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Domingo de Páscoa com constrangimentos na saúde, nomeadamente na área das urgências. Tem sido habitual, sobretudo durante o fim de semana. Hoje, a situação está mais grave. São 10 as urgências fechadas este domingo, sete de ginecologia e obstetrícia, três de pediatria. É o número mais alto deste fim de semana. Para olhar para este tema, mas não só, junta-se a nós, no Sob Escuta, Álvaro Almeida, diretor-executivo do Serviço Nacional de Saúde. Comigo está Alexandra Machado, editora de economia do Observador, e também o Tiago Caeiro, jornalista de sociedade do Observador, que acompanha a área da saúde. Vão juntar-se a mim nesta entrevista. Álvaro Almeida, antes de mais, seja muito bem-vindo ao Sob Escuta da Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Uma boa Páscoa para si. A minha primeira pergunta tem, necessariamente, de estar ligada ao número de urgências encerradas este fim de semana. Oito no sábado, 10 este domingo. É um número aceitável?
Bom dia e boa Páscoa para todos que nos estão a ouvir. Naturalmente que não é um número desejável. O desejável seria que não houvesse nenhum encerramento. Agora, é um número que é um possível, tendo em conta os constrangimentos, que não são de agora, são constrangimentos habituais. São constrangimentos que, infelizmente, se têm repetido ao longo dos últimos anos. Mas os constrangimentos de hoje não são diferentes do que foram, por exemplo, no domingo de Páscoa do ano passado. Se nós virmos a região mais pressionada, que é a região de Lisboa e Vale do Tejo, nós, neste momento, temos cinco unidades de obstetrícia encerradas, enquanto no domingo de Páscoa de 2024 tivemos também cinco. Três delas são as mesmas, exatamente: Almada, Setúbal e Santarém. Duas são diferentes. Hoje está encerrada Abrantes, mas o ano passado estava encerrada Caldas da Rainha, que hoje está a funcionar. E hoje está também disponível Amadora, que o ano passado esteve encerrada. Em contrapartida, está encerrada Vila Franca. Ou seja, temos uma situação neste domingo de Páscoa, neste momento, que é semelhante àquela que existiu no domingo de Páscoa do ano passado.
No ano passado-
Ou seja, não sendo o ideal, também não é novidade, é um problema recorrente.
No ano passado, no conjunto, no entanto, estiveram encerradas seis urgências no sábado de Páscoa e 10 no domingo de Páscoa, menos duas ao todo em relação a este ano. O que significa o quê? Voltou a falhar a planificação? É o número com que nos temos que habituar?
Nós não podemos ver estas questões com meros números, porque o que importa saber é se a capacidade de resposta está disponível. E aquelas que estão, para além daquelas que eu referi, as outras unidades, estão em regiões onde existem alternativas e, portanto, não há um problema de fundo de capacidade de resposta. Mas se quiserem contar urgências fechadas, eu posso lhes dizer que no primeiro trimestre de 2025, houve cerca de metade do número de dias de encerramento do que o primeiro trimestre de 2024. Portanto, não é que isso seja relevante, o que é relevante é saber se a capacidade de resposta está disponível ou não. Mas se quiserem contar, podemos contar. E a questão é exatamente essa.
O seu antecessor-
Houve menos encerramentos em 2025 que em 2024.
O seu antecessor, Fernando Araújo, disse na Rádio Observador que não terá havido um plano de contingência este ano, nesta altura. Queria lhe perguntar se houve ou não um plano de contingência, o que é que ele dizia, e que esforços é que foram feitos pela direção executiva do SNS, junto das administrações hospitalares, para minimizar o problema.
