Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza de que somos todos malucos. Olá a todos, sejam bem-vindos a mais um episódio do podcast "Somos Todos Malucos", um podcast sobre saúde mental e autoconhecimento, sobre histórias curiosas que me fazem, pelo menos a mim, pensar. E eu, ao mesmo tempo que eu penso, também penso: "Se eu penso, mais alguém pensa". E pensamos todos um bocadinho sobre as conversas que passam por aqui. Já sabem, se estão a assistir isto no YouTube, venham aqui aos comentários, porque eu venho muitas vezes aqui aos comentários também, falar convosco, deixem aí a vossa opinião, façam as vossas partilhas. Partilhem o podcast com quem vos pareça que faça sentido partilhar a conversa que estão a ouvir. E estamos agora nas plataformas do Observador, portanto muito mais fácil de encontrarem. Têm lá todas as conversas disponíveis. A conversa de hoje é um tema também que faz muito sentido nos dias que correm e sobretudo também eu já o queria trazer aqui. E surgiu também como têm surgido muitos temas, através das vossas partilhas, através do e-mail ou dos tais comentários no YouTube. A Bárbara Miranda é arquiteta, sempre lidou com ansiedade, com depressão, algo que se agravou bastante, diz ela, com um vício. E o que era esse vício? O uso excessivo do telemóvel. Quem nunca? Afetando a forma como se relacionava também consigo própria e com os outros. E com esta consciência, criou a Offline Portugal, um refúgio sem tecnologia, no Algarve, que hoje já não está ativo, mas poderá vir a estar noutros moldes, depois ela falará sobre isso. E alerta também hoje em dia para os perigos disfarçados da dependência digital e na forma como isso se reflete nos nossos dias e nas nossas casas. Bárbara, obrigado por teres vindo.

Igualmente eu.

Lá está, foste tu que mandaste um e-mail. E eu quando recebi esse e-mail fez muito sentido, porque esta história da dependência digital, nós já estamos tão assoberbados pela tecnologia, porque eu acho que ninguém pensa sequer que é uma dependência, acha que isso faz só parte do dia a dia, não é?

É exatamente isso. Eu acho que a palavra dependência também tem aqui esta conotação um bocadinho forte ligada já a uma perturbação. Eu não sou psicóloga, nem sou psiquiatra, portanto acho que também não sou eu que devo falar a esse nível. Mas posso falar no sentido de qualquer dependência começa com um hábito. E se hoje em dia, acho que podemos fazer essa diferença entre a dependência e um hábito. Eu acho que hoje em dia todos nós saímos de casa com o telefone e estamos sempre com ele. Portanto, acaba por ser um hábito que pode ser saudável ou não saudável.

Sim.

Na minha experiência, quando comecei e que realmente vi que isto era um problema a vários níveis, comecei foi quando tive o meu primeiro smartphone em 2010, em Londres.

O teu primeiro smartphone foi em 2010?

Foi em 2010. Smartphone, tipo iPhone.

Pois, sim.

Antes disso eram aqueles que havia.

Os vitaminas.

Sim. E eu quando fui para Londres em 2010, já foi há 15 anos. Cá em Portugal, ou pelo menos no meu círculo de amigos, ninguém tinha iPhone e eu quando cheguei lá tinha um iPhone. Aliás, andei à procura de trabalho ainda com a câmara a fazer zoom in e zoom out na câmara digital, à procura dos ateliês e deixar portfólios. Depois arranjei um iPhone em segunda mão. Lá toda a gente andava com os smartphones e aquilo foi todo um mundo, uma descoberta para mim. E passava a vida naquilo. Eu quis ir para Londres para ter uma experiência diferente e depois acabava por estar sempre conectada com as pessoas de cá.

Sim.

Foi todo um percurso que hoje em dia eu vejo as coisas de uma maneira diferente. Já passaram 15 anos e ainda lido bastante com a situação do telefone, mas de uma maneira já diferente.

Mas como é que tu te ligaste, ou melhor, se calhar começamos pelo que é essa definição de dependência digital. O que é essa dependência digital?

A dependência eu acho que tem a ver com uma dependência emocional. Não só para nós não nos sentirmos sozinhos, porque se uma pessoa sai de casa sem o telefone, de repente está ali: "O que é que eu faço?" Sozinho, fica meio desorientado. E também uma necessidade de, já dentro mais das redes sociais, de ter ali qualquer estímulo, não só para passar o tempo, mas também de aprovação, dependendo do conteúdo que se vai pôr ou não. Pode-se falar a vários níveis de faixas etárias, desde as crianças até aos mais adultos, mas acho que há sempre ali uma vertente mais de aprovação, nomeadamente das redes sociais, que nos dá aquele boost ou um ânimo ou uma motivação para continuar.

Tu sabes se há critérios de diagnóstico da condição da dependência? Deve haver.

