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E Bernardino Soares, o presidente da Câmara de Loures, foi um desses autarcas que se encontrou durante cerca de duas horas com a Ministra da Saúde. Julgo que já o temos conosco em direto. A primeira pergunta que lhe faço é: o que ficou definido nesta reunião?

Boa tarde. Nós congratulamos com a realização desta reunião, mas temos que dizer que ela já devia, provavelmente, ter ocorrido algumas semanas atrás, quando aqui na Câmara de Loures começamos a dizer que era preciso ir rapidamente pro terreno, ver em concreto cada situação, referenciar no território os casos, para poder intervir sobre eles e travar as cadeias de transmissão. A partir de agora, estão criadas as condições para que isso venha a acontecer. Vamos manter uma grande pressão para que não abrande a constituição de equipes, a testagem dos contactos próximos, o rastreio, a garantia do confinamento. Porque essa é a forma de assegurar a quebra das cadeias de transmissão.

A quebra das cadeias. Essas equipes são da autarquia ou vêm da Direção Geral de Saúde e do Ministério da Saúde? Como é que estão a ser criadas? Como é que serão criadas?

Sim. Até agora só a autarquia tem estado, há três semanas, no terreno a fazer sensibilização, distribuição de máscaras, sem qualquer indicação da área da saúde. As equipes, a partir de amanhã, vão integrar a saúde, a Segurança Social e o município e vão permitir a testagem, o acompanhamento de situações sociais, por exemplo, para encaminhamento para alojamento temporário de casos positivos, quando não haja condições de habitabilidade para os isolar, ou outro tipo de apoios sociais que garantam que as pessoas não saem de casa para ir trabalhar porque precisam assegurar a sua subsistência.

Bernardino Soares, ajude-me também aqui a perceber. Em Loures, aí na região, quais são os locais mais complicados cujo levantamento já tinha sido feito pelo lado da autarquia?

Quem faz o levantamento é a autoridade de saúde. Eles é que têm os dados, as referências, as moradas e têm vindo a demorar a fazer essa identificação. Julgo que não é adequado, nem corresponde à realidade, catalogar esta situação como uma situação ocorrendo em bairros sociais, nem muito menos apenas nos bairros sociais e municipais de Loures. A situação é de vários concelhos da área metropolitana, a começar por Lisboa, que é quem tem o maior número de casos e percentagem, e naturalmente preocupa-nos a todos. É preciso, e esse trabalho ainda não está feito em grande medida, referenciar no território para percebermos onde é que há maior concentração de casos e com isso podermos intervir sobre eles com equipes que agora vão começar a trabalhar a partir de amanhã.

Mas esse levantamento ainda não foi feito? Essa percepção não há.

Não. Só foi muito parcialmente feito nos últimos dois ou três dias e isso é o que temos vindo a pedir há várias semanas, que se faça esse levantamento.

E qual é que era a resposta da Direção Geral de Saúde a essa inquirição ou a esse pedido por parte da autarquia?

Nós temos uma estrutura de saúde pública muito fragilizada e muito esgotada por todo este trabalho e com poucos recursos, porque ao longo dos anos foi se desinvestindo nelas. E nós temos vindo a dizer, dissemos durante toda a semana passada a vários órgãos de comunicação social, que é preciso trazer gente de outras regiões do país que estão com situações melhores para reforçar as equipes de saúde pública da Grande Lisboa. E finalmente, ouvimos a partir do final da semana passada, o governo e a senhora Ministra da Saúde a referir essa possibilidade, que esperamos que agora se concretize. Para já-

E que promessas é que ficaram desta reunião de hoje?

Para já vão ser mobilizadas equipes do próprio agrupamento dos centros de saúde que não são da saúde pública, portanto, para reforçar o trabalho da saúde nesta área, o que nos parece uma medida positiva, e eu julgo que devem ser tomadas pelo Ministério da Saúde e pela Direção Geral da Saúde, todas as medidas necessárias para pôr os profissionais em Loures, em Sintra, na Amadora, em Odivelas, em Lisboa, necessários para ir para o terreno tratar destas situações, que é onde elas têm que tratar e até aqui esse trabalho não estava a ser feito.

E esse trabalho junto também da população. Bernardino Soares falou há pouco que a autarquia tem feito, de certa forma, tem, nomeadamente na divulgação dos cuidados a ter junto à população. Falávamos também há pouco que não é correto dizer que sejam os bairros sociais os focos de infecção. No entanto, são zonas com uma maior densidade populacional, são zonas de maior risco, são zonas de maior preocupação, ou não?

São zonas de preocupação, naturalmente, é preciso não desvalorizá-las.

Até porque são pessoas que circulam mais. Ou seja, estamos a falar dessas zonas onde temos muitos trabalhadores que circulam mais pela região, a mercê também do trabalho que efetuam, dos trabalhos que têm, e usam, por exemplo, os transportes públicos, que podem ser apontados como locais de risco. Podemos ir por esta linha de raciocínio?

