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Houston, we have a problem.
Junta-se agora a nós o investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, Pedro Machado. Muito boa noite, professor Pedro Machado. Agradeço-lhe desde já a disponibilidade para se juntar a nós nesta emissão especial. Começava por lhe perguntar se esta missão pode revolucionar a forma como vemos o espaço e também os estudos que temos sobre o universo.
Olá, boa noite. Esta missão vai trazer seguramente alguma luz sobre a formação e evolução do sistema solar, inclusive a formação dos planetas e a formação da Terra. Isso por quê? Porque estes asteroides de pequena dimensão, visto que as forças gravitacionais, a temperatura e a pressão não são extraordinariamente elevadas, a verdade é que os materiais não são geologicamente alterados ao longo do tempo. Portanto, é como se fosse olhar para o passado. Daí a lógica de chamar a esta missão OSIRIS-REx, um nome egípcio. E reparem que já na missão Rosetta, que há alguns anos a Agência Espacial Europeia lançou em direção ao cometa Churyumov-Gerasimenko, também tinha nomes que tinham a ver com este estudo histórico. Isso por quê? Porque é a maneira de nós podermos ver, quase como se fosse uma cápsula do tempo, como é que eram os materiais que conglomeraram, que coalesceram para formar os corpos, nós chamamos cientificamente a este processo de acreção, e que gerou os corpos do sistema solar. Inclusive a Terra.
Professor, por que é tão complicado ter uma nave tão perto do asteroide? Qual é a explicação para isso?
Exatamente, esta pergunta faz muito sentido e geralmente é uma coisa que o cidadão comum não pensa logo à partida, mas vou tentar clarificar isto. Reparem, se nós colocarmos uma sonda na órbita de Marte, ou de Vênus, ou da Terra, como se fosse um satélite, visto que estes corpos têm a massa suficiente, o que vai acontecer é que esta sonda vai poder ficar numa órbita que nós chamamos kepleriana, uma órbita estável em torno do corpo. E como bem disse, este é um caso absolutamente de difícil resolução, em termos físicos e em termos matemáticos também, que é: como é que nós conseguimos estabilizar uma órbita em torno de um corpo central, que nós chamamos de primário, que tem uma massa tão pequena? Essa é a dificuldade.
E professor, quais é que são as expectativas para esta missão? Tudo aponta para que corra bem. Não há, para já, atrasos. Parece que está tudo a correr favoravelmente. Há ainda assim alguma coisa ou algum fator que possa mudar o rumo desta missão?
Para já, eu digo e partilho com todos vós que é um momento inacreditável. Reparem, o ser humano está neste momento a controlar uma pequena sonda de alta tecnologia, claro, mas que está a mais de 30 milhões de quilómetros da Terra. E vai ter que efetuar manobras de uma precisão inaudita, de forma a se aproximar e tocar ao de leve na superfície do asteroide Bennu para, na verdade, beliscar esta superfície com um braço mecânico que tem. Na verdade, o que vai acontecer é uma ejeção rápida, explosiva quase, de azoto, nitrogênio, de maneira a poder levantar, arrancar pedaços da superfície do regolito, que é a superfície, o solo, os componentes geológicos que fazem parte do asteroide Bennu. E a ideia é que depois, durante algum tempo, durante alguns segundos, sejam literalmente vaporizados, ou melhor dizendo, assoprados, de maneira a permanecerem algum tempo no ar, de forma a que sejam sugados por vácuo para os receptáculos que vão armazenar esta amostra. E a ideia é trazê-la de volta à casa, de volta à nossa casa, à Terra, para podermos depois analisar e estudar em profundidade estas amostras, que como já foi aí dito, e bem, pelo menos mais de 60 gramas se espera poder recolher.
E eu perguntava-lhe exatamente isso, professor. Esta sonda vai recolher entre 60 gramas a 1 kg, no máximo, de material do asteroide. O que me pergunto é: por que tantos anos e dinheiro investidos numa missão como esta resultam, de certa forma, numa amostra tão pequena? Ou não podemos olhar para isto assim. No fundo, por outro lado, é quantidade suficiente, estes 60 gramas, para fazer todos os estudos pretendidos?
