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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto.

Boa tarde. O nosso convidado de hoje é um sportinguista ferrenho e apesar de alguns problemas que o clube enfrenta neste momento, não é por isso que o convidamos, e pode ficar descansado, até porque há mais vida para além do futebol. Presidente da Assembleia da República, recém-eleito, Eduardo Ferro Rodrigues, que também já foi, por exemplo, ministro e líder do PS, é o convidado desta edição do "Sob Escuta". Muito bem-vindo.

Muito obrigado pelo convite.

Esta é a legislatura com mais partidos no Hemiciclo, com o Chega, o Iniciativa Liberal e o Livre a conseguirem eleger. A minha primeira pergunta é se está otimista com a entrada destes novos partidos no Parlamento e destes partidos em particular.

Não é um problema de estar otimista ou pessimista, é um problema de aceitar aquilo que foi o desígnio do eleitorado. Havia mais partidos que não chegaram à possibilidade de ter qualquer deputado. O eleitorado escolheu que aqueles três partidos tivessem um só representante e, portanto, a Assembleia da República tem que se adaptar a essas circunstâncias.

Mas tem algum receio em particular quando olha para esta composição, para esta geometria?

Sabe, eu estou muito habituado a estar no debate político há muitos anos, há mais de 50 anos. E portanto, convivo bem com a diversidade e mesmo com algum radicalismo. Só não convivo bem com má criação e com a utilização da mentira como instrumento político. Mas esperemos que isso não venha a acontecer.

Mas isso é um receio que tem para esta legislatura, pelo que já foi conhecendo de alguns protagonistas políticos?

É um receio que tenho sempre, porque isso não é exclusivo deste ou daqueles.

Deixe-me perguntar-lhe especificamente sobre um partido em particular, o Chega. Já antevia a entrada de um partido deste gênero no Parlamento?

Não. Penso que durante muito tempo éramos uma exceção na regra europeia, que os partidos com aquele tipo de conotação tinham representação em praticamente todos os parlamentos da União Europeia, exceto em Portugal. Portanto, aconteceu agora e vamos ver como é que as coisas se vão passar.

E como é que classifica o Chega do ponto de vista ideológico?

É um partido que está no extremo da direita, isso parece-me óbvio. Se é um partido que respeita as regras democráticas ou não, isso é uma coisa que vamos ver pela prática e pelo tipo de intervenção que será feita dentro e fora do Parlamento.

Mas esta representação parlamentar de um partido de extrema-direita preocupa-o? Porque na Europa há esse crescimento. Em Espanha, estamos a ver o Vox nas sondagens a ganhar muito terreno. Espanha é aqui ao lado. Esse contágio a Portugal pode acontecer e, para si, como é que o classifica?

A situação espanhola é muito diferente da portuguesa. Aquilo que faz o crescimento da extrema-direita em Espanha é fundamentalmente a questão dos nacionalismos espanhóis e do facto de a Espanha ter em si várias nações com aspirações a mais do que a autonomia, e haver uma contracorrente muito centralista em relação a isso, em que algum saudosismo em relação ao passado se mistura. Portugal não tem esses problemas, felizmente.

Não teme que isso possa acontecer assim?

Não tem problema de nacionalidades, somos todos portugueses. E, portanto, não penso que seja por uma questão de contágio. Agora, o que eu penso é que todos os democratas devem perceber que estes fenómenos também acontecem porque houve muita gente que ficou para trás no processo de globalização e mesmo no processo de integração europeia, e que é muito fácil hoje em dia, esgrimindo um pouco com tudo e com o seu contrário, culpabilizar as instituições, culpabilizar a globalização, culpabilizar, sobretudo, a União Europeia. E não é por acaso que normalmente estes partidos são antieuropeístas. Aqui, não se percebe muito bem ainda qual é a matriz ideológica do partido de que falou e, portanto, vamos ver com a evolução dos acontecimentos e dos discursos, como é que as coisas se vão passar.

Mas acha que há alguma responsabilidade dos chamados partidos tradicionais em fenómenos como estes não terem sido capazes de dar algumas respostas que os eleitores precisavam?

Sim, os partidos podiam ter dado mais respostas, podiam ter cometido menos erros, mas há situações que são situações objetivas e que não dependem apenas da ação política. Eu recordo que a construção do euro foi uma construção incompleta e que levou a que nós, em Portugal, tivéssemos sofrido bastante com a primeira grande crise do euro, que foi aquela que se verificou a partir de 2007, porque o euro foi construído de tal maneira que é um grande benefício para as grandes economias, sobretudo a economia alemã, e é uma situação muito mais difícil, sobretudo em momentos de crise, para as economias com maiores vulnerabilidades e com mais fragilidades, como é a portuguesa. Uma situação durante anos de grande sacrifício ao nível social e de muita fraqueza econômica e financeira. E é evidente que o populismo também vive e se alimenta dessas situações. Portanto, há uma parte que é objetiva, que não tem a ver com quaisquer que fossem as reações de outros partidos, isso acabaria por acontecer.