Eu não sei se o professor Fernando Araújo estava a falar como ex-diretor executivo, se estava a falar como candidato do Partido Socialista no Círculo do Porto. Mas em qualquer dos casos, o que eu lhe posso dizer é que obviamente que a direção executiva esteve a planear este fim de semana, e não só esteve a planear esse fim de semana, está continuamente a trabalhar para garantir a resposta durante todo o fim de semana. Eu próprio, com mais elementos da equipa, estivemos presentes em algumas unidades ontem. Ainda hoje estamos em contacto contínuo com as unidades. Estamos a assegurar que a capacidade de resposta não é esgotada, sobretudo na região de Lisboa e Vale do Tejo, que como sabemos, é aquela que é mais pressionada. Mas, mais do que isso, temos protocolos de emergência definidos. Se houver um excesso de afluência nas maternidades da região de Lisboa, há a possibilidade, de acordo com esses protocolos, de transferir grávidas de baixo risco para hospitais privados, libertando as maternidades mais diferenciadas para os casos mais complexos. E, portanto, planeamos devidamente o fim de semana, estamos a acompanhar o problema e estamos a gerir continuamente todas as dificuldades que vão surgindo. Felizmente, até este momento, não surgiu nenhuma dificuldade. O SNS respondeu, a rede do SNS está a funcionar e tenho toda a confiança que continuará a funcionar no restante do dia de hoje, até porque, como lhe disse, em termos comparativos, a situação hoje não é muito diferente daquela que se viveu no domingo de Páscoa de 2024.
Álvaro Almeida, o que foi feito concretamente no que diz respeito ao recrutamento de recursos humanos, nomeadamente em relação aos tarefeiros? A direção executiva ajudou os hospitais no recrutamento de tarefeiros para este fim de semana?
Como eu já referi ontem, e posso repetir, o problema fundamental destes fins de semana festivos, como o fim de semana da Páscoa, é que muitas unidades do Serviço Nacional de Saúde têm falta de recursos humanos nos seus quadros E como têm falta de recursos humanos nos seus quadros, habitualmente completam as escalas com recurso a prestadores de serviços. Ora, os prestadores de serviços têm menos disponibilidade pra prestar serviço nestes fins de semana. E, portanto, é nestas alturas que o problema se faz sentir com maior destaque e é por isso que nós estamos, neste fim de semana, com os encerramentos que referi, que obviamente são constrangimentos que não são desejáveis, mas que não são, e isso é que é preciso dizer, contra alguns alarmismos que ouvi por aqui, exatamente na Rádio Observador ontem, que não há nenhuma situação de risco. A situação está controlada. Não é nada pelo qual o SNS já não tenha passado. Repito, é uma situação semelhante à da Páscoa de 2024. E como na Páscoa de 2024 se conseguiu gerir, também se irá gerir hoje, porque, como digo, a resposta existe. À portas fechadas, mas o SNS continua a funcionar vinte e quatro horas por dia, 365 dias por semana.
Há vários meses que a Comissão Nacional de Saúde da Mulher pede que sejam criados incentivos para as equipes obstétricas, de forma a fixar e atrair os médicos para o SNS e de forma a também minorar este problema a que temos assistido. Mas a verdade é que os incentivos estão parados no Ministério da Saúde há meses e não avançam. Como é que tu olha pra isto? Há falta de vontade política pra resolver este problema?
Os incentivos não estão parados há meses no Ministério da Saúde. A direção executiva, o Ministério da Saúde e a comissão, estamos a trabalhar nesses incentivos, com uma dificuldade adicional, de que neste momento temos um governo de gestão e, portanto, não é tão simples produzir legislação como seria se o governo não estivesse em gestão. E portanto, o trabalho está a ser feito. Não está parado, estamos a trabalhar com a comissão, estamos a trabalhar com o Ministério da Saúde, a direção executiva está a participar nesse processo, precisamente porque esse é um elemento que consideramos fundamental para atrair mais obstetras para os quadros do Serviço Nacional de Saúde. Como lhe disse, esse é o principal problema. Não é que os médicos não existam, o que não estão é nos quadros do SNS e, portanto, deixam o SNS vulnerável nestes momentos mais críticos. Agora, estamos a trabalhar, não está parado. Estamos a trabalhar na elaboração desses incentivos, mas com a restrição que decorre de termos um governo de gestão.
Mas ainda há poucos dias foi noticiado que só metade dos médicos de ginecologia e obstetrícia que trabalhavam no SNS, havia 1960 especialistas e a maior parte trabalhava nos privados. Para além desses incentivos, é possível chamá-los pra o SNS, estes médicos? Qual é a perspectiva de reduzir este gap?