Não sei em pormenor. Eu suponho que é mais do que suficiente, porque o tipo de estudos que se irá fazer, espectrometria de massas, etc., depois cá na Terra, nos laboratórios cá na Terra, eu diria que não é uma questão de quantidade. O que nós pretendemos é estudar, por um lado, os componentes, essencialmente são componentes de carbono, são rochas carbonáceas do regolito, que faz parte essencialmente e que compõe o asteroide Bennu Mas há algumas questões que são muito relevantes e que o meu colega do Instituto Superior Técnico, entretanto, já realçou, que é o fato de nós vamos tentar encontrar componentes de moléculas orgânicas complexas. Isto já foi detectado com grande êxito pela missão Rosetta, mas também noutras partes do sistema solar já foram detectadas moléculas orgânicas complexas. E, no fundo, estas moléculas orgânicas complexas são os tijolos da vida. Eu não digo que seja uma ligação direta com a vida, mas podem ser tijolos, entre aspas, claro, mas são moléculas que podem ser utilizadas depois de uma forma estrutural mais complexa em relação à gênese da vida. E isso nós obviamente que não sabemos, mas repare, é uma questão científica e filosófica de uma dimensão avassaladora. Daí a importância enorme que tem este tipo de estudos que são feitos em relação à pesquisa destas moléculas prebióticas, diria eu, de uma forma mais correta, e que vamos tentar analisar e encontrar nesta amostra que vai ser trazida para a Terra.
Professor Pedro Machado, a NASA acaba de confirmar que não vai conseguir dizer com certeza hoje que a nave tem, de fato, essa amostra do asteroide. É uma notícia que acaba de nos chegar. E a NASA diz mesmo que pode demorar até 10 dias a saber-se essa informação, sendo que hoje só se saberá se a nave foi bem-sucedida em fazer contato com o asteroide. O que isto quer dizer na prática?
O que eu suponho que isto quer dizer é que a telemetria da nave, que é seguida neste momento com grande rigor, o que vai emitir é se a aproximação foi bem efetuada, se a velocidade relativa é compatível com a possibilidade do braço mecânico poder ser estendido de forma conveniente e recuperar a amostra, e se, pelo menos durante alguns segundos ou durante algum tempo, mesmo que seja de pequena duração, se existe um acompanhamento, vamos dizer assim, entre a sonda espacial, entre a nave da OSIRIS-REx e o asteroide Bennu. Portanto, isto é uma questão de, basicamente, diria eu, de radar, de telemetria.
Sim, sendo que amanhã de manhã a NASA já terá as imagens do procedimento que já serão uma ajuda, não é?
O que eu suponho é que deve ser difícil a confirmação de que a amostra das poeiras e desse regolito, espero eu, e sou muito otimista, que seja apanhada. E ter a confirmação que está dentro do braço mecânico e que seguiu para o invólucro que será trazido de volta à Terra, eventualmente, é que estes testes devem-
Professor, peço desculpa, vamos só interromper, porque parece que há novidades, pelo menos na transmissão da NASA. Alguma coisa terá corrido bem, não é?
Sim, escutamos aqui palmas nesta transmissão que está a ser feita pela NASA. A missão fez contato com o asteroide com sucesso. Ainda não se sabe, ainda assim, e como escutávamos aqui as explicações do professor Pedro Machado, se a nave tem ou não a amostra. Isto pode demorar até 10 dias a saber se essa nave conseguiu ou não recolher esse material do asteroide. Para já, felicidade, aplausos nesta transmissão da NASA. Professor, esta missão então terá corrido bem. Resta saber se a nave tem ou não essa tão desejada recolha de material.
Resta saber agora se o material foi bem recolhido e se vai estar perto de nós daqui a algum tempo.
Professor, e perguntava-lhe também, pelo que já percebemos, a nave não chegou a aterrar, não é? A nave apenas fez contato com o asteroide para fazer a recolha das amostras, não é?
Exatamente. Há um acompanhamento muito próximo. Imagine as dificuldades tecnológicas para conseguir garantir esta proximidade controlada para uma nave que está a vários milhões de quilômetros de distância da Terra. É inaudito. Só isso por si já é um grande sucesso em termos de engenharia, em termos tecnológicos. E agora resta saber se o objetivo final foi conseguido, e se realmente, com sucesso, os pedaços do asteroide Bennu que foram extraídos à superfície, se foram corretamente sugados e estão armazenados no interior da OSIRIS-REx. É o que falta saber.
