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Uma análise feita pelo Imperial College terá sido determinante para os governos do Reino Unido e dos Estados Unidos tomarem medidas para combater a Covid-19. Donald Trump e Boris Johnson demonstraram-se resistentes a adotar essas medidas, a decretar as medidas como o isolamento, mas os dados revelados pela equipe de Neil Ferguson, investigador em doenças infecciosas, daquela que é considerada uma das melhores universidades de ciência do mundo, terão sido essenciais para a mudança nos dois países. Francisco Veloso é diretor da Business School do Imperial College em Londres. O Imperial College, do qual faz parte a Escola de Saúde Pública, de onde saiu esta análise. Francisco Veloso, que está conosco ao telefone. Francisco, bem-vindo, boa tarde.
Muito obrigado, boa tarde.
Agradeço a sua disponibilidade e começo por lhe perguntar se esta resistência, aliás, dos dois governos, tanto do Reino Unido como dos Estados Unidos, motivou ao longo destes dias, dessas semanas, muitas críticas. Foi surpreendente pra si ser necessário convencer, cientificamente falando, estes dois executivos?
Nós estamos a viver uma situação muito única e extraordinária e que é muito difícil de saber o que fazer antes de chegar à altura. E aliás, se nós olharmos neste momento, se calhar o país onde está a haver uma estratégia mais próxima daquela que era a estratégia original do Boris Johnson, é a Holanda. E, portanto, o que eu quero dizer com isso é que há uma diversidade de perspectivas relativamente à forma como se deve abordar esta situação extraordinária e que tem a ver com a informação que existe no momento disponível e com a forma como cada um dos países pensa que será melhor responder. Aquilo que acontecia, e que acontece ainda, é que na fase inicial da doença havia muito poucos dados disponíveis e muito pouca informação e, por isso, as decisões que estavam a ser tomadas nessa altura incluíam o que se sabia até então. E essas foram as decisões que o governo inglês tomou nesse momento. Portanto, essa foi a realidade e este estudo veio influenciar as decisões, precisamente devido à informação que trouxe.
Francisco Veloso, estamos a falar de uma análise que levou, como dizíamos, os governos do Reino Unido e dos Estados Unidos a mudarem de estratégia do combate ao coronavírus. Estes dois países que, essencialmente, e há aqui outras nuances também, mas que essencialmente não estavam a apostar no isolamento, pelo menos massificado, mas agora estão. Quais é que foram os argumentos que convenceram Boris Johnson e Donald Trump?
A questão principal teve a ver com a evolução ao nível da modelação do que é que acontecia nos serviços de saúde. Ou seja, numa fase inicial da doença, a principal preocupação que todos os grupos que estavam a olhar pra esta questão do ponto de vista analítico e de modelação estavam preocupados, são as evidentes e as importantes, que é: até que ponto este vírus é mortal? Portanto, qual é a taxa de mortalidade do vírus e até que ponto é que este vírus é transmissível? E, portanto, qual é a facilidade ou a dificuldade com que este vírus se transmite? Porque isso vai determinar o envelope do grau de risco associado a este mesmo vírus. Ou seja, se nós tivéssemos umas taxas de mortalidade iguais à atual, à da gripe, que nós temos todos os anos, a preocupação que existia com este vírus era completamente diferente daquela que existe agora. No segundo momento, a partir do momento em que começou a haver alguns dados para caracterizar a dimensão da propagação e da taxa de mortalidade, começou-se a trabalhar num outro tipo de dados, que é: qual é a porcentagem de pessoas que quando ficam doentes precisam de aceder a cuidados de saúde e, em particular, a cuidados de saúde intensivos. Aquilo que tem sido mais noticiado hoje em dia é a questão do acesso aos ventiladores e, portanto, quantos ventiladores é que são necessários em função de situações mais graves de saúde geradas por este vírus. Aquilo que foi absolutamente crítico no estudo do Neil e da sua equipa foi os dados detalhados da Itália e da China que eles tinham recebido nos dias anteriores e também a informação relativamente detalhada sobre o nível de apoio e de resposta que o NHS, o Sistema de Saúde Nacional aqui do UK, poderia dar. Eles perceberam que não era só uma questão das taxas de mortalidade ou dos níveis de infecção. O que iria acontecer se não fosse feito nada é que a necessidade de apoios médicos cuidados ia ser de oito pra um, oito vezes mais do que aquela que a capacidade do sistema de saúde inglês ia ter.
E, portanto, foi esse efeito devastador que terá convencido estes dois executivos a tomar medidas diferentes.
Exatamente. Porque essa modelação e o cuidado do trabalho que foi feito e a informação detalhada sobre o facto de ir acontecer, que iriam existir muitas pessoas que provavelmente poderiam sobreviver se tivessem tido cuidados médicos, mas não iriam ter tido cuidados médicos porque simplesmente não estavam disponíveis, é que alterou de uma forma muito significativa a perspectiva com que os governos olharam para as decisões que teriam que fazer.
Sendo que esta equipa não é a primeira vez que se vê envolvida numa investigação do gênero. Também já o fizeram com o Ebola e têm estado sempre em colaboração com a Organização Mundial de Saúde, é também um dado aqui importante. Eu pergunto-lhe, Francisco Veloso, na sua perspectiva, poderá a economia mundial funcionar nestes moldes que está a funcionar neste momento, durante quanto tempo? Aguentará, por exemplo, um ano nesta situação?