Nós acreditamos que sim. É nesse sentido que estamos a trabalhar. Estamos a trabalhar no sentido de tornar mais atrativas as carreiras no Serviço Nacional de Saúde. E menos atrativas as carreiras de prestadores de serviços. E o conjunto de incentivos que está a ser preparado é um instrumento nesse sentido, não é o único instrumento. Estamos a criar melhores condições de trabalho para as equipes. Estamos a repensar toda a organização dos serviços de obstetrícia. Não é só uma questão de incentivos, é mesmo uma reestruturação dos serviços de obstetrícia para que os médicos se sintam mais interessados em colaborar com o Serviço Nacional de Saúde, não através de prestações de serviços, mas enquanto elementos integrados nos quadros de pessoal. É esse o nosso foco neste momento, no domínio da obstetrícia.
Consegue concretizar mais que planos são esses, que incentivos são esses para tentar atrair mais médicos?
Não vou estar aqui a revelar, porque, como eu disse, estamos a trabalhar e é um documento de trabalho que não está em condições de ser revelado.
Mas falou há pouco-
Aliás, não competiria à direção executiva revelar esse documento, porque o documento só se materializa por vontade do governo e, portanto, terá que ser o governo a anunciar, se entender e quando entender.
Mas há pouco fez referência ao fato do governo estar em gestão. Já houve alguma medida que tivesse proposto e que tivesse ficado bloqueada no governo, no gabinete da Ministra da Saúde, por precisamente o governo estar em gestão?
Bloqueada no sentido, por exemplo, posso te dar um exemplo: há elementos de conselhos de administração de alguns hospitais que não estão a ser nomeados porque o governo entende não nomear. E, portanto, há algumas medidas, sim, nesse sentido. Há alterações nos conselhos de administração que eu teria proposto se o governo não fosse um governo de gestão.
Na região da margem sul do Tejo, voltamos aqui um bocadinho às urgências, na região da margem sul do Tejo só há, hoje, uma unidade de urgência de obstetrícia e ginecologia aberta e referenciada, portanto, só se entrarem com ambulância. As outras estão fechadas. Por quê? É uma zona cinzenta?
Repare, como eu disse há pouco, as duas que estão fechadas são as mesmas que já estiveram fechadas no domingo de Páscoa de 2024, Raquel, uma vistu. Ou seja É uma região com problemas.
Mas não se esperaria que estivesse melhor? O facto de no ano passado terem estado fechadas deve descansar as pessoas que recorrem ao SNS.
Não, o que deve dizer é que é uma região com problemas, mas que de facto está melhor, porque o número de encerramentos este ano foi muito inferior ao número de encerramentos do ano passado no primeiro trimestre. E, portanto, sim, de facto está melhor. Hoje, concretamente no domingo de Páscoa, não está melhor, está na mesma. Mas comparando o primeiro trimestre todo, houve menos encerramentos na Península de Setúbal este ano do que no ano anterior e, portanto, sim, está melhor.
Alô, Almeida. E por que ainda não se avançou para a concentração de urgências na Península de Setúbal, como defendem os especialistas?
Porque isso são alterações estruturais que não podem ser feitas de um momento para o outro, porque os profissionais que neste momento estão disponíveis na região da Península de Setúbal estão adstritos, cada um deles, a uma unidade local de saúde. Nós não podemos, pura e simplesmente, pegar nesses profissionais e mudá-los para onde nós queremos. O processo não pode ser-
Mas é o que está a funcionar na zona Norte já há algum tempo.
Não, mas não é um processo que possa ser feito apenas porque a direção executiva decide e toca a mudar as pessoas. Não, tem que ser um processo que é conversado, analisado e discutido com as pessoas em causa.
Mas quando é que espera que essa concentração possa avançar?
Eu não espero que a concentração possa avançar, nem deve esperar. Estamos a discutir com as pessoas as alternativas. Nós não podemos é forçar ninguém a trabalhar onde não quer. Porque se nós queremos atrair profissionais para o Serviço Nacional de Saúde, não é obrigando-os a trabalhar onde eles não querem trabalhar. E, portanto, aquilo que nós estamos a fazer é analisar e estudar continuamente qual é a melhor forma de organizar os serviços de obstetrícia, nomeadamente na Península de Setúbal, que é uma região crítica deste ponto de vista. Mas não pode ser um processo pura e simplesmente de imposição de uma decisão de concentração.
Mas tem sentido uma resistência dos médicos em se deslocarem?
Se tem acompanhado estas questões há algum tempo, saberá que essa questão já se colocava no tempo dos anteriores diretores executivos, nomeadamente o professor Fernando Araújo, e não avançou. Por quê? Por alguma razão foi. E, portanto, se não avançou na altura-
O senhor é agora o diretor executivo. Por isso é que estou a perguntar.
