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Fernando Negrão, existem relatos destes casos de refugiados ucranianos que dizem ser recebidos por cidadãos russos na Câmara de Setúbal. Já teve algum contato com estes refugiados ucranianos?
Não tivemos ainda nenhum contato com esses refugiados por uma razão: porque a Câmara sempre disse que esta situação seria uma situação mais da responsabilidade de terceiros do que propriamente da Câmara Municipal. E isso tem afastado o assunto da discussão nas reuniões de Câmara. Acontece, porém, que os dados que são agora dados a conhecer levam-nos a concluir que afinal a Câmara pode ter uma intervenção muito superior àquilo que dizia. E portanto, é este o ponto da situação.
E os refugiados ucranianos, até mesmo com quem o "Expresso" fala, fazem aqui referência a um nome de um cidadão russo que a Câmara diz que já trabalha com eles há algum tempo. Já tinha conhecimento deste cidadão?
Não tinha conhecimento, a não ser através de declarações da própria embaixadora da Ucrânia, que já tinha levantado este problema. Agora, com este acrescento de informações, eu diria que devemos estar preocupados, principalmente porque pode estar aqui a longa mão dos serviços secretos russos, mais conhecidos por KGB, a funcionar em Portugal, designadamente em Setúbal. E se isto se confirmar, porque não está confirmado, é um problema de Estado da maior gravidade e que exige uma investigação aprofundada e minuciosa relativamente ao que está a acontecer.
Fernando Negrão, apesar de tudo, estes refugiados ucranianos não foram vítimas de violência física. Pelos relatos, estes cidadãos russos que os recebem perguntam-lhes pelo paradeiro de familiares, pedem documentos pessoais. Será que não pode estar aqui em causa apenas uma má interpretação, um problema de comunicação com estes cidadãos russos?
Podem estar em causa duas situações. De facto, um problema de má comunicação ou um outro problema muito mais grave, que é de apurar os homens destas famílias, onde estão, quem são e se estão a trabalhar, designadamente nas Forças Armadas ucranianas, e a fazer o quê. E, portanto, esta identificação destas pessoas é perigosíssima, uma vez que leva a que os serviços de informação russos, ou seja, outros serviços de outra natureza, identifiquem militares ou cidadãos ucranianos que estejam a lutar contra a invasão da Rússia relativamente à Ucrânia.
Entretanto, a Câmara de Setúbal também pediu fotocópias dos documentos de identificação destes refugiados ucranianos, como já tínhamos dito. Apesar de não explicar, em entrevista ao jornal "Expresso", qual a finalidade destas fotocópias, a Câmara garante que isto é um processo normal. Fernando Negrão, daquilo que é do seu conhecimento, realmente é normal pedir este tipo de documentos a refugiados?
É normal pedir documentos a refugiados. Não é normal pedir a identificação de toda a família, designadamente dos membros que não vieram para Portugal. E isso naturalmente merece preocupação e merece uma investigação muito minuciosa daquilo que se está a passar na Câmara Municipal de Setúbal relativamente ao acolhimento dos refugiados, a bem do nome da própria Câmara Municipal de Setúbal.
Fernando Negrão, deixe-me só fazer-lhe aqui uma última questão, ainda sobre este funcionário ou este cidadão russo, que de acordo com a Câmara de Setúbal, chegou já até a trabalhar com instituições nacionais como o IEFP ou o SEF. É comum ou já era também do conhecimento dos próprios partidos de Setúbal a existência de um trabalhador russo que estivesse a operar com este tipo de instituições em Setúbal?
Não temos notícia de cidadãos russos a trabalharem em instituições de natureza pública, muito menos com esse percurso e com um percurso mal explicado, porque é um percurso que terá trabalhado aqui ou ali, ninguém explica o vínculo, ninguém explica o que andou a fazer, ninguém explica quem é o personagem e há aqui um déficit de informação por parte da própria Câmara Municipal. Eu acho que nós estamos, de facto, perante um caso que pode envolver serviços de informação. Eu digo pode. E a bem do nome da Câmara Municipal de Setúbal e principalmente a bem do nome de Portugal, esta situação exige uma intervenção e exige que haja uma investigação muito aprofundada desta situação.
O PSD já requereu essa investigação a alguma autoridade?
Ainda não. A questão foi levantada ontem à noite. Estamos ainda no início da manhã e com certeza durante o dia o PSD tomará posição.
Mas pensa que poderá ir nessa direção, que o PSD poderá mesmo pedir uma investigação? E se sim, pergunto também quem é que seria a autoridade mais indicada para isso.
A autoridade mais indicada para isto passa não só por uma questão ligada ao Ministério da Administração Interna, mas também sabermos o que os nossos serviços de informação andam a fazer. Acompanharam esta situação? Têm dados ou não têm dados? Embora esta obviamente seja uma questão confidencial, mas os nossos serviços de informação têm uma palavra a dizer nesta área.