Há outra deputada recém-estreada, que também já fez algumas declarações no Parlamento nestes primeiros dias desta nova legislatura. Estou a falar de Joacine Katar Moreira, que assumiu a sua eleição como um sinal de amadurecimento democrático, dizendo que se inaugurou uma nova era no ambiente institucional português, em que a Assembleia da República, eu estou aqui a citar, obviamente, deixou de ser apenas frequentada por elites e que tinha chegado para fazer o combate à masculinidade no Parlamento. Acha que estes problemas estão bem identificados? São problemas que o Parlamento sofre?

Não me parece que houvesse um excesso de masculinidade no Parlamento, mas cada deputado está livre de se considerar como o que faz a diferença. Penso que todos esses deputados acham que fazem a diferença. A senhora, por causa da masculinidade e por causa das suas-

Das elites.

Sobre as elites, há muitos anos que o Parlamento é um Parlamento, sobretudo, de classe média, não é propriamente um Parlamento de elites.

Portanto, não se revê nesta caracterização.

Admito que cada um que entra pro Parlamento com o entusiasmo de ser o primeiro representante de um novo partido que aparece no Parlamento, ache que tem lições a dar a toda gente e que vai mudar tudo, e que tudo muda com a sua presença. Depois verá, daqui a um ano e meio, dois anos, qual é o balanço que se faz dessa influência nova no Parlamento.

E teve tempo de acompanhar a polêmica do assessor de saias ou estava ocupado?

Não, eu não dei por nada. Eu vi um senhor que estava junto da deputada quando eu a fui cumprimentar, mas não estava de saias, estava de calças, era o outro senhor.

Disse numa entrevista que a sua eleição como presidente da Assembleia da República foi o primeiro resultado de um novo acordo político no Parlamento. Estava referindo à legislatura anterior, evidentemente, porque nesta o Partido Socialista já não tem esse acordo político e nem sequer se mostrou disponível para assinar nenhum acordo, perante até a disponibilidade manifestada por alguns partidos, caso do Bloco de Esquerda. Acha que António Costa fez bem?

Vamos começar pelo princípio. Efetivamente, eu quando fui eleito presidente do Parlamento em outubro de 2015, convém não esquecer que o presidente da República era ainda o professor Cavaco Silva e o primeiro-ministro, empossado pelo professor Cavaco Silva, o doutor Passos Coelho. E portanto, não havia ainda nenhum acordo assinado entre as diversas forças políticas que depois apoiaram o governo António Costa e tratou-se de uma eleição que não foi nas condições mais simples. Em voto secreto, tudo era possível naquela eleição. E foi um momento muito importante, porque mostrou que mesmo sem acordos escritos, era possível ter um primeiro resultado tangível, que era a eleição do presidente da Assembleia da República.

E na altura temeu mesmo poder não ser eleito, não é? Havia essa receio.

Era óbvio, porque não havia nenhum tipo de contacto preferencial com as bancadas do PCP, do Bloco de Esquerda e dos Verdes.

Mas foi o primeiro sinal de que havia ali uma maioria de esquerda que funcionava.

O próprio Partido Socialista também tinha, eventualmente, outros candidatos em vista e, portanto, não é possível contar sempre com 100% de votos das bancadas do PS em votos secretos. E portanto, aquilo que aconteceu foi um exemplo e foi realmente o primeiro momento. Agora, eu devo dizer que esta eleição, agora há pouco tempo, no dia 25 de outubro, foi uma eleição, pra mim, muito significativa e muito reconfortante, porque depois de um começo, sobretudo da legislatura anterior, em que houve uma tensão muito grande entre o presidente da Assembleia da República, devido às condições novas em que foi eleito e a oposição de direita, e nomeadamente do PSD, foi com muita alegria e satisfação que eu vi que pelo menos cerca de metade da bancada do PSD tinha votado em mim pra presidente da Assembleia da República, o que significa o reconhecimento do papel independente que eu procurei desempenhar em toda a legislatura e que fui ganhando essa perspectiva por parte dos partidos da oposição à medida que a legislatura se foi desenvolvendo. E mesmo aquele incidente final com a senhora deputada, ainda líder do CDS-PP, foi um incidente que me parece que correu mal, foi fundamentalmente ao CDS-PP e não ao presidente da Assembleia da República.