Eu estou lhe a explicar que se não avançou na altura é porque havia dificuldades e eu estou exatamente a transmitir-lhe essas dificuldades. Portanto, não é um processo simples-
Mas há uma resistência por parte dos médicos em deslocarem-se para outro hospital. É isso?
As pessoas têm as suas vidas num determinado local e naturalmente que têm resistência, sim. Não é necessariamente bloqueio, não estou a dizer isso, nem podem interpretar o que eu estou a dizer como tal. Mas obviamente resistência, sim, porque se as pessoas estão num determinado local, naturalmente preferem estar onde estão. Por isso é que lá estão. E também da mesma forma, isso tem impacto no resto do hospital, do resto das unidades. E, portanto, repito que essas soluções, que eu não estou a excluir, só estou a tentar explicar que não são soluções que por um passe de mágica se consigam implementar.
Mas esta solução... sim.
É um assunto que já foi analisado e discutido há muito tempo e ainda não foi executado, por alguma razão foi. Porque há dificuldades que estamos a tentar ultrapassar.
E esta solução da criação de urgências metropolitanas, nomeadamente nesta área da obstetrícia, é uma solução que vê com bons olhos para a região da Grande Lisboa, não só para a Península de Setúbal?
A reorganização das urgências da obstetrícia está a ser analisada. A reorganização pode passar por aí. Como princípio geral, parece-me uma solução que, no mínimo, deve ser estudada. Agora, eu chamo a atenção para algumas outras dificuldades, para além daquela que eu referi, algumas outras dificuldades que uma solução dessas enfrenta. Por exemplo, dificuldades de espaço. Porque se nós vamos ter concentração, significa que aquela unidade que vai funcionar vai ter que dar resposta a um número maior de casos. É preciso que tenha espaço físico, para além de recursos humanos, para dar essa resposta. E nem sempre isso acontece. E portanto, pode prenunciar que uma reorganização, e estou a falar apenas meramente hipoteticamente. Se houvesse, como já foi posta a hipótese pela Comissão da Saúde da Mãe, da Criança e do Adolescente, a criação de um centro materno-infantil na Península de Setúbal, era preciso arranjar um espaço físico para isso. O que significa, implica construção, e a construção não é algo que se faça de um dia para o outro.
Pois, os problemas não são fáceis de resolver, não é?
Pois, essa é que é a questão.
Mas parecia fácil ou não?
Parecia fácil como?
Quando chegou à direção executiva e quando este governo tomou-
Eu nunca disse que parecia fácil.
Não, não disse que parecia fácil. Estou a dizer quando este governo tomou posse e se prometeu-
Quando é que o governo disse que parecia fácil?
Resolveu fazer um plano de emergência.
Sim, e está a ser executado. E o plano de emergência que está a ser executado garantiu que neste inverno as urgências estivessem muito melhor do que o ano passado. Não só houve menos encerramentos, como eu já referi, como houve tempos de espera menores Os tempos de espera reduziram cerca de 10% nas urgências nacionais, houve muito menos constrangimento, houve muito menos notícias de problemas de ambulâncias à porta de urgências, como ocorreu em anos anteriores, e portanto o plano de emergência do governo está a funcionar. Agora, ninguém disse, e é preciso ou não ter bom senso ou ter má fé, achar que alguém poderia dizer que ia resolver os problemas todos do SNS num instante.
Claro. Mas foram substituídas, e ele já referiu isso, muitas administrações hospitalares, creio que 15, muitas delas demitidas pelo governo. Isto também não introduz instabilidade e não prejudica o trabalho nos hospitais, nomeadamente, na procura de recursos humanos para esses hospitais e para as urgências, em concreto? Não cria instabilidade estas mudanças nas administrações?
Essas alterações, ou a maior parte dessas alterações, foram realizadas antes de eu ser diretor executivo e, portanto, não conheço em detalhe as motivações. Eu só quero chamar a atenção para um pormenor. Quem criou a instabilidade foi quem nomeou 300 lugares da administração com o governo demissionário, sabendo que o governo podia mudar logo a seguir. Isso é que cria instabilidade. Quem nomeou 300 pessoas para lugares de administração no Serviço Nacional de Saúde com um governo demissionário é que é responsável por essa situação de instabilidade.