Não, eu acho que um ano seria devastador a um nível muito significativoSignificativo. Eu acho que um trabalho muito importante que está agora a começar a ser feito, é precisamente perceber como é que, mesmo não havendo uma vacina disponível, a partir do momento em que começa a haver alguns tratamentos que minoram o impacto da doença e começa a haver também um outro aspecto muito importante que é a disponibilização de testes em massa, como é que nós podemos relaxar algum do nível de constrangimento, sem no entanto arriscar o ressurgimento da doença à escala com que ela está neste momento a funcionar. Esse vai ser, neste momento, um foco muito importante para tentar encontrar esse equilíbrio, porque mesmo três meses, que será um valor que me parece que é difícil de ultrapassar, tendo em conta a situação em que nós estamos, já vai ter efeitos absolutamente devastadores. Se nós tivéssemos que esperar um ano neste contexto, simplesmente a economia iria em larga escala desaparecer como nós a conhecemos. E portanto, seria um efeito que demoraria uma década ou mais a recuperar.
Mas não é expectável que tenhamos um dia em que vejamos as fronteiras a reabrir, os voos a serem retomados, ou seja, que toda a economia volte ao normal de um dia para o outro?
Não, de um dia para o outro não será assim. Isso eu tenho a certeza absoluta daquilo que lhe posso dizer. Aliás, este estudo que estamos a falar do Neil, fala sobre essa questão e o que nós vamos começar a ter é algum relaxamento das atividades de contenção, por forma a que comece a recuperar alguma da atividade econômica, mas até termos ou uma vacina ou efeitos de tratamento com níveis de eficácia muito significativos e que, esperaria eu, que seria excelente que o viéssemos a ter. Há agora muitos medicamentos a entrar em testes clínicos e as vacinas também a entrar em testes clínicos e portanto, gostaria muito eu de que houvesse uma notícia daqui a pouco tempo a dizer que há um tratamento que mitiga em grande medida os efeitos do vírus ou a vacina com efeitos que são desejáveis. Mas até esse momento, nós vamos ter que fazer uma gestão difícil entre supressão do vírus ou supressão da economia. O que nós vamos ter é um abrandar e um acelerar das medidas, que vai andar a oscilar ao longo dos próximos meses. Eu acho que é essa a realidade para a qual nos vamos ter que preparar, em que o nível de supressão ou o nível de relaxamento vai depender um bocadinho do nível de confiança que nós tivermos na existência destes outros elementos de entendimento e de ataque à doença e também daquilo que vão ser consideradas a prioridade de retoma da economia que estará presente, como é evidente, no espírito de todos.
Francisco Veloso, e como é que olha para a estratégia que tem sido seguida por Portugal?
Eu tenho acompanhado a nível geral, como tenho os próprios desafios que tenho aqui deste lado, não tenho seguido com muitos detalhes, mas parece-me que a estratégia de supressão e de isolamento social que foi decretada era claramente necessária. Eu diria que, sem conhecer os números portugueses, precisamente pela razão que eu apontei, que foi a principal razão que levou a que o governo inglês alterasse a sua perspectiva. Quando nós sabemos que os serviços de saúde em Portugal têm estado num contexto de alguma fragilidade, eu diria que essa preocupação seria ainda mais significativa no contexto português e, portanto, as medidas de isolamento social para tentar conter a evolução do número de casos e permitirem que os serviços de saúde deem resposta aos casos que necessitam desse apoio, era absolutamente crítico fazer. Acho que estamos a fazer aquilo que é necessário. Agora, como é evidente, temos que começar a pensar nas medidas complementares, nomeadamente os testes e a disponibilização dos testes, material de proteção e todos esses outros elementos que são também necessários e que eu tenho percebido que são, neste momento, algumas das fontes de dificuldades que existem em Portugal.
Francisco Veloso, estamos na reta final da nossa conversa, mas enquanto conversávamos, chegaram-nos os números relativos a Itália, que regista 919 mortos nas últimas 24 horas. Itália foi a base deste estudo que temos estado a falar. Como é que olha para estes dados? Continuam quase diariamente a surpreender-nos estes números.
Esses números são exatamente uma confirmação da importância e da relevância do trabalho que foi feito. Porque Itália, nesse sentido, teve esta combinação de fatores, não só a idade da população, que é mais elevada, como aliás em muitos outros sítios da Europa, isto por comparação à propagação do vírus no contexto chinês, que tem uma distribuição da população em termos de idades bastante diferentes. E depois, a surpresa e a velocidade com que isso aconteceu, que levou a esta situação extrema dos serviços de saúde. Nós temos assistido com muita dificuldade e com muito constrangimento de todos às situações extremas que se estão a viver no contexto dos serviços de saúde italianos. Esse é um dos fatores, de facto, muito complicados nesta doença. É não só a taxa de mortalidade, mas a necessidade de apoio médico com algum cuidado que uma fração importante da população afetada pelo vírus requer e por isso a dificuldade que os sistemas de saúde têm em reagir. É impossível para nós sabermos qual é que seria a taxa de mortalidade se os serviços de saúde tivessem conseguido chegar com o mesmo grau de qualidade e com o mesmo grau de apoio a todos aqueles que ficaram doentes. Com isso não estou a fazer nenhuma crítica ao serviço de saúde, que tem sido absolutamente extraordinário em todo lado, mas apenas às limitações do número de camas, de ventiladores e de pessoas do sistema de saúde disponíveis para darem resposta a esta enorme onda de casos que se têm verificado em Itália.