Mas quando fala desses momentos de tensão iniciais da legislatura, já recordou aliás ataques muito fortes de que foi alvo em entrevistas anteriores. Mas admite que em algum momento possa ter sido menos parcial do que era suposto no cargo de presidente da Assembleia da República?

Menos imparcial.

Menos imparcial, precisamente, peço desculpa.

Não, eu tive sempre uma imparcialidade total, mesmo nos momentos em que houve algum confronto e alguma divergência, foi uma divergência em que eu estive sempre suportado pela posição constitucional. A posição constitucional e a posição regimental era a minha. Por exemplo, quando se tratou do primeiro inquérito À Caixa Geral de Depósitos, que houve uma forma de colocar o inquérito que era totalmente inconstitucional e que eu mandei para trás, e depois foi revista essa formulação e acabou por se desenvolver com toda a normalidade o trabalho da comissão de inquérito. Agora, evidentemente que eu não posso ser pressionável para fazer coisas que estejam fora do quadro da Constituição.

E acha que era isso que o CDS pretendia quando fazia aquelas críticas à condução dos trabalhos? Era pressioná-lo de alguma maneira?

Isso já era uma segunda parte, isso já era uma segunda derivada da questão. Não era só o CDS, houve muitos deputados do PSD e deputadas na última fila que praticamente interrompiam de cinco em cinco minutos os trabalhos para protestar contra esta ou aquela decisão da mesa. Mas a mesa também tinha pessoas do PSD e de CDS, com quem, aliás, eu mantive sempre uma grande solidariedade. E acho que todos, mesmo aqueles que saíram do Parlamento, têm uma excelente relação comigo. Eu posso dizer, por exemplo, pessoas como os antigos líderes da bancada do PSD, o Luís Montenegro e o outro.

Hugo Soares.

Hugo Soares, têm uma excelente relação pessoal comigo depois de tudo isso. E, portanto, tudo isso é muito reconfortante, porque na política as pessoas também vão aprendendo com os factos e com os erros.

Há pouco recuou a 2015 para contar a história de início e acabou por não responder ao fim da história, que era a questão do acordo escrito. António Costa fez bem ou não?

Aquilo que eu penso saber, como sabe, eu não estive envolvido, nem nessa altura, nem nesta, em nenhuma negociação interpartidária. Mas aquilo que me pareceu, por aquilo que eu vi das intervenções do secretário-geral e primeiro-ministro do Partido Socialista, é que ele tentou que houvesse um acordo mais explícito, mas a partir do momento em que houve um partido, que foi o PCP, que disse definitivamente que não queria fazer nenhum acordo escrito e que se veria caso a caso, como é que era a negociação e orçamento a orçamento, que o primeiro-ministro achou por bem não selecionar apenas o Bloco de Esquerda para um acordo escrito. É a análise que ele faz sobre a necessidade de ter um relacionamento ao mesmo nível com todos os partidos que apoiaram o governo do PS nos momentos decisivos durante a legislatura anterior, e eu compreendo.

E é mais fácil assim no Parlamento e com este design parlamentar, conseguir os acordos necessários, por exemplo, da aprovação do orçamento do Estado, já que o PS não tem maioria?

Repare, como lhe digo, não estive em nenhuma negociação, mas em todos os orçamentos de Estado, mesmo na legislatura anterior, houve sempre uma situação em que os parceiros do PS começaram por fazer grandes exigências que pareciam levar a que fosse impossível construir um orçamento apoiado por eles. Mas no fim, e graças ao trabalho também dos negociadores e dos dois secretários de Estado que estiveram no Parlamento, foi sempre possível deixar para a especialidade um conjunto de acertos e permitir que houvesse votos a favor nos quatro orçamentos de Estado vindos desse lado. Ora, nesta nova legislatura, nem são precisos votos a favor. Quero dizer, não estou a dizer isto para desprezar, acho que era bom que houvesse votos a favor, não apenas desses partidos, mas de outros também. Mas parece-me que a abstenção, porque houve aqui uma alteração fundamental, convenhamos que é que o PS passou a ser o partido com mais deputados, e era o PSD, e o PS tem mais deputados do que toda a direita junta. Portanto, desde que haja uma abstenção dos partidos mais à esquerda, todas as leis e os orçamentos passam. Agora, isso em relação a algumas leis, não vai acontecer sempre, como não aconteceu também na legislatura anterior.

Mas no orçamento está confiante.