Álvaro Almeida, mas grande parte foram-
Este governo o que fez foi, se a memória não me falha, eu estou a citar de cor, com exceção de cinco casos, foi substituir conselhos de administração que terminaram o seu mandato. Só em cinco casos, em cinco de 39 ou 42, se incluímos os IPOs, é que houve uma substituição do conselho, e a maior parte deles por demissão dos próprios, foram os próprios conselhos que se demitiram, é que houve alterações de conselhos antes do final do mandato. E, portanto, repito, quem fez nomeações com o governo de gestão é que é responsável por essa instabilidade.
Essas 300 demissões de que fala, muitas seriam feitas, de qualquer forma, por causa da transformação das unidades em ULS, não é?
Não necessariamente. Aliás, o próprio fato de ter reformulado o Serviço Nacional de Saúde com o governo demissionário já é criador de instabilidade, porque está a introduzir uma reforma num período de alta incerteza política e de transição de governos. E, portanto, fazer isso nessas circunstâncias é um fator de instabilidade.
Mas já não estava planeado?
Mas já não estava planeado por quando?
Já não estava planeado isso acontecer?
O decreto-lei saiu no dia da demissão do governo. Era perfeitamente possível não avançar porque havia um governo de gestão. O avanço só se tornou inevitável depois da aprovação do Orçamento de Estado, que já veio depois do governo estar demitido. Não formalmente, mas pelo menos, de fato. Toda gente sabia que o governo ia ser demitido. E, portanto, avançar nessas circunstâncias é que foi altamente criador de instabilidade. Quem avançou nessas circunstâncias, quem tomou essa decisão, é que criou os problemas.
Álvaro Almeida, vamos também avançar neste "Sob Escuta". Há mais fins de semana prolongados no calendário. O que podem os portugueses esperar nas próximas semanas em relação a urgências e ao estado do SNS? E o que é que está a ser feito para tentar acautelar essa mesma situação?
Estamos a trabalhar continuamente, 24 horas. Literalmente 24 horas. Recebi mensagens esta noite sobre casos que estavam a acontecer e que se resolveram sem problemas, mas estamos, nós direção executiva, a trabalhar continuamente para assegurar a resposta do SNS, como fizemos este fim de semana, sabendo que são fins de semana, este e os próximos, muito complicados, mas asseguramos este fim de semana que o SNS foi capaz de responder a todas as necessidades de toda a população e iremos continuar a trabalhar no mesmo sentido para manter este resultado.
E em termos de-
Alvaro!
Avança, Tiago.
Força, força, força, José Rafael.
Como é que está, de certa forma, também a acautelar? Falou, o Álvaro Almeida, na capacidade de resposta, mas o que é que está a ser preparado para tentar evitar que essa capacidade de resposta seja posta à prova?
O que está a ser preparado foi o que foi feito neste fim de semana, que é assegurar que há sempre unidades capazes de responder em todas as regiões, assegurar protocolos que permitem responder ou que podem ser acionados em situações de maior pressão, que este fim de semana não foi preciso, mas se for preciso, eles existam. E, portanto, estamos a coordenar as várias unidades do Serviço Nacional de Saúde para garantir essa resposta em rede. Foi isso que foi feito. Até agora funcionou. Estamos confiantes que continuará a funcionar também nos próximos fins de semana.
Álvaro Almeida, em anos anteriores, nomeadamente no verão, culpou-se a má gestão das escalas de férias dos médicos, dizendo que isso levou ao encerramento de muitas urgências. O que é que foi feito, entretanto, e o que é que está a ser feito neste momento para melhorar essa gestão das escalas de férias?
Foi recentemente publicado pela senhora Secretária de Estado da Saúde um despacho Que define os procedimentos a adotar no plano de verão. O plano de verão da Direção-Geral da Saúde e Direção Executiva já está publicado também. Agora, terão que ser as unidades do SNS, as ULS e os IPOs, mas sobretudo as ULS, a implementar os seus planos de contingência.
Mas estão a cumprir a implementação desses planos?
O plano de verão ainda não está ativo, só começa a 1 de maio. Portanto, não podemos dizer que estão a cumprir ou não, porque ainda não está ativo.
