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Junta-se agora, em direto neste jornal, o professor da Faculdade de Motricidade Humana, Carlos Neto. Ele tem se debruçado sobre a importância do movimento para a saúde e para a autonomia das crianças. Bom dia, Carlos Neto, obrigada por estar conosco.

Bom dia.

Não ter tempo de recreio na rua e este uso constante da máscara é o custo que teremos de pagar para ter ensino presencial?

Não obrigatoriamente. Eu penso que depois das regras definidas pela Direção Geral de Saúde, o Ministério da Educação e o excelente trabalho que fizeram os agrupamentos escolares e toda a comunidade educativa, em tempos incertos e estranhos, eu acho que é necessário desconstruir, principalmente nas primeiras idades até à puberdade, esta ideia de uma pandemia do medo que é pior que o vírus. Isto é, nós não podemos, nestas idades, ter essa noção de que as crianças não se podem tocar ou que as crianças não podem ter atividades ao ar livre, estar confinadas. Depois de um estado de confinamento largo, agora voltar no regresso às escolas e estar sentadas quietas na sala de aula, isso é uma violência enormíssima do ponto de vista psicológico e acima de tudo, da necessidade de socialização. As crianças nas primeiras idades necessitam de ser ativos e brincar muito. Portanto, eu penso que esta pandemia do medo que se instalou é pior que o vírus. Nós temos que desconstruir esta ansiedade e ter confiança de que as crianças têm uma carga viral menor daquilo que se imagina. A evidência científica não é clara sobre isso. E, portanto, as crianças têm que ter tempo disponível pra serem crianças na escola. De facto, as soluções que já foram há 100 anos adoptadas, quer quando se deu a gripe espanhola e a tuberculose, a solução foi trazê-las pro ar livre, trazê-las para fora da sala de aula. As crianças não vão pra escola para estar confinadas dentro da sala. Isso é um disparate do meu ponto de vista.

Portanto, a solução seria tirar as crianças da escola, levá-las para parques e jardins, seria isso?

Por exemplo, por que não criar relações com o poder local, com os municípios, de modo a ter não só o melhoramento dos espaços exteriores da escola, como também sair para espaços que são possíveis ao ar livre, fora da própria escola, em relação com a comunidade. Eu acho que esta é a solução que está ao nosso alcance, mantendo, obviamente, a integridade de cada turma. Agora, o que me parece é que estão a ser criados corredores, bolhas. Parece que estamos a criar um estado policial, um estado militar dentro da escola, que não é agradável, obviamente, a crianças pequenas, principalmente até à puberdade.

E que impacto é que isso pode ter quando falamos de saúde das crianças? Estamos a falar de problemas ao nível da socialização, é sobretudo por aí?

Principalmente ao nível da socialização, mas eu quero levantar aqui um outro problema que é muito importante. De facto, a recuperação das aprendizagens escolares não pode ser só um objetivo. O objetivo é também recuperar os atrasos que provocou o confinamento no que diz respeito à saúde física. As crianças têm que se mexer, têm que ter atividade física, têm que brincar muito e, portanto, têm que ter contato com a natureza. E isso é algo que ninguém está a pensar. A saúde mental é muito importante. As aprendizagens escolares também, mas também é fundamental a questão da saúde física. E o que é verdade, e eu tenho isso por própria experiência, porque também estou a dar aulas aos mais pequenos, e o que se verifica é que as crianças estão com excesso de peso, estão com alguma iliteracia motora, com uma grande inatividade física, e acho que é uma situação inaceitável ter as crianças sentadas, que fazem intervalos dentro da sala de aula. Isto é completamente absurdo e é completamente obsoleto. E, portanto, é necessário desconstruir esta ideia de que o corpo na escola tem que estar inativo. Isto não pode ser.

Professor Carlos Neto, isso leva-nos pra outra questão, que tem a ver com as regras muito apertadas que estão definidas para as aulas de educação física, há escolas que optam até por não lecionar essa componente do currículo. Tem mesmo que ser assim? As aulas de educação física têm que garantir esse distanciamento entre alunos, como está previsto?

Claro que não. Reparem, as crianças, até pelo menos aos 10 anos, têm que se tocar. O contato físico é uma categoria fundamental no desenvolvimento humano e, portanto, isso será algo que não tem sentido. As organizações ligadas à educação física, quer a Sociedade Portuguesa de Educação Física, quer as comissões nacionais locais, já definiram algumas regras, até com uma ligação a instituições europeias, de que as aulas de educação física podem ser perfeitamente feitas, simplificando, obviamente, algumas atividades e algumas regras de distanciamento, mas nunca diminuir o nível de intensidade física, o uso das máscaras, que não tem sentido quando há atividade física, há dispêndio energético. E isso está perfeitamente ao alcance do saber dos profissionais de educação física que trabalham com crianças e que podem perfeitamente desenvolver em espaços ao ar livre ou mesmo em espaços fechados com algumas regras. E a educação física é uma disciplina absolutamente essencial neste momento. Nós podemos estar a criar aqui um problema seríssimo, a médio e longo prazo, de saúde física, que se vai pagar muito caro no futuro. Portanto, em certo sentido, a população geral, as escolas, têm uma percepção de que é mais importante as atividades consideradas socialmente úteis, como é escrever, ler, contar e outras atividades cognitivas, e deixam para trás uma das coisas essenciais, que é de facto este sedentarismo e esta inatividade física que está implementada com estas crianças que ficaram demasiadamente tempo na escola. Claro que a partir do segundo ciclo, com certeza que essas regras têm que ser um bocadinho mais apertadas, mas por amor de Deus, é necessário desconstruir esse medo, desconstruir esse policiamento que existe, essas regras demasiadamente fundamentalistas. Nós temos que aliviar essas regras, porque de facto é preciso perceber o que é uma criança em desenvolvimento e quais são as suas necessidades, não só de mover o corpo, mas também de gratificação por terem atividades de brincadeira livre, ao ar livre e, acima de tudo, a socialização, que é uma das coisas mais importantes. As crianças, quando no regresso à escola, querem estar com os amigos, querem estar com os professores, mas não podem ter um ambiente demasiadamente rígido e fundamentalista na utilização do espaço. Faz parte do desenvolvimento humano, em todos os animais e também no ser humano, a necessidade de contato, de toques, de olhar cara na cara e, portanto, de poder ter liberdade, democracia, capacidade de mover o corpo em liberdade.

E pode haver então condições para isso, apesar da pandemia. Agradeço ao professor Carlos Neto, investigador na Faculdade de Motricidade Humana, professor também, fazendo este balanço dos primeiros 15 dias de aulas em tempo de pandemia, o uso permanente da máscara e os recreios em sala de aula estão a fazer parte de um novo normal das escolas, mas o professor Carlos Neto diz que é possível desconstruir estas regras.