Na legislatura anterior, apesar de haver um acordo escrito, foi sempre necessário negociar orçamento a orçamento. Portanto, aí não há uma grande diferença.

Está confiante que isso vai ser fácil, digamos, nesta nova legislatura?

Na legislatura anterior também não foi fácil. Acho que não vai ser fácil.

Mas será fazível e acredita que é possível levar a legislatura até o fim?

Sabe, aquilo que fez com que a outra legislatura fosse levada até o fim não foi tanto o facto de haver um acordo escrito, foi o facto de ter havido, do ponto de vista social, político e económico, resultados tangíveis da ação do governo. E, portanto, nenhum partido estava em condições de criar uma crise política, porque seria severamente penalizado pelo eleitorado se criasse essa crise.

Quer dizer que o quê? Se, por exemplo, a economia arrefecer nesta legislatura, as coisas podem tornar-se mais complicadas?

Nós não sabemos qual é que é a evolução que vai haver nesta legislatura, embora haja um pessimismo crisvista que me parece um bocadinho excessivo, porque os resultados não mostram isso. Ainda ontem os resultados na Alemanha foram resultados bastante mais positivos do que aquilo que se estava à espera na economia. Mas tudo depende, efetivamente, da capacidade que o governo tiver de dar respostas sociais. Não podem ser maximalistas, porque não há dinheiro para tudo, mas dar respostas sociais, de manter o equilíbrio nas finanças públicas e de conseguir que o ritmo de crescimento económico pelo menos se mantenha ao mesmo nível, que foi, aliás, bastante melhor do que aquilo que era apontado pelos observadores quase até o fim da legislatura com a revisão de dados que foi feita.

Nestas últimas eleições legislativas houve uma taxa de abstenção recorde. Acha que a classe política no Parlamento, e não só, tem aqui uma reflexão a fazer? Eu recordo que no Parlamento foram conhecidos vários casos polêmicos, manifestou-se, aliás, várias vezes sobre eles. Acha que há aqui uma reflexão que é preciso fazer?

Sim, sem dúvida nenhuma. Aliás, essa reflexão sobre os casos polêmicos no Parlamento foi feita ainda durante a legislatura anterior e foram introduzidas alterações e penalizações que têm o seu efeito positivo no funcionamento do Parlamento e no comportamento individual deste ou daquele deputado. Agora, a abstenção é qualquer coisa que não se pode menosprezar, porque efetivamente representa uma situação em que há muitos portugueses que consideram que uma coisa são eles, que são os que estão os eleitos, os governantes, os presidentes, e outra coisa somos nós, que é o povo. Isso é muito grave quando se deixa extremar essa situação.

Há uma reforma que há pouco falava e justificava isso como a falta de proximidade entre os eleitos e os eleitores, e há uma reforma que tem sido sistematicamente adiada, que é a reforma do sistema político. Ela acaba por cair sempre nos programas eleitorais. Já caiu pela segunda vez no programa do PS, em prol do acordo com a esquerda, que os pequenos partidos normalmente resistem a essa alteração legislativa. É uma reforma secundária?

Não, eu acho que é uma reforma absolutamente importante e que mais dia, menos dia vai ser necessário levá-la à prática, porque o próprio primeiro-ministro foi o grande artífice dessa proposta de reforma quando era ministro no tempo do engenheiro António Guterres. Simplesmente, só se pode avançar com projetos que são estruturantes para a democracia quando há um consenso mínimo e básico. E quando digo mínimo e básico é que eu penso que não basta que haja 50% de votos, é preciso que haja uma compreensão e um alinhamento positivo por parte das diversas componentes do espectro político-partidário. E possivelmente aquilo que o primeiro-ministro entendeu é que não havia condições ainda para que essa reforma fosse levada à prática. Agora eu relembro que essa questão é uma questão em que o Parlamento pode ter a iniciativa, os grupos parlamentares. Não o presidente do Parlamento, que não tem iniciativa legislativa, mas os grupos parlamentares podem ter a iniciativa e, portanto, estamos no começo de uma legislatura, vamos ver como é que esta legislatura se vai desenvolver.

Eduardo Ferro Rodrigues, regressaremos à conversa daqui a pouco, na segunda parte do Sob Escuta. Regressamos para a segunda parte do Sob Escuta, com o nosso convidado Eduardo Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República. Já disse que, numa entrevista, creio, que não vê António Costa com uma vocação para presidente da República, que ele é menos nessa matéria, é menos Sampaio e mais Guterres. A minha pergunta é se o vê, portanto, a assumir um cargo internacional como aconteceu com o outro ex-primeiro-ministro socialista, António Guterres.

