram muito dos Estados Unidos, foi muito contido. Inclusivamente, traz um novo ministro de Negócios Estrangeiros. Antecipou, que deveria aparecer agora substituindo os anteriores em março. Não, antecipou Qin Gang, que era o antigo embaixador da China nos Estados Unidos. Também para dar aqui um elemento positivo para as negociações e para os diálogos com os Estados Unidos, que são fundamentais para a China. Os Estados Unidos têm utilizado esta retórica, que também tem, por outro lado, uma necessidade interna, porque também os republicanos nos Estados Unidos estão a pressionar Joe Biden para ter uma postura mais assertiva em relação exatamente à China. Há este lado político, por isso é que eu falava isso e eu gostava que isto ficasse claro. Há um lado político de todo este incidente. Há um lado político do ponto de vista interno dos Estados Unidos e depois também há um lado político do ponto de vista dos próprios diálogos com a China, tentando elevar um bocadinho a questão, para depois poder tirar alguns dividendos negociais. A China tem que reagir e reagiu já, tem que reagir de alguma forma, não pode ficar também impávida e serena perante o incidente e já disse algumas coisas, mas eu acho que estamos no palco político. Depois haverá, com certeza, diálogos mais sensatos, mais reservados, que podem trazer alguma melhoria nas relações, mas elas estão tensas, não vamos esquecer, elas estão tensas, estão um bocadinho em rota de colisão e são perigosas, até desse ponto de vista. Mas temos que lidr com estas divisões todas.