Exato. E professor, olhando aqui um bocadinho para o futuro, e porque a NASA aparentemente já terá indicações de que a recolha da amostra foi bem-sucedida, e portanto, se tudo correr bem, essa amostra vai chegar às mãos dos cientistas aqui ao planeta Terra em setembro de 2023, portanto, passados três anos. Perguntava-lhe se essa amostra vem igual a quando foi retirada ou se pode perder qualidades ou características nesse intervalo de anos ou se isso não acontecerá.
Não, eu penso que não. Eu penso que não haverá grande risco, a menos que haja algum problema que não esteja acautelado na entrada da atmosfera, ou que se houver algum acidente na entrada da cápsula na atmosfera. Não me parece muito plausível, não me parece que o risco seja muito elevado, é um risco controlado, diria eu. E em relação à forma como a amostra está armazenada Não estou a ver, à partida, nenhuma forma de alteração que possa alterar as características da amostra, porque estará dentro de uma cápsula hermeticamente fechada e que, como eu disse, só um acidente ou um problema na reentrada na atmosfera da Terra é que poderia gerar algum problema.
Mas, a princípio, a parte mais difícil já está feita. O regresso à Terra é a menor das preocupações, ou não será assim?
Eu diria que nestas coisas há tantas variáveis e tantas variáveis livres que até estar na nossa mão, até ao fim não podemos cantar vitória.
Até lavar os cestos da vindima, não é?
Exato. Tal e qual. Mas é verdade que é um feito épico e que, como bem disse, eu concordo consigo plenamente, que a parte mais difícil, que seria este contacto próximo, controlado e a possibilidade de conseguir perturbar a superfície do asteroide Bennu, de modo a obter uma amostra, já foi conseguido e, pelos vistos, com sucesso que é inacreditável, realmente.
Professor, só mesmo para terminar, e já que estava a falar em feitos épicos, uma curiosidade: a NASA já anunciou por várias vezes que tem o objetivo de, em 2030, conseguir ter humanos em Marte. O professor acha que este objetivo é concretizável?
O que eu acho é que existe a política muitas vezes a apressar as coisas. Nós conhecemos esta situação de quando foi a corrida à Lua. E agora há alguma política misturada aqui com a ciência. O que eu digo como cientista é que o princípio da precaução deve ser sempre acautelado. A vida humana tem um valor incalculável e por isso merece todo o nosso respeito, e por isso as coisas devem ser feitas de maneira que seja tudo seguro e que seja acautelada a vida, quer na viagem, quer na chegada, e sempre com uma possibilidade de regresso, para as coisas serem feitas sempre de uma forma ética e responsável, que os cientistas nunca devem pôr de lado e deixar-se afastar desses princípios.
Muito bem, muito obrigada, Pedro Machado, investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço. Muito obrigada, professor, por se juntar a nós neste jornal das 11, também com estas explicações sobre esta missão histórica da NASA. Eu propunha que recuperássemos o momento em que a NASA percebe que a missão teve sucesso. Muitos aplausos, ouvimos aqui na transmissão da NASA.
Só o som deixa um sorriso nos lábios, não é?
Uma missão histórica. A NASA aqui acaba de perceber que a missão teve sucesso. Resta perceber se a nave, essa sonda, tem ou não a amostra recolhida do asteroide Bennu. Diz a NASA que essa informação pode demorar até 10 dias a ser conhecida. Sabe-se para já que a nave foi bem-sucedida em fazer esse contacto com o asteroide. Há também a informação de que amanhã de manhã já haverá imagens desse procedimento, que poderão ajudar os cientistas a perceber se a nave conseguiu ou não recolher esse material. A missão fez contacto com o asteroide com sucesso. Ainda não se sabe se a nave tem a amostra. É esta a informação que nos chega por parte da NASA. Escutámos aqui os sons depois desta missão ter sido concluída com sucesso. Muitos aplausos, felicidade. É mais um dia histórico para a NASA e também para a humanidade.