Gostávamos de falar aqui de um caso que houve na semana passada, de uma grávida que esteve três horas à espera numa ambulância. Indicou ontem em declarações, creio que à Lusa, que essa espera se deveu a um pequeno pormenor que não terá corrido tão bem e tinha sido da responsabilidade da própria. O que se passou em concreto? O que é que disse e o que se passou em concreto?
O problema foi resolvido como deveria ser. Houve um pormenor que não correu tão bem, que foi da responsabilidade da própria. O pormenor que não correu tão bem foi o facto de ela ter esperado a ambulância. Ela devia ter esperado, como lhe foi dito, no Hospital do Barreiro, onde estaria sob monitorização e continuamente observada, com capacidade de resposta. O problema é que ela não quis, saiu do hospital contra parecer médico, e por isso é que teve que aguardar na ambulância, porque estava à porta de casa à espera de resolver este problema. Mas o que deveria ter acontecido é que todo o processo deveria ter sido conduzido com a senhora no Hospital do Barreiro, como lhe foi dito para fazer.
E, portanto, foi ela que quis sair do hospital. É isso que me está a dizer?
Sim. Foi ela que quis sair. A informação que eu tenho do Hospital Barreiro é que foi a senhora que quis sair. Foi desaconselhada, mas ela insistiu e assinou alta contra parecer médico.
Álvaro Almeida, gostava agora de falar um pouco consigo sobre o acesso dos doentes ao SNS. No último ano, já referiu isso, houve uma redução do tempo de espera nas urgências. Houve também uma melhoria na área das cirurgias oncológicas, mas, por outro lado, há mais doentes à espera de uma cirurgia não oncológica e de uma consulta também de especialidade, para lá dos tempos clinicamente recomendados. Como é que se ultrapassa esta situação?
Não tenho aqui os dados à frente, porque pensei que a entrevista era sobre a situação das urgências, mas os últimos números que eu vi não revelavam isso que disse. Revelavam uma ligeira redução no número de pessoas à espera para lá dos tempos máximos de resposta garantidos e também uma ligeira redução no número total de pessoas na lista de espera. Esses são os dados, ou eram os dados a 31 de maio. Não sei os dados mais recentes, não os vi, porque como disse, pensei que a entrevista era sobre urgências, mas não me parece que haja um agravamento da situação, como sugere. Há uma ligeira melhoria.
Mas preocupa-o que o acesso ainda esteja dificultado? Ainda assim, cerca de metade das pessoas ainda espera por uma consulta de especialidade, por exemplo, para lá dos tempos máximos recomendados. Isso preocupa-o?
Claro, preocupa-me bastante. É uma das situações que não devia ocorrer. Se existem tempos máximos de resposta garantidos, era suposto que eles fossem cumpridos. Infelizmente, não foi isso que aconteceu nos últimos anos. Aquilo que nós fazemos é trabalhar todos os dias para ir melhorando um pouco a situação. Não vamos resolver os problemas todos de um dia para o outro. Não é possível, não é sério, não seria sério alguém afirmar uma coisa dessas. Aquilo que a nossa equipa, e quando eu falo da nossa equipa, falo das 150 mil pessoas que fazem parte do Serviço Nacional de Saúde, aquilo que a nossa equipa está a fazer é a trabalhar para que a situação vá melhorando gradualmente, os constrangimentos vão reduzindo, mas sabemos que o progresso vai ser lento. Não há soluções milagrosas, até porque a pressão que o Serviço Nacional de Saúde está a enfrentar não é exclusivo do Serviço Nacional de Saúde, tem várias causas e é partilhada com vários sistemas de saúde. Ainda noutro dia, eu tive um encontro com uma delegação do Serviço Nacional de Saúde inglês e basicamente a conversa foi: "Nós temos estes problemas" e nós também. A situação era muito semelhante, o tipo de problemas são os mesmos, o tipo de pressões são os mesmos. E, portanto, há aqui um problema que resulta da evolução epidemiológica, da evolução demográfica, resulta de um problema de recursos humanos. Todos esses problemas são problemas que o Serviço Nacional de Saúde enfrenta, que os sistemas de saúde europeus enfrentam todos. E aquilo que nós tentamos fazer e temos conseguido no último ano, o governo tem conseguido no último ano e nós desde fevereiro, temos colaborado nesse sentido, é gradualmente ir melhorando o acesso, ir melhorando a resposta do Serviço Nacional de Saúde, que, diga-se também, em termos clínicos, é muito boa. Em termos clínicos, temos correspondido. Há dificuldades em termos de conveniência, em termos de conforto, em termos de facilidade de acesso. Há certamente essas dificuldades, mas estamos a trabalhar para ir gradualmente melhorando.
