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O presidente russo vai enviar para o Oceano Atlântico uma fragata com capacidade nuclear. Trata-se da fragata Gorshkov, que está equipada com os mísseis hipersônicos Zircon, que têm capacidade nuclear. A notícia foi avançada pela agência Bloomberg. A Reuters acrescenta que a fragata vai navegar para o Oceano Atlântico e Índico e também para o Mar Mediterrâneo, aqui bem perto. É nosso convidado nesta edição das 14h, o major general Isidro Morais Pereira, com quem estamos a tentar estabelecer contato para perceber até que ponto devemos recear esta notícia hoje conhecida. A Rússia vai enviar para o Oceano Atlântico e também para o Mar Mediterrâneo uma fragata com capacidade nuclear. Como disse, temos conosco em linha o major general Isidro Morais Pereira. Senhor Major General, muito boa tarde. Bem-vindo à Rádio Observador, mais uma vez. Devemos recear o envio por parte da Rússia desta fragata com capacidade nuclear para o Oceano Atlântico e para o Mar Mediterrâneo, aqui bem perto?
Não, acho que é mais uma demonstração que Putin quer dar a conhecer ao mundo. Quer dar a conhecer, desta feita, uma arma que já sabíamos que estaria em desenvolvimento. Não é propriamente a fragata, mas sim os mísseis que ela supostamente é capaz de albergar e até disparar, aquele tal míssil 3M22 Zircon, também conhecido por SSN-33. É um míssil semelhante ao míssil Kinzhal, que é um conjunto de mísseis que tem vindo a ser desenvolvido, que são mísseis hipersônicos de cruzeiro. Os mísseis hipersônicos já são uma realidade de muitas décadas. Aliás, todos os mísseis balísticos intercontinentais atingem velocidades acima de 22, 23 mil km/h. O que é agora a novidade é a existência de mísseis de cruzeiro com capacidade para se moverem a velocidades bastante superiores à velocidade do som. Neste caso concreto do Zircon, aquilo que se sabe, que ainda é muito pouco, é que este míssil terá a capacidade de se deslocar a uma velocidade próxima do Mach 9, ou seja, nove vezes a velocidade do som. As contas feitas por alto, a cerca de 11 mil km/h. E pode mover-se a uma altitude de 30 a 40 km e também se pode mover, naturalmente, em altitudes muito mais baixas, porque se trata de um míssil de cruzeiro. Só que temos aqui uma situação que devemos também analisar. Quanto mais baixo o míssil se deslocar, em termos de altitude, maior é a probabilidade de ele próprio se incendiar e se desintegrar. Como sabemos, o ar é muito mais denso junto à Terra e é precisamente a densidade do ar, a existência das partículas em suspensão, que provoca aquilo que na Física nós chamamos de atrito. Esse é o grande problema dos mísseis hipersônicos de cruzeiro. É que não há nenhum míssil que seja capaz de se deslocar muito junto à Terra, a cerca de 100, 200 metros de altitude, como grande parte dos mísseis de cruzeiro o fazem, a velocidades hipersônicas, a velocidades muito superiores a cerca de Mach 4,5, Mach 5,6. É normalmente o limite de resistência dos materiais. Portanto, este é um míssil que nós sabemos que é uma experiência, que é um míssil que ainda não está em produtivo, mas que está a ser desenvolvido em conjunto com outros pela Rússia.
Portanto, esta é uma ameaça que não é para concretizar, não há nada a recear com a presença de uma fragata com esta capacidade nuclear aqui bem próximo de nós?
