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Seguimos para a análise com o politólogo José Filipe Pinto, que é especialista em movimentos extremistas. Muito bom dia, José Filipe Pinto. Este primeiro teste no Partido Republicano não trouxe surpresas. Trump é mesmo o provável candidato à Casa Branca.

Muito bom dia, Carla. Bom dia, senhores ouvintes. De facto, Carla, não trouxe rigorosamente surpresa nenhuma, porque se comprovou o que as sondagens já anteviam. A vitória de Trump foi avassaladora, como a peça disse, obteve mais votos sozinho do que os outros opositores juntos. Só que é importante percebermos que este é o início da escolha de 2400 delegados, e aqui apenas são eleitos 40, no Iowa. E isto pode ser, segundo tudo anuncia, uma gota d'água neste oceano em que ameaça transformar-se o apoio republicano a Trump, malgrado os quatro processos judiciais em que o ex-líder, o antigo inquilino da Casa Branca, se vê envolvido. Importa dizer que o Iowa vale apenas 1,6% do total dos delegados que serão eleitos. Este modelo do cálculo, que os senhores ouvintes talvez não percebam muito bem, existe em dois estados, no Iowa e no Nevada. E no caso dos republicanos, eles reúnem-se em 1600 colégios e nesses 1600 colégios, que pertencem aos 99 condados, o que acontece é que eles discutem e depois escolhem, mas não escolhem segundo o modelo "the winner takes it all", o vence tu leva tudo. Não, é pelo método proporcional. E é por isso que Trump terá 20 delegados, DeSantis oito, Haley sete e havia dois para o quarto candidato, que desistiu a favor de Trump. Eu chamaria a atenção, porque se estranhou muito a reação conciliatória de Trump.

Precisamente, ia perguntar-lhe se é um discurso renovado por parte do antigo presidente.

Não é.

Não é.

Não é, Carla, porque se recuperarmos, a história tem memória. E aqui é uma história muito curta. Por quê? Porque também durante a luta que teve com Hillary Clinton, durante a campanha, Trump prometeu ir prendê-la como primeiro ato na sua presidência. Ora, assim que tomou conta e tomou posse do cargo de presidente, agradeceu Hillary Clinton tudo aquilo que tinha feito pelo país. Donald Trump é um populista e os populistas dizem aquilo que em determinado momento sabem que as pessoas querem ouvir. Trump ontem tentou tranquilizar os norte-americanos, de que forma? Dizendo que apelava à união apenas não dos republicanos, mas também dos democratas, ou seja, do povo americano. Por quê? Face à conjuntura mundial que estamos a atravessar. Mas voltou ao elemento eufórico, ao elemento triunfalista, a tudo aquilo que ele sabe que colhe junto deste eleitorado. Disse novamente que a questão da Rússia ter invadido a Ucrânia com ele na presidência não teria acontecido, que solucionará a questão em Gaza e depois fala para o eleitorado interno quando lhe promete que vai fechar as fronteiras, que vai perfurar petróleo, que vai explorar petróleo, que vai combater o crime, vai acabar com a dívida pública e mesmo o slogan volta a ser igual: é "Make America Great Again". E esta questão prova o quê? Que Biden vai ter aqui como adversário um Trump não renovado. Significa que Trump é igual a Trump. Trump é uma marca. A marca precisa de protagonismo e esta marca colhe muito junto do eleitorado norte-americano, pelo menos no que diz respeito aos republicanos. Vamos ver se depois colhe a nível nacional. E eu chamaria a atenção, para terminar, num aspecto importante. Ron DeSantis e Nikki Haley estão muito próximos, com uma vantagem muito curta de DeSantis. Isto pode ser um indicador, porque nada implica que não venha a haver um processo judicial que possa caminhar para a impossibilidade de Trump. Eu não acredito, mas é possível. Ainda temos de ter essa posição, que Trump pode não poder concorrer à presidência. E nesse caso, o candidato colocado em segundo lugar vai ganhar uma vantagem relativamente ao do terceiro lugar. Além disso, temos de perceber que nos Estados Unidos escolhem um presidente e um vice-presidente. E por isso mesmo, este estilo de Trump, quando diz que afinal de contas dois dos candidatos eram muito inteligentes, depois de afirmações nada abonatórias em fases anteriores, um desses candidatos é Ron DeSantis. E temos de perceber que poderemos estar aqui a caminhar para um vice-presidente.

É importante então tomar nota desses nomes. José Filipe Pinto, ainda uma questão muito rápida relativamente ao lado democrata. Joe Biden não convence nas sondagens. Poderá haver uma alternativa ao atual presidente?

É difícil, porque o que acontece é que o inquilino da Casa Branca, quando tenta a reeleição, por norma é reeleito. A menos que, já aconteceu, o inquilino da Casa Branca decidir que não se quer recandidatar. Ora, acontece que Joe Biden tem manifestado um interesse enorme em recandidatar-se. E por isso mesmo é difícil, mesmo no Partido Republicano, há movimentos internos no sentido de o convencerem que a idade é um fator limitativo e que para sair com o estatuto de próximo senador, deveria sair pelo próprio pé. Mas o que Joe Biden mostra, e percebe-se nitidamente que ele está apostado nisso, é na sua continuação no poder. E o seu discurso desde há muito que é feito no sentido de ser ele o candidato democrata à Casa Branca. Portanto, o que nós temos de perceber é que era preciso haver aqui uma vontade política, aquilo a que eu chamo um espírito crítico, de perceber que o seu momento tinha chegado ao fim. E Joe Biden recusa assumir essa posição. Joe Biden acha que está na plenitude das suas funções e que é a pessoa melhor colocada dentro do Partido Democrata para vencer aquele que ele vê como uma ameaça à estabilidade da América e do mundo, que é Donald Trump. Portanto, dificilmente, a menos que haja um problema de saúde, e temos de perceber que estamos a falar com dois candidatos já com uma idade muito avançada, dificilmente o debate e a disputa não será entre Biden e Trump.