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Miguel Prudêncio, investigador do Instituto de Medicina Molecular, muito bom dia. Temos a entrega de Prémio Nobel da Medicina, Katalin Karikó e Drew Weissman, dois investigadores que trabalharam e contribuíram para a descoberta que levou à vacina contra a Covid-19. Que trabalho desenvolveram estes dois investigadores? De que pessoas estamos aqui a falar?
Nós estamos a falar de dois investigadores que já há algum tempo atrás fizeram um trabalho que foi fundamental para aquilo que nós hoje conhecemos como sendo as vacinas de RNA mensageiro contra a Covid-19. Basicamente, aquilo que acontece é que a molécula de RNA mensageiro, que faz parte destas vacinas, começou a ser estudada já há algumas décadas, porque se percebeu que estas moléculas desencadeavam uma resposta inflamatória quando não eram administradas com uma modificação, que era fundamental para que essa resposta inflamatória não se desse. E foi Katalin Karikó e Drew Weissman que descobriram que fazendo essa modificação na molécula, ela deixava de desencadear essa reação inflamatória, permitindo assim a sua utilização em termos terapêuticos. Portanto, este conhecimento, na altura, foi gerado naquilo que se pode considerar um trabalho de investigação fundamental. Na altura, não se falava em vacinas e muito menos de Covid-19, mas foi aquilo que constituiu a base que permitiu que a molécula de RNA mensageiro, através da introdução destas alterações na sua composição, pudesse ser utilizada em condições terapêuticas sem desencadear uma resposta inflamatória. Isto, como eu dizia, na altura, não houve muita gente que tivesse dado a importância a esta descoberta que ela, na realidade, veio a ter. Foi considerado um trabalho de investigação fundamental interessante, mas passou ao lado de muita gente o potencial que isto tinha para, mais tarde, se desenvolverem terapias baseadas na molécula de RNA mensageiro. O que é certo é que sem esse conhecimento, não teria sido possível desenvolver estas vacinas, que hoje em dia nós sabemos que são altamente eficazes, altamente seguras. Portanto, é um trabalho absolutamente fundamental para tudo o que veio a seguir no domínio da utilização do RNA mensageiro como terapêutica e como vacina, em concreto. Portanto, sem o trabalho da Katalin Karikó e do Drew Weissman, não teria sido possível desenvolver estas vacinas que vieram mudar a face da pandemia, como todos hoje sabemos. Portanto, é uma atribuição de um prémio que é mais do que justa, aliás, era antecipada, na medida em que todos reconhecem que sem esse trabalho pioneiro, nós não teríamos chegado onde chegamos. Portanto, acho que é um prémio muito merecido e uma recompensa por aquilo que foi uma descoberta que veio a mostrar, uns anos mais tarde, transformar o panorama, no concreto, do combate à Covid-19, mas potencialmente permitir muitas outras intervenções terapêuticas futuras que, baseadas nesta molécula de RNA mensageiro, podem vir a estar na base de novas vacinas, de novos tratamentos, de novas terapias que utilizam esta molécula.
Portanto, estamos aqui a falar de uma investigação que aconteceu alguns anos antes sequer de termos a pandemia de Covid-19. Essa investigação toda, depois do desenvolvimento das vacinas, teve como base este estudo, estas descobertas feitas anos antes para outro tipo de doenças, para outro tipo de vacinas.
Sem dúvida. Este trabalho foi publicado em 2005. Portanto, esta descoberta de que introduzindo estas tais alterações na molécula de RNA mensageiro, se conseguia evitar que ela conduzisse a uma reação inflamatória. Isto é um trabalho que foi publicado em 2005, portanto muito antes da pandemia de Covid-19. E como eu dizia, na altura, nem toda a gente percebeu as implicações potenciais futuras que este trabalho veio a ter. Isto é um exemplo característico de como um trabalho de investigação fundamental, em que na altura quando a Katalin Karikó e o Drew Weissman estavam a trabalhar neste assunto, não estavam a pensar forçosamente na sua aplicação, e nomeadamente em termos de vacinas, mas a descoberta deste fenómeno fundamental foi crucial para que depois essa utilização fosse possível. E é, aliás, importante reforçar esta ideia de que este trabalho e as vacinas contra a Covid-19 não apareceram de um dia para o outro, quando a pandemia surgiu. Houve, na altura, várias pessoas que colocaram em causa como é que foi possível desenvolver vacinas tão depressa e colocaram em causa a sua segurança, por causa dessa celeridade. Ora, é fundamental nós percebermos que o trabalho que levou à produção destas vacinas contra a Covid-19 assentou sobre o trabalho de décadas de investigação, que numa fase embrionária ainda não tinha esse objetivo concreto de vir a conduzir à existência de vacinas, mas que foi esse conhecimento gerado por essa investigação que permitiu depois construir em cima desse conhecimento as vacinas que nós hoje sabemos que têm a eficácia e a segurança que têm.
Sim. Só perguntar, para terminar: não fosse a pandemia de Covid-19 e se calhar este prémio não estaria a ser atribuído, ou pelo menos nesta altura não estaria a ser atribuído.
É possível que não. No entanto, a realidade é que a utilização da molécula de RNA mensageiro para fins terapêuticos, inclusivamente para vacinação, era algo que, em 2019 e até alguns anos antes, já estava a começar a ser explorada para outros fins. Obviamente, não para uma pandemia de Covid-19, que não se sabia que ia existir, mas já se tinha compreendido que esta molécula, com estas modificações identificadas pela Katalin Karikó e pelo Drew Weissman, tinha muito potencial para ser utilizada terapeuticamente. E inclusivamente, o que aconteceu foi que empresas que estavam já a tentar utilizar esta tecnologia para outros fins terapêuticos, quando surgiu a pandemia de Covid-19, redirecionaram esse esforço para desenvolver vacinas para a Covid-19, que se vieram a revelar altamente eficazes. Portanto, eu penso que o trabalho que foi realizado pela Katalin Karikó e pelo Drew Weissman, mais tarde ou mais cedo, iria traduzir-se em aplicações terapêuticas importantes, mas julgo que a pandemia de Covid-19 e o desenvolvimento das vacinas para a Covid-19 vieram acelerar esse reconhecimento, que provavelmente viria a existir, mais tarde ou mais cedo, porque realmente o potencial desta molécula é enorme, mas sem dúvida que o sucesso das vacinas contra a Covid-19 veio acelerar este reconhecimento e este prémio.
Miguel Prudêncio, muito obrigado pelos seus esclarecimentos.
Eu é que agradeço. Muito obrigado. Boa tarde.