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Ao telefone junta-se agora a nós Óscar Felgueiras, matemático e professor da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Boa tarde.
Boa tarde.
É possível estabelecer esta relação entre o aumento deste indicador do RT em Lisboa e os festejos do título do Sporting, ou é uma interpretação abusiva?
Creio que há aqui uma coincidência temporal que permite considerar plausível essa ligação. Portanto, o RT em Lisboa e Vale do Tejo, que é uma região bastante alargada, com mais de 3,5 milhões de habitantes, tem neste momento o RT a 1.11. É a única região do continente com RT acima de um. E o que se verifica é que existe uma concentração grande de casos no concelho de Lisboa. Se compararmos o concelho de Lisboa com os concelhos limítrofes, nomeadamente Amadora, Loures, Odivelas, Oeiras, o que verificamos é que a incidência de Lisboa é duas ou três vezes superior aos seus vizinhos e, como tal, temos aqui bem delimitado um foco de incidência. Este crescimento que está a ocorrer na região de Lisboa e Vale do Tejo é muito dominado por esse crescimento acentuado na cidade de Lisboa. Tendo isso em conta, creio que sim, que é legítimo pensar que há uma ligação.
Que há uma ligação com os festejos do título do Sporting. Aquilo que nos disseram é que, em princípio, só passado 14 dias dos festejos do título do Sporting, só nessa altura é que seria possível afirmar com mais propriedade que de facto havia uma relação direta entre os dois eventos. Só passou uma semana. É possível afirmar, desde já, que essa relação existe?
Já passou mais de uma semana, não é? Portanto, neste momento já passou, em rigor, mais de 10 dias e neste momento é natural que vão surgindo casos. E se repararmos naquilo que tem acontecido em termos de incidência na cidade de Lisboa, há um acréscimo substancial nesta última semana. Isso pode estar realmente associado aos festejos. É natural que assim seja. Agora, também o que importa verdadeiramente é tentar controlar a situação da mesma forma que se faz nos outros concelhos. Portanto, neste momento Lisboa não está ainda naquela linha vermelha. Está com 118 de incidência a 14 dias por 100 mil habitantes.
Abaixo da barreira de 120.
Abaixo de 120, mas é uma diferença quase insignificante. Portanto, é natural que na avaliação que seja feita na próxima semana esteja acima de 120 e acima de tudo, há que ter noção que há aqui uma situação discrepante relativamente à vizinhança e, portanto, merece alguma atenção, principalmente tratando-se da cidade que é a cidade maior do país, com várias ligações também ao resto do país e mesmo internacionais, e portanto, certamente que merece alguma atenção acrescida.
Professor, e tendo em conta os modelos que tem usado para prever a evolução da pandemia, até quando é que o número de casos deverá continuar a aumentar no concelho de Lisboa?
Isso é algo que não é muito fácil responder, porque o que temos verificado ultimamente é que na maior parte dos concelhos do país tem havido alguns surtos e rapidamente, em questão de poucas semanas, têm sido dominados. Isto acontece em concelhos pequenos, em geral, mas existe eventualmente aqui uma exceção. Odamira, de facto, tem permanecido com a incidência elevada durante mais tempo, mas é uma exceção. E mesmo Odamira até está a caminhar para uma situação mais controlada. Aqui, tendo em conta que na vizinhança de Lisboa não há incidências elevadas, porque em rigor, a incidência, por exemplo, em Lisboa e Vale do Tejo é menos de metade do que a incidência em Lisboa. Isso constitui um fator que pode ser benéfico para o controle da situação. Agora, também sabemos que existem riscos acrescidos. Esta semana foram levantadas restrições à circulação de passageiros internacionais, muitos dos quais chegam ao aeroporto de Lisboa e, portanto, há que ter alguma atenção. Agora, o facto de estar a haver neste momento uma tendência de subida forte em Lisboa não significa obrigatoriamente que vá continuar. Se isto for um episódio pontual, acima de tudo ligado, por exemplo, aos festejos, até pode ser que em breve comece a haver uma estabilização.