Não, de momento, para já, este míssil é um míssil que ainda é uma experiência. Portanto, este míssil ainda só entrará em produtivo, das informações que consegui recolher, daqui por cerca de um ano a dois, dependendo da capacidade económica e tecnológica da Rússia. Temos que ter em conta que a Rússia tem vindo sendo sujeita a sanções tecnológicas também. E isto pode atrasar, naturalmente, alguns dos projetos mais evoluídos, designadamente esta questão dos mísseis hipersônicos. Portanto, este míssil sabemos que é um míssil que pesa cerca de 300 a 400 quilos e tem 10 metros de comprimento e poderá transportar ogivas nucleares. Portanto, simplesmente ainda não é uma realidade, ainda estamos nas experiências. E mais, e quando se diz que estes mísseis hipersônicos conseguem evadir os radares, depende da configuração do terreno e depende da altitude a que eles se deslocam. Este Zircon é um míssil hipersônico à volta do qual se tem falado muito e até especulado, porque supostamente este míssil, face à velocidade a que se desloca, poderá gerar uma espécie de plasma. É um estado da natureza que nós sabemos que não é um estado sólido, nem é um estado gasoso, é um estado intermédio, um estado de plasma, e que esse estado de plasma à volta desse míssil o poderá tornar indetetável aos radares. Mas isso é algo que ainda é preciso comprovar. De qualquer forma, a detecção deste tipo de mísseis no futuro não vai ser feita, e mesmo já nos dias de hoje, não é tanto feita por radares, mas sim por uma rede de satélites que está colocada em órbita.
Portanto, a questão de ser indetetável não é bem assim.
Não é bem assim, porque se for, por exemplo, no mar, é mais fácil de ser detetado, porque mesmo movendo-se a grande velocidade, o mar é Portanto, é mais fácil detetá-lo. Se este míssil, sendo um míssil de cruzeiro, se esconde por trás, navega por vales, por trás de grandes elevações, os radares funcionam em linha de vista, como é óbvio. E como se movem a grande velocidade, no momento em que são detetados, já não há tempo de integrar o algoritmo, já não há tempo de ser integrado e ser transportado às armas antiaéreas. Fundamentalmente, estamos a falar quais são as armas antiaéreas mais eficazes que hoje em dia fazem parte do escudo de defesa antimíssil. São, fundamentalmente, os Patriot PAC 3 e a última evolução, que vai pelo nome de Skyceptor, que são as armas americanas que protegem os Estados Unidos da América e os seus parceiros da NATO, deste tipo de ameaças. No entanto, há um projeto que está em franco desenvolvimento e foi acelerado com este evento da Guerra da Ucrânia, que é o estabelecimento de uma rede de satélites, exatamente para detetar este tipo de ameaças desde o momento em que elas são disparadas e fazer o seu seguimento e entrar, inclusivamente, no espectro eletromagnético, por forma a conseguir entrar na sua programação, porque isto são armas inteligentes, e desviá-las para locais onde poderão ser mais facilmente destruídas.
Muito bem.
Isto é um projeto, inclusivamente, e para terminar, que os Estados Unidos vêm lançando esse tipo de satélites, mas na iminência de poder ter ameaças desta natureza, até há uma informação, fidedigna, em que o Pentágono terá celebrado um acordo com Elon Musk para utilizar a sua rede de satélites Starlink para esta mesma finalidade. Portanto, temos que contextualizar este tipo de ameaças e eu julgo que, de momento, o facto desta fragata ter feito uma experiência com um míssil desta natureza e agora estar no Atlântico e a dirigir-se para o Mediterrâneo, não deverá ser encarada como uma ameaça imediata, seja aquilo que for. Mas como uma operação de informação, mais uma operação psicológica e uma ação de propaganda de Putin para mostrar, mais uma vez, mais uma das suas armas milagrosas ao mundo e para mostrar também no domínio interno.
A Rússia continua a ter poderio militar.
A Rússia continua a ter poderio militar suficiente para poder resolver um conflito no momento em que assim decidir.
Muito bem.
Estamos perante isto, fundamentalmente.
Senhor Major-General, muito mais descansados, agradecemos a sua análise e interpretação que nos ajuda a fazer deste anúncio feito pelo presidente russo de envio para o Oceano Atlântico de uma fragata com capacidade nuclear.