Sim, vejo que não imediatamente, porque há um compromisso que o primeiro-ministro António Costa tem para o país e também para o seu partido, mas a médio prazo não me espantaria porque tem essas qualidades e tem, sobretudo, uma qualidade essencial que é a capacidade de conseguir muitos consensos à volta das suas posições em conselhos europeus e ter posições muito firmes e muito marcadas, sobretudo em matéria de reformas que são imprescindíveis para a União Europeia. É evidente que isso também vai depender da evolução do pensamento político sobre a Europa noutros países, mas eu penso que é uma questão que se pode colocar daqui a meia dúzia de anos.

Não acha que possa colocar-se durante este mandato? Porque cá há lugares que vão ficar vagos precisamente mais ou menos a meio do mandato.

Penso que neste mandato há uma palavra que o António Costa vai certamente cumprir, que é respeitar o compromisso que tem para com o eleitorado português.

Mas já houve, como sabe, e acompanhou de perto, porque na altura até estava à frente do PS, houve casos de um primeiro-ministro que também tinha um compromisso e acabou por, aliás, com o apoio mais ou menos consensual a nível partidário-

Menos, menos, menos. Do meu lado.

Acabou por abandonar as funções de primeiro-ministro.

Pois, mas eu não me parece que isso seja um bom exemplo. Aliás, como estará recordado, também não foi apenas o facto de ter sido convidado, foi de ter sofrido uma enorme derrota eleitoral nas europeias de 2004, em que o PS teve o recorde de sempre de votação, de percentagem e de número de deputados eleitos. E o primeiro-ministro então, Durão Barroso, não foi apenas porque foi convidado ao fim de terem falhado três ou quatro tentativas de outros candidatos que decidiu ir para essa aventura europeia, foi também o facto de ter sido derrotado, penso eu. E por isso a minha reação naquele momento, não vale a pena estar a fazer histórias do passado, mas como estarão recordados, o meu amigo Jorge Sampaio, continuo a ser muito amigo dele, tomou uma decisão que eu considerei que era uma decisão que punha completamente em causa a possibilidade de eu continuar como líder do Partido Socialista, depois que todos os sinais tinham sido dados ao contrário, e nessa mesma noite demiti-me do Estado-Geral do PS.

Ficou-lhe essa marca. Portanto, António Costa não deve mesmo sair antes do fim do mandato.

Penso que deve cumprir a sua palavra.

Marcelo Rebelo de Sousa diz que vai muitas vezes reunir-se com ele. Quando é que foi a última vez que se reuniu com o presidente da República?

Agora tenho-me reunido mais pelo telefone, porque o presidente da República teve aquela pequena intervenção cirúrgica. Eu também estive um fim de semana fora do país. Mas temos falado por telefone quase todos os dias. É uma relação muito amistosa e em que há uma genuína preocupação, nomeadamente em questões de saúde, como sabe, é uma grande especialidade do nosso presidente da República. E é uma questão que atravessa muito as nossas conversas e também tudo aquilo que se passa de importante no país. Temos mantido essa frequência de contactos e com o primeiro-ministro também. Eu sei que tem uma boa relação com o presidente da República.

E mantém hoje aquilo que já disse no passado, que se as presidenciais fossem amanhã, votaria em Marcelo Rebelo de Sousa?

O amanhã já foi há um ano, praticamente. Mas se fosse é amanhã, amanhã mesmo, voltaria a dizer o mesmo. Repare uma coisa, eu sou um militante do Partido Socialista desde 1986. E uma coisa é o debate interno no Partido Socialista sobre as presidenciais. E se fossem amanhã, eu não deixaria de defender, nesse debate interno, que o PS apoiasse a candidatura, se for pra frente, do professor Marcelo Rebelo de Sousa. Agora, eu, como militante, se o PS decidir o apoio a outra candidatura, eu terei que me envergar a esses imperativos.

Mas repare uma coisa, hoje já, era como tinha dito, há um ano disse aquilo sobre amanhã. Hoje as condições já são diferentes.

Não são muito diferentes.

São diferentes no sentido que já o quadro da legislatura em que vai haver presidenciais já está formado. Já houve eleições legislativas, as eleições serão em 2021. A questão é que se perante este quadro, o PS estará mais próximo de declarar-lhe apoio nas legislativas.

