Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Verde, amarelo ou vermelho, está ligado o semáforo político. Pode acompanhar-nos não só na rádio, mas também em vídeo, no site do Observador, Facebook e YouTube.

E hoje vamos contar com a presença do editor adjunto da editoria de política do Observador, que vai ser hoje uma espécie de copiloto da Judite de França, Miguel Santos Carrapatoso. Vamos começar precisamente por ti. Que cor atribuis ao presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que afirmou ontem que António Costa tem a porta mais aberta para sentar na cadeira da presidência do Conselho Europeu? Isto a pretexto do acórdão do Tribunal da Relação sobre a Operação Influencer e apesar do processo e a investigação que incide sobre o ex-primeiro-ministro António Costa ainda não estar concluída.

Um vermelho. Tudo o que se possa dizer sobre o Ministério Público e sobre a forma como esta investigação foi conduzida ou está a ser conduzida, é legítimo e faz parte do debate que deve existir. Eu já defendi aqui isso mesmo com a Judite na altura e disse e defendo que o Ministério Público não está acima do escrutínio. Já deveria, aliás, ter prestado esclarecimentos sobre este processo há muito tempo, desde o início. O papel do Ministério Público não deve ser excluído do debate. Ainda assim, Marcelo Rebelo de Sousa é presidente da República e o presidente da República deve ter um cuidado especial para não violar um princípio sagrado, que é a separação de poderes. Numa assentada, Marcelo Rebelo de Sousa comentou um processo judicial que está em curso, ajudando a fragilizar esse processo. Não é que precise de muita ajuda, mas ajudando a fragilizar esse mesmo processo, e lançou ou relançou a candidatura de António Costa ao Conselho Europeu. Eu não consigo imaginar, não tenho mesmo criatividade para imaginar uma declaração tão errada a tantos níveis. Marcelo Rebelo de Sousa, mais uma vez, voltou a dar um péssimo exemplo. Não é a primeira vez que o faz e agora que está em fim de ciclo, tem-o feito repetidamente. E é uma pena que assim seja, porque se nem Marcelo Rebelo de Sousa, ou melhor, se nem o presidente da República consegue defender um princípio basilar, que é o princípio de separação de poderes, nós não podemos exigir aos outros, nomeadamente aos outros agentes políticos, que o façam. Marcelo Rebelo de Sousa tinha aqui uma oportunidade para dar o exemplo, voltou a não o fazer, voltou a dar um péssimo exemplo e a colar-se de forma. Depois, no plano político também é um pouquinho bizarro que Marcelo Rebelo de Sousa se continue a colar a António Costa. Isto só do ponto de vista político.

Um recuo daquilo que é o posicionamento do governo relativamente a essa escolha do próximo presidente do Conselho Europeu.

Não é um recuo, porque tanto quanto sabemos, e já escrevemos isso mesmo aqui no Observador, até foi um texto assinado pelo Rui Pedro Antunes, o governo português está disposto a apoiar essa candidatura. Portanto, nem sequer é uma questão de ser contra a opinião de Luís Montenegro ou não.

Não, é estratégia de silêncio, não é? Ontem Luís Montenegro é confrontado com essa possibilidade e se virá sobre isso o governo.

Como é evidente, mata a tudo responsável. Obviamente, há uma investigação em curso. Não será Luís Montenegro a substituir-se a essa investigação e a misturar política com a justiça. Não faz sentido.

Nós ontem falávamos aqui com o Bruno, o Bruno dizia que Marcelo Rebelo de Sousa estava outra vez a assumir o papel de comentador, a fazer um comentário, mas eu não sei se isto não é peso na consciência.