Sim, mas essa linha de raciocínio obriga-nos a incluir um conjunto de outros territórios que não são apenas os bairros sociais. E é isso que nós queremos que seja feito. Não queremos excluir o trabalho e a detecção de casos nos bairros municipais. Isso é imprescindível, mas é preciso ir mais além, porque senão estamos só, com base numa determinada parametização prévia, a olhar pra uma parte da realidade. Porque as circunstâncias, como o senhor jornalista acabou de referir, de um determinado tipo de atividades profissionais, um determinado tipo de uso da mobilidade através dos transportes públicos e eventuais dificuldades nas condições de habitabilidade, não existem só nos bairros sociais dos bairros municipais, existem noutras zonas do território de Loures e do território dos outros concelhos.

Como é evidente. A ideia aqui é um pouquinho essa, ou seja, não é só nos bairros sociais que isso existe. O que eu estava a dizer é que a densidade populacional é muito maior também nestas zonas e daí também ser mais fácil ou, se calhar, mais rápido o contágio. Ou pelo menos haver um maior cuidado para que isso não aconteça.

Estou convencido que acontece em várias zonas dos vários concelhos que estão nesta situação. E isto não pode ir por palpites. O que tem que haver é a referenciação geográfica de cada caso para vermos onde é que há manchas maiores e onde é que os casos são dispersos e não merecem uma especial preocupação. Isso só se faz fazendo essa referenciação.

Essa referenciação, essa preocupação tem chegado também à autarquia por parte dos moradores do concelho de Loures? Têm questionado o presidente da Câmara sobre estes problemas ou não?

Claro, as pessoas estão preocupadas, ainda por cima veem notícias na televisão, nas rádios. É natural que estejam preocupadas. Eu julgo que não há nenhuma situação de alarmismo. Quero dizer, por exemplo, que apesar de nós termos cerca de 1060 casos registados no Boletim de Direção Geral de Saúde, neste momento em Loures, menos de 500 estão ativos. Portanto, aquilo é o acumulado dos casos de toda a pandemia, não é o número de casos que estão ativos. E isso também nos dá já uma perspectiva diferente em relação à situação. Portanto, não é caso para entrarmos em pânico ou em qualquer tipo de desespero ou alarmismo, mas é preciso intervir, é preciso ir para o terreno, é preciso acautelar cada situação e é preciso intervir nos transportes públicos, que é uma coisa que tem vindo a ser adiada por parte do governo.

Há falta de transportes públicos.

Há muita falta de transportes públicos. Nós, neste momento, temos a principal operadora no nosso concelho a funcionar a 55% da oferta habitual. Ora, já com 100%, a oferta é insuficiente. A 55%, é evidente que em várias horas do dia não é possível garantir o distanciamento social que está determinado pela Direção Geral de Saúde e que as pessoas até querem cumprir, mas quando se tem que ir trabalhar, porque senão perde-se o emprego, que senão, não se ganha nesse dia, quando se tem que deslocar para o seu local de trabalho de transporte público, é evidente que se vai, seja em que condições for. E portanto, injetar uma verba no sistema de transportes públicos da Grande Lisboa que permita, pelo menos, irmos para os 100% habituais, mesmo que isso seja ainda insuficiente, e melhorar muito o distanciamento, as condições de transporte das pessoas, será uma medida essencial neste momento. Repare que na sexta-feira o senhor primeiro-ministro referiu-se à questão dos transportes exemplificando com a cidade de Lisboa e os comboios da CP. E eu não ponho em causa que o que ele disse em relação a esses dois exemplos esteja correto. Acontece é que num concelho como Loures, em que passa a linha da Azambuja, mas em que ninguém consegue apanhar o comboio porque já vem cheio do concelho de Vila Franca e mais a norte. E portanto, não temos realmente nenhum transporte pesado para levar as pessoas para Lisboa. O fundamental dos transportes é feito de transporte rodoviário, de autocarro.

E qual é que tem sido a resposta a esse vosso pedido, ao pedido da sua autarquia, neste caso, e outras também?

Até agora negativo.

Ou seja, não há a possibilidade de um aumento de transportes, nomeadamente no transporte rodoviário, utilizando a sua expressão, das carreiras.

Eu acho que tem de haver. E hoje voltei a vincar essa questão junto dos membros do governo que ali estavam. Tem de haver, porque isso para territórios em que uma parte das pessoas, que são, aliás, como muito bem disse há pouco, aquelas que têm as atividades que o governo detetou como mais sensíveis neste momento, construção civil, empresas de trabalho temporário de limpeza, de vigilância e outras, essas pessoas que usam esses transportes públicos estão aqui nesta região. E nós precisamos de aumentar a capacidade dos transportes para limitar o contágio mesmo nos próprios transportes públicos. E eu quero acreditar que se vai olhar novamente para esta situação com olhos de ver e introduzir aqui melhorias que são absolutamente indispensáveis neste momento e que precisam de ser financiadas por parte da administração central.

Bernardino Soares, Marta Temido deixou-lhe a garantia de que começa já amanhã estes trabalhos junto da população?

Deixou essa orientação e nós tratamos de coordenar com as outras entidades da área da saúde e da Segurança Social a ida já amanhã para o terreno. E estamos a pedir que se faça um programa intenso, com várias equipas em simultâneo, para fazer estes contactos nos sítios que já estão referenciados, noutros que vão ser referenciados com o trabalho que falta fazer, para intervirmos rapidamente, que é assim que vamos travar esta pandemia, e eu estou certo que vamos conseguir fazê-lo.