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Patrícia Reis, jornalista e também escritora. Bom dia, obrigado por se juntar também a nós. Como é que recorda, que legado nos deixa Lobo Antunes?

Quando morre um escritor como António Lobo Antunes, há sempre esta tentação de transformar a figura num mito. E ele não era uma estátua literária, era um homem muito concreto, com as suas convicções de uma determinada geração, por vezes conservador, por vezes difícil, pouco dado a simpatias. No meio literário, será de destacar a relação de amizade que tinha com esse grande escritor que é José Cardoso Pires, a quem ele tratava simplesmente por Zé. É preciso talvez dizer que o grande território das escritas de António Lobo Antunes é a memória. Ele dizia: "Toda a invenção é memória, quem nos arranja os materiais é a memória". E talvez isso venha da sua vida de psiquiatra, de tantos anos a ouvir as histórias íntimas e frágeis das outras pessoas. Mas, como dito, não era uma personagem fácil. Lembro-me de lhe ter feito várias entrevistas ao longo dos anos, sempre com o gravador ligado, e ele a meio da conversa dizia muitas vezes: "Vá, dele lá essa coisa". Queria que o gravador saísse de cena para começarmos realmente a conversar. Tenho um outro episódio divertido com ele. Pedi-lhe um conto para a Revista Egoísta e ele ainda escrevia no Hospital Miguel Bombarda. Disse-me que sim, mas que queria o pagamento em dinheiro vivo. E eu lá fui para o hospital com um saco de dinheiro. E ele riu-se quando me viu chegar com o saco de dinheiro e disse: "Era uma provocação". Depois deu-me o conto manuscrito nas folhas dos blocos de receitas do hospital, e disse-me: "Guarda isto, vai valer dinheiro". Ele tinha a perfeita noção do seu valor. Eu guardei, claro.

E a nível daquilo que é a importância de António Lobo Antunes, ao nível do estilo, da escrita. Isso também marca.

É incontornável. Eu acho que é incontornável alguns escritores. Felizmente, nós temos em Portugal escritores que são incontornáveis. António Lobo Antunes é incontornável, o Saramago é incontornável, mas também temos a Agustina Bessa-Luís, ou a Sofia de Mello Breyner, ou a Maria Teresa Horta. Nós temos grandes escritores. Ele tinha uma relação difícil com as mulheres escritoras, devo dizer, sempre no arrepio de uma certa provocação, sempre naquela linha de tentar perceber a cabeça das mulheres. Podia ter graça, mas também podia ser desagradável. Como dito no início, não podemos mitificar só o criador e a sua obra, embora ele dissesse muitas vezes que tudo na sua autobiografia estava nos livros. E estará, obviamente, porque um livro é sempre um biombo atrás do qual a gente se esconde, como dizia o Vergílio Ferreira, de quem ele por acaso gostava. E eu concordo. Está lá tudo, a vida dele, a tristeza, a melancolia, a família, a importância da família, a guerra, claro. E acho que perdemos um escritor. Não, não perdemos um escritor, porque a sua obra seguirá viva, assim o continuemos a ler.

E seguirá viva, não só em Portugal, mas também lá fora. Aliás, posso fazer referência a que mesmo o jornal espanhol "El País" está também a dar algum destaque à morte de Lobo Antunes. Significa também que Lobo Antunes deixa uma marca não só na literatura portuguesa.

É um escritor internacional, com certeza. Claro, e é preciso perceber que Lobo Antunes começa a escrever em 1976, ou começa a publicar em 1976, e o mundo literário era bastante diferente no século XX do que é hoje no século XXI, em que somos bombardeados e há livros quase que cuspidos para o mercado a cada segundo. E portanto, a importância do escritor, e a importância de um escritor como Lobo Antunes, também cresceu fruto ao seu tempo, ao seu lado contemporâneo, àquilo que era a vivência do mundo no meio literário. E é evidente que ele teve um sucesso internacional, assim como teve José Saramago, e é incontornável. É um nome completamente incontornável.