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A venda de livros em Portugal cresceu 6,9% em 2025 em relação ao ano anterior. Isto representa um total de quase 15 milhões de livros vendidos. É o que nos dizem os dados recolhidos pela GfK, uma empresa de estudo de mercado que faz esta auditoria e contagem das vendas de livros ao longo do ano. Foram divulgados hoje pela Associação Portuguesa de Editores e Livrários. Conosco está Miguel Bauseiro, presidente da APEL. Bom dia, Miguel.

Bom dia, Ricardo, e bom dia a todos os ouvintes.

Em comunicado, a Associação de Editores e Livrários sublinha que estes números refletem uma evolução positiva face a 2024, mas diz também que devem ser encarados com prudência e moderado otimismo. Por que fazer esta ressalva, Miguel?

Antes de mais, sublinhar a boa notícia. De facto, o mercado do livro em Portugal registou um crescimento de 7,6% em valor e 6,9% em unidades. Ou seja, em Portugal comprámos todos mais livros do que no ano anterior. Estamos a falar, como o Ricardo disse, de 15 milhões de livros para uma população de cerca de 10,7, 10,8 milhões de residentes. Os dados de 2025 confirmam a tendência que temos vindo a observar desde 2021 até agora, e isso é positivo e daí eu querer sublinhar o facto de esta ser uma boa notícia. É também uma boa notícia o facto de nós nos estarmos a aproximar de outros países com quem nós gostamos de nos comparar do ponto de vista de desenvolvimento económico, desenvolvimento social e até cultural. Na verdade, em Portugal lê-se e compra-se menos livros do que nestes países europeus. Mas a verdade é que, uma vez mais, em 2025, nós comprámos mais livros, em termos relativos, do que os nossos congéneres europeus. E este caminho de aproximação é muito saudável, é muito importante que continue. E daí eu fazer sempre esta ressalva de que não podemos confundir questões estruturais com questões conjunturais. Começa a enraizar-se este ritmo de crescimento dos hábitos de compra e dos hábitos de leitura em Portugal. É verdade, é indiscutível, mas ainda estamos muito longe daquilo que acontece noutros países. Em 2025, também se registou uma tendência, um fenómeno de moda, com uma compra acentuada de livros na vertente de colorir as chamadas mandalas.

Sim, o único género que subiu significativamente foi esse género infantil-juvenil, subiu de 34,5 para 36,3.

Foi o que subiu mais, é verdade. Mas repare, Ricardo, também há um lado positivo nisto. Ou seja, mesmo nos seus períodos de descanso e de lazer, quando queremos desligar um pouquinho e queremos relaxar um pouco, estamos a ir à procura de livros. É verdade que são livros para pintar, não são livros para ler, e é por isso que eu faço esta ressalva. Mas a verdade é que nos estamos a habituar a conviver com livros. E se nos habituarmos a conviver com livros, em detrimento de um pouco menos de ecrãs, isto é positivo. Mas atenção, porque não nos podemos esquecer que Portugal continua a apresentar os índices de leitura e de literacia mais baixos da Europa.

Nesse sentido, a APEL defende também a continuidade de políticas públicas que promovam o acesso aos livros, apoiem as redes de livrarias, reforcem também as bibliotecas. Enquanto presidente da APEL, que medidas e políticas de incentivo acha que podiam melhorar esta relação dos portugueses com os livros e com a literatura?

Há muita coisa que pode ser feita, Ricardo. Há uma que já está a ser feita, entre outras, mas que eu não posso deixar de destacar. Desde o dia 2 de janeiro, que entrou em vigor a segunda edição do programa Cheque Livro, direcionado para jovens nascidos no ano 2007 e 2008. Ou seja, é um esforço significativo do Estado português, disponibilizando €30 para que os jovens comprem livros. Com €30, pode-se comprar dois livros. É um ponto de partida. É um sinal muito positivo que na entrada da vida adulta, nós transportemos os livros conosco e para a nossa vida. Este é um primeiro sinal que eu gostaria de sublinhar e gostaria de desafiar as famílias, os amigos, a comunicação social, naturalmente, os editores e os livreiros, a insistir nesta tecla de que há o cheque-livro que está disponível, são €30. Jovens nascidos em 2007 e 2008, vamos à plataforma cheque-livro, vamos recolher os cheques para depois ir comprar livros. Esta é a mensagem que nós queremos sublinhar. É um exemplo, entre muitos outros, que nós estamos a trabalhar com os organismos públicos, no sentido de que o hábito de leitura em Portugal se enraíze e a leitura em si passe a ser um desígnio nacional. Estamos num contexto de eleições presidenciais e eu também gostaria de desafiar os candidatos à Presidência da República em falar de livros e transportar, quem quer que ganhe, para a sua ação enquanto presidente da República, esta mensagem de que temos que ler mais em Portugal.

Pegando no que disse dos €30, ser possível comprar dois livros é positivo, ou seja, é um preço médio relativamente acessível. Algo que vem refletido também nestes dados que foram partilhados é que o preço médio do livro teve um aumento apenas de 0,6%, claramente abaixo da taxa de inflação estimada para este período, que rondou os 2,3. Isto permite concluir que as editoras, de certa forma, absorvem uma parte significativa dos custos de produção e de logística, com o objetivo de que o preço não se torne uma barreira ao acesso à leitura e ao conhecimento. Perguntava-lhe é se esta contenção de preços é sustentável a médio prazo sem comprometer a viabilidade económica das empresas e a diversidade da oferta cultural.

É difícil, coloca pressão sobre as contas de exploração. Quando falamos do livro, naturalmente falamos de cultura, naturalmente falamos de educação, mas naturalmente falamos também da economia e da economia associada ao livro. A sua pergunta é muito relevante. Na verdade, a sustentabilidade do setor do livro é muito importante, mas ela também depende muito da escala que conseguimos ter. E eu insisto: lemos pouco em Portugal. Se todos nós lermos mais, toda a cadeia do valor do livro terá mais sustentabilidade no futuro. O que significa que teremos mais acesso ao livro, temos a possibilidade de dar condições aos autores para criarem mais e com mais acesso ao livro, vêm coisas como o conhecimento, como capacidade crítica, como capacidade de argumentação. Portanto, sim, é muito importante que olhemos para a componente econômica por trás do livro. Há dois efeitos que justificam esta subida muito reduzida do preço do livro. É verdade que o mix de produto tem aqui influência, ou seja, um ano em que se vende determinado tipo de livros com preços mais baixos, naturalmente, isso influencia, mas é indiscutível o esforço dos editores no sentido de conter o preço para facilitar o acesso. E também é notável o esforço dos editores para publicar.

Certo.

Gostaria de sublinhar que em 2025 entraram no mercado português, no mercado auditado pela GfK, 15 mil novos títulos que contribuíram também para este aumento, para este crescimento do mercado. É o investimento que está do lado do editor e que, a médio prazo, esperamos ter o devido retorno, sendo que também há um retorno para o país que é inegável.

Certíssimo. Acho que ficamos com o essencial. Miguel Pozer, presidente da APEL, muito obrigado pelo seu testemunho e por se ter juntado à Rádio Observador.

Obrigado, Ricardo. Um bom dia e obrigado pela oportunidade, mais uma vez falarmos nisso.

Honra é essa. Desejo-lhe umas ótimas leituras para 2026. Grande abraço.

Obrigado. Um abraço também pra si. Obrigado, Ricardo.