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Pedro Filipe Soares, em primeiro lugar, pedir-lhe uma reação a este despacho do governo que obriga a validação prévia por parte do secretário de Estado de todos os pagamentos do Estado à Endesa. Para o Bloco de Esquerda é uma medida que faz sentido?

O governo acordou para uma circunstância que é grave, estrutural e que merece resposta. Há empresas que, a coberto do debate público que existe e de algum pânico social sobre a questão da inflação, aproveitam esse pânico para poder aumentar os seus preços de forma abusiva. Aparentemente, seria essa a intenção da Endesa e é o que motivou uma resposta da parte do governo, numa medida que merece o acompanhamento da nossa parte, percebendo, no entanto, que uma parte dela é mais para mostrar uma posição de força para as empresas do que, na verdade, para ter uma consequência prática na operacionalidade do Estado. No entanto, o que falta ao governo é quer coerência, quer consequência, porque basta olhar para um conjunto de empresas do setor energético, quer relacionado com a eletricidade, quer com os combustíveis, ou para empresas do setor da grande distribuição, e percebemos que há mais empresas, mais grupos económicos, que estão a usar a inflação para ter lucros indevidos. E sobre essa matéria, o governo tem então que ser quer coerente, quer consequente, e não ter uma resposta meramente pontual a esta empresa, mas sim estrutural e dizer o óbvio, que é aquilo que tem sido dito quer pelo FMI, quer pela OCDE, quer pela Comissão Europeia, de que há empresas que estão a lucrar abusivamente quando há, fruto da inflação, um empobrecimento generalizado, e que esse lucro extraordinário deve ser taxado em benefício do Estado para depois serem promovidas políticas públicas de resposta à crise. Eu creio que essa consequência e essa coerência faz sentido. Falta é o governo ter uma resposta mais estrutural. Nós não acompanhamos a ideia que alguns partidos da direita têm de que o mercado pode tudo, mesmo que perante estas injustiças, se veja de forma incontornável que há quem queira beneficiar à custa do empobrecimento generalizado. Nós não acompanhamos as críticas de quem defende que este abuso pode existir e defende estas empresas em detrimento das famílias e da economia, mas também consideramos que o governo tem que ir mais longe do que meramente esta questão pontual, quando há, de forma manifesta, reiterada e pública, empresas do setor energético, do setor da grande distribuição, que estão a lucrar abusivamente com o contexto de inflação, agravando a inflação por um lado, empobrecendo ainda mais o país e criando mais desigualdades, e as políticas públicas não devem ser insensíveis a essa realidade estrutural.