Não me faça perguntas sobre o PS, porque eu tive o cuidado nestes últimos quatro anos, embora seja o número um da comissão política da lista aprovada em congresso e apoiada pelo secretário-geral António Costa, eu tive o cuidado, porque parece-me que há quem tenha uma opinião diferente, mas eu acho que é incompatível ser presidente da Assembleia da República e ser o presidente de todos os deputados e ao mesmo tempo ter uma intervenção partidária muito forte, sobretudo em reuniões do partido. Eu limitei-me na legislatura anterior a ir às jornadas parlamentares e fazer um discurso de circunstância, às vezes até mais com humor do que propriamente com grande substância política, porque é o meu grupo parlamentar que me convida. Mas às reuniões do Partido Socialista, às reuniões da comissão política, de que faço parte, só em momentos muito importantes é que fui, como agora.

Mas agora estava a falar que se houver esse debate, vai intervir e que interviria nesta altura a favor da...

Se o debate fosse hoje, eu continuaria a defender que pra eleições de amanhã, o PS deveria apoiar Marcelo Rebelo de Sousa.

Há alguma coisa em concreto que pode acontecer e mudar essa sua posição?

Vamos ver como é que se processa agora a evolução dos acontecimentos. Nós estamos ainda no princípio, como diria, parafraseando um primeiro-ministro, esta legislatura ainda é um bebê. Espero que não seja abanado na incubadora. E portanto, voltaremos, possivelmente, daqui a um ano, ou coisa assim, a colocar esta questão.

Mas é que a questão é que o rearrumar do tabuleiro político passa muito também por aí, o facto de se ter percebido que o governo do Partido Socialista não tem maioria absoluta e isso podia condicionar ou não a ação do Presidente da República. Estando o quadro definido como está, acha que é possível que Marcelo Rebelo de Sousa ceda àquela tentação que acontece frequentemente com os presidentes da República de ter um segundo mandato mais duro para com o governo?

Mas isso parece-me que faz parte da lógica dos presidentes da República, num segundo mandato, serem mais afirmativos e mais exigentes. Mas mesmo contando com isso, eu continuaria a defender esta posição.

Mas o que é que poderia fazê-lo mudar? Desculpe insistir.

Não faz sentido, porque podia acontecer coisas estranhíssimas, que não vale a pena estar aqui a colocar.

Portanto, só perante coisas estranhíssimas é que não apoiaria.

Não vou aqui especular. Ele sabe que na legislatura anterior eu fui dos primeiros a dizer que o governo não cairia, certamente nunca, por iniciativa do Presidente da República. Poderia cair por iniciativa da Assembleia da República. Ora, as condições para que isso acontecesse eram mais perigosas, diga, para o governo, na legislatura anterior, do ponto de vista aritmético. Do ponto de vista político, vamos ver. Mas julgo que não será de Belém que virão os principais problemas para este governo de António Costa.

Disse numa entrevista à Lusa que, tendo em conta como as coisas têm corrido, têm corrido bem até agora, disse, não vê nenhum motivo para sair da política sem mais nem menos. Mas admite que este mandato como presidente da Assembleia da República será o seu último cargo político?

Sim, admito, não, tenho a certeza absoluta mesmo. Aconteça o que acontecer, esta é a minha última eleição como deputado mesmo e como presidente da Assembleia da República.

E portanto, imaginemos um cenário

Se tudo correr normalmente, acabarei as funções de Presidente da Assembleia da República praticamente com 74 anos e, portanto, julgo que já tenho direito a passar dos papéis aos atos, ou seja, dos papéis da reforma, que já entreguei há muito tempo e que nunca recebi notição, para uma presença mais forte junto da família, mesmo assim, ter sido uma presença que eu tenho procurado sempre garantir.

Mas, portanto, não admite a hipótese de, se o PS lhe pedisse, assumir-se como uma alternativa a Marcelo Rebelo de Sousa nas eleições presidenciais?

Eu também aí sou como o doutor António Costa, penso que a função presidencial é muito interessante, é o topo de uma carreira política, mas há pessoas que têm mais intuição e mais vontade para ter essa carreira e para finalizar a carreira política como presidente da República do que eu. E, portanto, não se me coloca essa questão, sequer.

Houve aqui um tema que marcou a última campanha eleitoral, a campanha das legislativas, e que até levou o CDS a anunciar em plena campanha a intenção de promover uma nova comissão de inquérito, que foi o caso Tancos, por causa de uma troca de SMS entre o deputado e o ministro da Defesa de então, que mostrava conhecimento, de alguma forma, da operação ilegal de recuperação do armamento roubado. Do seu ponto de vista, o deputado do PS teria de ter dado conta do conteúdo da mensagem à Assembleia da República?