Eu acho que, segundo o que sei, só neste momento a dependência dos videojogos é que é considerada pela Organização Mundial de Saúde, já como uma perturbação do foro psiquiátrico. Claro que os psiquiatras e os psicólogos acompanham, mas ainda não há um nome definido, pelo menos que eu saiba, de perturbação, mas eu acho que não tarda muito. Até se perceber que impacto é que isto pode ter. O maior impacto que isto tem é nas relações humanas. Depois também podemos falar mais disso mais à frente. A relação real entre dois humanos, que a partir do momento em que começou a surgir esta tecnologia, mudou bastante.

Como é que tu começaste a sentir isso na tua vida?

Na minha vida houve um aspeto grande que foi o sono. Eu com o telemóvel, até à meia-noite a usar o telefone. Hoje em dia já não faço isso.

À meia-noite? Tu alguma vez fumaste?

Sim.

Porque há muito também essa imagem de que muitas pessoas que acordam à meia-noite para fumar. Ou que acordam e fumam logo. E se calhar há muitas pessoas que têm essa relação com o telefone também, ou que acordam à meia-noite e vão ver o telefone.

Sim, fazia isso e não desligava as notificações para nada, então qualquer mensagem acordava e via. E eu sempre tive problemas para dormir e aquilo só me fez foi pior. E depois comecei a perceber, nomeadamente nesse sentido. E depois eram outras situações que não aconteciam em Lisboa, que em Lisboa, eu quando saía aqui em Lisboa, ia para a Bico ou para o Bairro Alto e encontrava os meus amigos, era uma coisa assim mais normal. Era o que acontecia aqui antigamente. E quando cheguei a Londres tinha que marcar pelo Meetup ou por WhatsApp ou por Facebook Event, o que a gente faz hoje em dia. E isso fazia mesmo essa confusão. Aliás, houve um episódio, agora estava-me a lembrar, que quando eu cheguei e comecei a trabalhar em Londres, estava a trabalhar nos primeiros dias e recebo um e-mail de um colega meu do escritório a dizer: "Então, está tudo bem? Chegaste um bocadinho mais atrasada". Não sabia o que é que foi. E eu olho para o nome do e-mail e disse: "Mas este é o meu colega que está aqui atrás de mim". Isto foi nos primeiros dias. E eu não estou a perceber o que é que se está a passar. Será que é ele? Fui à página do escritório onde estava a trabalhar e vi a fotografia dele, vi o nome, não é ele. E eu olho para trás e ele estava a trabalhar. E eu disse: "Olha, tu estás a mandar o e-mail?" E disse na minha inocência. E ele: "Sim, para não fazer barulho". "Mas não fazer barulho, se precisa de alguma coisa, diz-me, eu estou aqui atrás". Pronto, são este tipo de coisas que eu agora me vou lembrando. E que na altura eu achei graça e contei isto como piada. Mas é esta falta de espontaneidade, que isto já foi em 2010, e que eu trabalhava num escritório também cá em Lisboa e a coisa era completamente diferente. Nós falávamos uns com os outros, mas eu acho que cada vez mais nós falamos menos uns com os outros.

E tu deste por ti mais tarde a ter esses comportamentos ou não?

Dai, dai.

Tu gozavas com o gajo, "au tanho", olha para esse gajo.

Eu fiz o mesmo. Completamente. Eu às vezes estou em casa ou na casa dos meus pais, quando vou à casa dos meus pais, a minha mãe está cá em baixo, eu estou lá em cima e eu mando-lhe um WhatsApp. Quer dizer, acho que isto já é normal para toda a gente. Só que o que acontece, e que estávamos a falar do hábito, a partir do momento em que a gente se habitua a esta forma de comunicar, a outra forma de comunicar, que é normal, acaba por ser já um bocadinho esquisita. Ou já não estamos tão à vontade.

Sim. Há certos temas que...

Ou não?

Sim, acho que sim, porque depois há certos temas que tu já não consegues falar cara a cara.

Exatamente, é muito mais fácil através de um ecrã. E eu outro dia estava a falar com um amigo, que é um cliente meu, na verdade, e que eu estou a fazer um espaço para ele, que ele é artista, é um espaço para músicos e para artes no geral. E temos várias conversas em relação a isto e até à inteligência artificial e estávamos a tentar perceber, estávamos ali numa discussão sobre o que é que faz de nós humanos. Em comparação a um robô. O que é que é tão importante na relação humana?

Eu acho que é as emoções.

As emoções, foi isso que a gente chegou. E o que é que faz com que nós tenhamos emoções? Nós temos emoções a olhar para um telefone, não é? Ou não?

Sim. Eu acho que aí é que nasce a questão do vício.

Pronto.

Porque quando estava também aqui a pensar sobre este tema, tu tens um payoff com o telemóvel.

Sim, a dopamina.

Sim, como tu tens com o jogo, como tens com o álcool. Com o álcool, não. O álcool acho que será...

Um bocadinho mais gradual, não é tão instantâneo.

Sim, e aí é quase um adormecer. Quer dizer, mas se fores reparar também acaba por ser a mesma coisa.

Não, liberta-te um bocado, ficas muito mais descontraído.