Era aí que eu queria chegar. Esta excessiva colagem a António Costa, que teve uma interrupção a partir da maioria absoluta e que resultou numa dissolução da Assembleia da República, que há muitos consideram ter sido errada. Eu acho que não foi. Acho que a dissolução da Assembleia da República a propósito de um chumbo orçamental foi muito mais errada e foi essa que esteve na origem da maioria absoluta do António Costa. Esta, não creio que houvesse condições para que a legislatura pudesse continuar, mas o facto de Marcelo Rebelo de Sousa ter decidido assim, ter sido tão criticado pelo Partido Socialista na altura e ter rompido a relação que tinha com António Costa, só isso me parece justificar esta declaração completamente absurda sobre a aventura europeia de António Costa. Por muito que Marcelo Rebelo de Sousa o deseje, e até acho bom para o país, o que é perfeitamente legítimo, não pode misturar justiça com política. Não pode dizer que depois de uma decisão de um tribunal, António Costa está automaticamente habilitado a ser presidente do Conselho Europeu. Não é esse o papel dele. Pode ser o papel de alguém do Partido Socialista, e já aí seria um pouquinho questionável que o fizesse, porque o Partido Socialista e as pessoas do Partido Socialista também têm responsabilidades, mas não pode ser do presidente da República. Acho que Marcelo Rebelo de Sousa teve mais um dos seus péssimos momentos.

Marcelo Rebelo de Sousa que vai estar esta tarde às 18h30 na apresentação do livro de Carlos Moedas em Lisboa e é provável que seja também confrontado novamente pelos jornalistas. Vamos acompanhar, naturalmente, aqui na tarde política ou na noite informativa da Rádio Observador. E ainda a propósito da Operação Influencer, Judite, para André Ventura parece que está a ser apontada uma espada para que António Costa seja absolvido.

No meio de uma série de reações, eu ia falar também da reação do presidente da República, mas o Miguel já disse tudo. Mas no meio de uma série de reações, a maioria de ex-ministros do PS que pedem mais explicações da Procuradora-Geral da República, em que se entende a necessidade de defender António Costa. Eu até percebo, consideram ter sido uma injustiça, o governo acabou, deixaram de ser ministros, etc. Nomeadamente Mariana Vieira da Silva, que pede para que António Costa seja ouvido rapidamente. Aqui um parêntesis, Rui Rocha foi o mais cauteloso, e bem Porque sempre que falamos de justiça, aqueles que ocupam cargos políticos têm necessariamente que ter alguma contenção. Já para não falar na contenção do Presidente da República, que é a máxima contenção. Nós, de facto, estamos numa situação difícil, em que há claramente uma sensação, já que o Presidente da República também falou em sensações, de estar tudo contra o Ministério Público. Portanto, em situações delicadas destas, caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém e acho que eram bem aplicados neste momento. Dito isto, quem é que fez as declarações mais incendiárias? Não foi ninguém do Partido Socialista, mas foi André Ventura. E André Ventura diz várias coisas que só não fazem sentido como vêm baralhar mais as pessoas e criar anátemas sobre a justiça. Diz que a decisão do Tribunal da Relação é só uma decisão sobre medidas de coação. Não é verdade. Claramente, André Ventura não leu o acórdão, senão teria lido que os indícios que o Ministério Público encontrou não foram considerados crimes pelo Tribunal da Relação. E muito pior, vem dizer que há uma pressão enorme da sociedade civil e dos setores ligados ao PS no sentido de pressionar a justiça para ilibar António Costa. E diz que essa pressão existe para que o antigo primeiro-ministro possa ir para o Conselho Europeu. É verdade que se o caso fosse arquivado, seria retirado o último obstáculo para que António Costa fosse eventualmente escolhido para a presidência europeia. Mas dizer que há uma espada sobre o tribunal é acicatar os ânimos dos portugueses contra a justiça. É um comentário insidioso, que de facto não pode estar na boca de um agente político com responsabilidades e 50 deputados no Parlamento. E o papel de um líder de um partido que tem 50 deputados devia ser exatamente o contrário. E portanto, acho que André Ventura faz um mau serviço ao país e à justiça ao querer incitar à desconfiança em relação à justiça, quando ela já sabe que está pelas ruas da amargura. Essa confiança dos cidadãos em relação à justiça está pelas ruas da amargura não é de agora. Com a sensação de que as pessoas não têm acesso à justiça, com a sensação de que há uma justiça para ricos e outra para pobres, etc. Mas vir dizer o que André Ventura veio dizer é só piorar este cenário. E portanto, acho que André Ventura devia ter contenção e seriedade neste discurso sobre a justiça numa altura destas que é tão difícil.

Um vermelho também?

Para André Ventura, sim.

Hoje, portanto, ficamos parados no semáforo político. A ver vamos amanhã.