Não sei. Sabe, eu não sigo essas telenovelas ao pormenor, nem as telenovelas mais atuais, nem as mais antigas, e, portanto, não estou a seguir.

O Ministério Público valorizou muito esta prova na acusação.

O Ministério Público tem a sua posição e tem a sua autonomia. E a Assembleia da República não trabalha para o Ministério Público, assim como o Ministério Público não deve trabalhar para a Assembleia da República. São instituições completamente autónomas e não vou fazer nenhum comentário sobre um SMS que desconheço.

Mas acha que há questões políticas ainda por esclarecer, independentemente da forma como o processo correrá na Justiça?

O que eu acho é que as questões já estão colocadas de forma tão avançada ao nível jurídico, ao nível das instâncias judiciais, com a abertura de uma fase de instrução a curto prazo, que o que seria de bom senso era as conclusões políticas serem tiradas depois dos resultados totais deste processo judicial e não no meio, porque isso há criar um ruído absolutamente estranho, do meu ponto de vista, com o paralelismo de uma ação política baseada numa acusação e não num julgamento.

Quando falou há pouco das telenovelas a que não assiste, das novas e das antigas, a antiga presumo que se esteja a referir, por exemplo, à questão dos interrogatórios de José Sócrates. Não tem acompanhado essa telenovela, como lhe chama?

Não, não tenho acompanhado.

Mas incomoda-o ver um ex-primeiro-ministro do PS há tanto tempo?

Não apenas um ex-primeiro-ministro, como uma pessoa por quem eu tenho consideração e que está numa situação em que vai ter que explicar aquilo que são as acusações. É, pelos vistos, aquilo que está a fazer, mas eu, como digo, não tenho acompanhado o pormenor e o detalhe. Vejo os grandes títulos porque não posso evitar. Mas vamos ver agora como é que há a evolução dessa questão, porque até agora a única versão que existia era a versão da acusação. Agora há uma outra versão. E, portanto, são as instâncias judiciais que têm que decidir o que é que cai ou não cai da acusação e como é que depois, no caso de haver acusações que não caiam, o que é que, em última análise, os tribunais vão resolver, sabendo-se que este processo vai demorar, certamente, ou morre já, ou então vai demorar muitos anos ainda.

Há quase um ano, na abertura do ano judicial, dizia que a Justiça está sob suspeita, referindo-se à desconfiança dos cidadãos no setor. Este caso concreto acha que pode contribuir para melhorar essa perceção ou acha que, pelo contrário, tem contribuído para a agravar?

Eu não sei se é o caso concreto, se é o número de fugas de informação e de presença da comunicação social de formas muitas vezes que não são aceitáveis, de tratar estes casos, que são casos muito sérios. Mas eu quando disse isso, baseei-me no inquérito à opinião pública. Porque se é um facto que o Parlamento, embora tenha melhorado muito a sua imagem nesta última legislatura, e isso teve que ver com o facto de haver uma base parlamentar mais ampla do que era normal. Mas o Parlamento melhorou muito a sua imagem. Mas o sistema judicial em Portugal, aqui há três, quatro anos, quando eu fiz essa intervenção, era realmente, de todos os sistemas, aquele que tinha o maior grau de desconfiança. E eu não sei, tenho que atualizar esse estudo e esse inquérito para saber se as coisas melhoram ou pioram com estes macrocasos.

Apesar de António Costa ter sido reeleito e de não se prever uma disputa pela liderança do PS tão cedo, para tão breve assim, a verdade é que este assunto vai mexendo nos bastidores e nas estruturas. Quem é que identifica como tendo potencial para suceder a António Costa na liderança do PS? Do seu partido.

Neste momento, quem sucedeu António Costa foi António Costa.

Exato.

E, portanto-

Mas olhando para o futuro, olhando para os jovens que aí estão.

Sabe, eu estou no PS desde 1986 e na altura em que entrei para o PS havia três ou quatro candidatos, que toda a gente sabia que eram candidatos àquilo que era a herança partidária e política de Mário Soares. Vítor Constâncio, Jaime Gama, António Guterres, Jorge Sampaio. Isso não foi um drama, foi um enriquecimento para o Partido Socialista, ter essas quatro figuras como figuras que estavam presentes, de uma maneira ou de outra, com as suas ambições legítimas. E todos eles acabaram por ter um papel importante no país. E na altura, essas pessoas, isso foi há 33 anos, 30 e tal, tinham mais ou menos a idade que têm agora aqueles que se fala como hipóteses para o futuro.

O que está a dizer é que tem experiência em vê-los crescer e a caminharem para a liderança do PS. O que lhe estamos a perguntar é exatamente isso. Quem é que vê na pole position?