E a rede com os privados tem funcionado?
Como, desculpe?
A rede com os privados tem funcionado?
Os privados fazem parte do Serviço Nacional de Saúde praticamente desde a sua criação. Há protocolos entre o Serviço Nacional de Saúde e privados para várias áreas há 40 anos. Há protocolos nas áreas das análises clínicas, da diálise, da imagiologia. Há protocolos com alguns hospitais de misericórdias, Hospital da Cruz Vermelha. Há uma série de relações entre o Serviço Nacional de Saúde e os privados que vêm de há décadas e que fazem parte integrante do Serviço Nacional de Saúde que hoje nós temos. Sem essas relações, seria muito difícil trabalhar, porque essas estão de tal forma entrelaçadas com a rede pública que fazem parte do Serviço Nacional de Saúde como um todo. E aquele Serviço Nacional de Saúde que nós hoje temos é fruto disso tudo. É fruto dessa relação, é também fruto dessa relação com o setor privado, que é preciso manter, é preciso continuar a assegurar, porque sem essa relação, a capacidade de resposta seria muito menor.
Muito bem. Eu peço desculpa por voltarmos aqui um pouco atrás. Eu gostava de voltar ao caso da grávida da semana passada, porque disse que ela deveria ter esperado no Hospital do Barreiro, mas o que é certo é que ela não esperou, foi pra casa e à tarde é que esteve as três horas à espera numa ambulância. É razoável este tempo de espera na ambulância? O que falhou nesse caso em concreto?
O que falhou é que a senhora devia ter ficado no hospital a aguardar a transferência no hospital onde estava a ser observada, porque obviamente, o Hospital do Barreiro tem todas as condições para lhe prestar assistência, se fosse necessário. O fato de estar na ambulância é porque estava em casa e não no hospital. Esse é que é o problema aqui. E era porque se sabia que naquele caso concreto, o que era preciso era uma transferência pra unidade diferenciada, que ela inicialmente recusou. E, portanto, obviamente não devia ter estado três horas numa ambulância, devia era ter estado, o tempo que fosse necessário, no Hospital do Barreiro, sob observação.
Certo, mas quando ela chegou à ambulância depois.
É a parte que é da responsabilidade da senhora, porque não estava no Hospital do Barreiro.
Mas aí já estava referenciada. Não deveria ter sido mais célere a resposta?
Os processos de transferência não são imediatos. Os processos de transferência demoram tempo porque há constrangimentos, é preciso ver onde é que há vagas, e era o caso aqui. E portanto, aquilo que deveria ter acontecido é que esse processo devia ter decorrido com a senhora sob observação no Hospital do Barreiro. E não numa ambulância, com certeza.
Álvaro Almeida, o Partido Socialista tem acusado a ministra da Saúde e também o primeiro-ministro de estarem ausentes durante estes problemas que estamos a enfrentar nas urgências, sendo que tem que ser o senhor, o diretor-executivo, a dar a cara pra não beliscar, de certa forma, a ministra da Saúde, que agora também está envolvida numa luta política, vai ser cabeça de lista em Vila Real.
O diretor-executivo tem como função coordenar a rede do SNS e, portanto, tem que ser o diretor-executivo a assegurar essa coordenação. As questões políticas não são comigo, não tenho funções políticas neste momento e, portanto, a questão política terá que ser colocada ao governo. Agora, também lhe digo que estranho muito que haja quem fale como ex-diretor executivo, ao mesmo tempo que é cabeça de lista pelo Partido Socialista no Círculo do Porto e recusa-se a falar enquanto tal. Nomeadamente, penso que o próprio Radio Observador terá feito o convite para um debate entre Fernando Araújo e Paulo Rangel, que foi recusado por Fernando Araújo, pelo que eu sei.
E, portanto, é Fernando Araújo que está a politizar também um pouco a questão da saúde.
Não sei em que condições é que ele falou ontem, é difícil perceber, num contexto destes, se falou na condição de perito, se falou na condição de ex-diretor executivo, que eu acho muito difícil, porque ele sabe qual era a situação na Páscoa do ano passado e sabe que não é muito diferente da atual, ou se falou como candidato do Partido Socialista no Círculo do Porto.