Sabe que não há pole position nestas coisas. É uma questão de vontade, de determinação e de capacidade. Eu lembro-me que quando Vítor Constâncio se demitiu, havia a expectativa de ser António Guterres a suceder, mas Jorge Sampaio antecipou-se e declarou a sua candidatura a Secretário-Geral do PS e, portanto, impediu, de certa maneira, que houvesse outras candidaturas alternativas. Mais tarde, António Guterres acabou por defrontar Jorge Sampaio num congresso e vencer esse congresso, devido aos maus resultados que Sampaio teve em 1991. Jaime Gama foi candidato contra Vítor Constâncio e depois contra Jorge Sampaio e perdeu em ambas as eleições internas no Partido Socialista, mas depois acabou por ser presidente da Assembleia da República durante seis anos, não é?

Está a fazer uma revisão do passado sem se comprometer com o nome para o futuro, que era o que lhe estávamos a perguntar.

É que julgo que isso depende muito mais de cada um daqueles que se julga com capacidade e com vontade, do que de outros. E que não vale a pena eu não ser comentador político e muito menos sobre questões internas.

Mas é um conhecedor profundo do Partido Socialista, por exemplo, como é que olha para esta marcação Pedro Nuno Santos, Fernando Medina? Falando de nomes muito concretos.

Que tipo de marcação? Diga-me lá.

Marcação de terreno. É notório, não é?

Não sei. Não vejo essa notoriedade tão grande, mas sabe, eu não estou muito ligado ao aparelho do PS. Não sei exatamente o que é que cada um desses militantes do Partido Socialista. Um é presidente da Câmara e outro é ministro, portanto, não devem ter muito tempo para andar no fim de semana a trabalhar os chamados aparelhos do PS.

Percursos paralelos àqueles que exemplificou do passado, portanto.

Sim, mas isso parece-me uma riqueza. Eu penso que inclusivamente há mais pessoas, algumas mulheres com capacidade no Partido Socialista, Ana Catarina Mendes. Eu não vi a entrevista ontem, mas gostei muito bem da entrevista da Mariana Vieira da Silva.

Mariana Vieira da Silva pode ser uma...

Boa, e portanto, há muitas pessoas da geração dos 40, 50 e até mais novos, nalguns casos, que poderá desempenhar esse papel. Agora, não é pelo presidente da Assembleia da República dizer que gosta mais da A ou da B, que as coisas passarão. Vai depender, sobretudo, da vontade política e da capacidade e do entusiasmo, porque é preciso fazer estas coisas com entusiasmo.

Deixe-me terminar como, na verdade, começamos esta entrevista. Falava do seu sportinguismo. É sócio há 70 anos do Sporting.

O que é um mau sinal, porque quer dizer que fiz 70 anos agora há pouco tempo.

Mas tem aqui uma coincidência, que é que hoje veio aqui a Alvalade, que é onde estão as instalações da Rádio Observador.

Que não são no estádio.

Exatamente.

De Alvalade, não vai esclarecer.

Imagine-se a lançar-se para esses campeonatos ou acha que não?

Não, porque isso seria uma coisa suicidária. Eu não sou propriamente um suicida. Acho que o Sporting está numa situação muito difícil. Muito difícil por responsabilidades de várias direções, mas aquilo que se passou nos últimos cinco anos foi muito grave e teve consequências terríveis do ponto de vista da confiança das instituições no clube. Esta direção tem tentado responder a isso, mas ao mesmo tempo alienando uma parte do patrimônio desportivo, dos ativos desportivos, e isso tem consequências, depois no terreno dos resultados. E, portanto, eu não sou, por natureza, muito otimista. Em relação ao Sporting, enfim, também possivelmente o facto de ser sócio do Sporting há 70 anos, também contribui para não ser propriamente muito otimista a nível geral. Sabe que eu quando nasci, o Sporting ganhava todos os jogos e a pergunta que faziam era: "Por quantos ganham hoje?" Porque foram aqueles anos em que em sete campeonatos ganham seis, no final dos anos 40, no princípio dos anos 50. Depois, infelizmente, começou a ganhar só de quatro em quatro anos e agora parece que é de 18 em 18 anos. O último que ganhou foi em 2002. Vamos lá ver se em 2020 é possível alguma coisa, enfim, mas já me parece muito difícil, muito complicado com estes 10 pontos de atraso.

Com esta nota de algum pessimismo do nosso convidado, terminamos este Subscuta. Eduardo Ferro Rodrigues, muito obrigado.

Muito obrigado.

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