Falou enquanto ex-diretor executivo do SNS, foi nessa condição. E vou insistir um pouco aqui na pergunta: a saúde volta a estar politizada?
Explique lá como é que se faz essa distinção.
Diga?
Explique lá como é que se faz essa distinção.
É o seu antecessor.
Sendo que o próprio invocou declarações de uma responsável do Partido Socialista durante a sua intervenção.
Está a falar da reação, na altura, de Mariana Vieira da Silva.
Pelo que eu li, o professor Fernando Araújo invocou essa reação de Mariana Vieira da Silva na sua intervenção de ontem. Então como é que é uma intervenção como diretor executivo e vai citar uma reação do Partido Socialista?
Da mesma forma, acredito eu que, por exemplo, você fala da ligação com o governo e do trabalho que está a ser feito, mas sendo que não é esse o tema aqui em questão. Vou insistir um pouco aqui na pergunta de Alexandra Machado. A saúde volta a estar politizada então, com Fernando Araújo como cabeça de lista pelo Porto?
Essa é uma resposta que serão os analistas políticos que terão que fazer. A minha função neste momento é explicar como o Serviço Nacional de Saúde responde às dificuldades que tem, sendo que este fim de semana é um fim de semana complicado, mas durante o qual o SNS respondeu. As declarações de quem é candidato a deputado, isso terá que ser o próprio a analisar, ou melhor, o próprio a pensar se deve fazê-las neste momento e que é candidato ou não, ou se não as deveria fazer num debate com Paulo Rangel, num debate entre candidatos.
Ainda assim, sendo militante do PSD, nomeado pelo governo da AD e a um mês das eleições, não está também, de certa forma, a contribuir para partidarizar a questão das urgências?
Então explique-me uma coisa. O senhor professor Fernando Araújo, que é candidato, ontem falou como ex-diretor executivo. E eu hoje estou a falar como defensor do governo, é isso que está a insinuar?
Não estou a insinuar nada, estou apenas a colocar a questão se não está a politizar-se demasiado o tema da saúde, tendo em conta os problemas que existem.
Eu estou a responder. A razão porque eu quis dar esta entrevista ao Observador é porque vi criar alarmismos infundados que podem causar perturbação na população e quis dar uma palavra de confiança de que está tudo a funcionar como é suposto. A minha preocupação é apenas assegurar à população e aos cidadãos portugueses que o SNS está a responder como é suposto, contrariamente a outros que criam alarmismos sem razão. Se são por fins políticos ou não, isso aí competirá aos analistas avaliarem.
Ou seja, Álvaro Almeida, existe uma gestão sem qualquer tipo de ideologias. É possível esse cenário?
Não. Não foi isso que eu afirmei.
Não, estou a perguntar-lhe se é possível gerir então a questão da saúde sem qualquer tipo de ideologias. É esse o desejo e o objetivo?
Não, nunca assumi, nunca disse isso, nunca pensei isso. Naturalmente que a gestão do Serviço Nacional de Saúde reflete uma política de saúde. E eu estou a executar a política de saúde deste governo. Não é a política de saúde de outro governo qualquer. Portanto, tudo aquilo que o diretor executivo faz é no quadro da política de saúde definida pelo governo atual.
Se o PSD perder as eleições dia 18 de maio, sai da direção executiva?
Eu não faço cenários, mas eu fui nomeado por este governo, chefiado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro. Continuarei na direção executiva enquanto se verificarem duas condições: uma é o primeiro-ministro ser Luís Montenegro e a segunda é o senhor primeiro-ministro querer que eu continue como diretor executivo.
Muito obrigado.
Álvaro Almeida, deixe-me só perguntar que objetivos tem neste seu mandato à frente da direção executiva? Que objetivos é que quer atingir?
Disse que queria assegurar que o Serviço Nacional de Saúde melhore continuamente, gradualmente, mas continuamente, para que quando o meu mandato terminar, o SNS responda melhor às necessidades dos cidadãos do que está a responder hoje. Esse é o meu objetivo.
Muito obrigado, Álvaro Almeida. Deixo renovado o meu desejo de uma boa Páscoa. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Fica por aqui este "Sob Escuta". Estivemos à conversa com o diretor executivo do SNS, Álvaro Almeida.