Sim, mas há um payoff, sim, no telemóvel, aquela pessoa respondeu-me. Eu acho que há duas coisas. Ou é essa ligação emocional com o telemóvel de aquela pessoa respondeu-me e estou a ver isto e estou a dizer aquilo que me apetece e não estou a dizer na cara da pessoa, ou então há a questão de te alienares do mundo, que é estares só a fazer o scroll de ver coisas. Não é?

Acabas por ser um piloto automático.

Sim, é tipo um entorpecimento das emoções.

É, mas quando estamos a fazer scroll é porque há sempre uma novidade. A dopamina tem a ver com essa questão de "ai, eu quero ver mais", e vês mais uma, e a dopamina quer sempre mais. Aliás, a cocaína e os cigarros libertam níveis de dopamina no cérebro, segundo o que eu li. Eu gosto deste tipo de coisas. E é equivalente ao scroll. Tu consegues ver mais uma imagem de alguém a cair ou de um cãozinho, ou aquelas coisas que libertam ali uma sensação de conseguir ver alguma coisa diferente, e então queres mais.

Tu tens noção de quando é que tu tiveste consciência que era um problema? Houve algum clique?

Acho que foi uma série de coisas. O sono foi uma, a outra de ter que programar o meu tempo com amigos era outra. Depois foi o online dating, que ainda ninguém fazia cá online dating e aquilo apareceu. Tive uns encontros um bocadinho desastrosos e depois pensei: "O que eu estou aqui a fazer?"

Mas podes contar algum?

Acho que não. Não é isso que faz a diferença.

Era só porque eram estranhos? Só quando chegavas lá.

É a expectativa. Tu tens uma expectativa, não é real, acaba por ser uma coisa que não é real. Estás a ver uma fotografia, estás a ver uma descrição e quando vês, e tive uma série deles, e já cá também já tive. E digo: "Deixa cá ver outra vez". E depois, passado três dias, desligo aquilo e acabou. Não é para mim. É que não é mesmo. E acho que não sou a única, eu acho que anda para aí uma onda de toda a gente. Acho que deviam ser proibidas.

Viciada.

Acho que essas apps deviam ser proibidas por uma questão de respeito pelo ser humano, porque o ghosting, por exemplo, é uma coisa superagressiva.

O ghosting, eu só te digo, é porque eu estou casado desde 1772.

Ainda bem.

O ghosting é quando desaparece, simplesmente desaparece, deixa de dar notícias?

Sim, eu não quero saber mais de ti. E a questão é essa, é que nós na vida real não fazemos isso. É muito difícil. Ou a questão dos haters, por exemplo.

Sim.

De alguém dizer tão mal, há coisas supercruéis que se dizem na internet. Tu sabes. Obviamente, tens um ecrã no meio, por isso é que o fazes. Se for na vida real, não fazes isso. Não é?

Sim.

Então acho que é essa questão da nossa humanidade que se está a perder através de um ecrã. Eu não estou a dizer que é tudo mau, porque, por exemplo, principalmente a inteligência artificial, acho que tem coisas boas, também tem de assustadoras, mas também tem coisas boas ao nível de informação. O acesso à informação que a gente tem, se bem que nem toda a informação é certificada.

Sim, não é verdadeira.

Não é verdadeira, mas o acesso que nós temos à informação é uma coisa que é incrível.

Sim, só que lá está, tens que ter sempre um fator humano.

O discernimento.

O discernimento a filtrar isso tudo.

Sim.

Porque isso é como, por exemplo, para quem lida com questões de ansiedade ou de hipocondria, algo do gênero. Toda a gente sabe que o Doutor Google é o pior que existe. Qualquer coisa é um cancro, tumor, doença terminal. Uma unha encravada, podes morrer de unha encravada no Doutor Google.

Sim, completamente.

Portanto, é preciso haver um certo discernimento. Mas eu acho que sim, que as tecnologias e de certo modo, também as redes sociais e isso tudo, há um fator positivo, mas é muito difícil ficar-se apenas por esse aspecto positivo.

Eu acho que, voltando à questão do hábito. Nós hoje em dia, e eu também na minha profissão de desenho de casas, eu gosto muito de estar em casa. É uma coisa que eu tenho vindo a reparar nos últimos anos, desde os últimos 10 anos, é que eu antes não conseguia estar em casa, só queria estar na rua com os meus amigos. Claro que tem a ver com a idade, obviamente, que a gente gosta de um bocadinho menos farra, mas eu sempre fui aquela pessoa que reunia os amigos todos e que fazia a festa e que fazia e acontecia. E hoje em dia, para me tirarem de casa, é muito difícil. Por quê? As nossas vivências são completamente diferentes, porque a comida vem-nos a casa, a farmácia vem-nos a casa, temos o Netflix, não precisamos ir ao cinema. Podemos falar com os amigos ou com os pais em casa. E não sei até que ponto é que, voltando à nossa humanidade, é que estamos a ficar cada vez mais sozinhos. Quando o telefone, supostamente, seria uma ferramenta para nos conectar, não sei até que ponto é que nos está a desconectar uns dos outros.

Sim.

Porque há dados, eu outro dia vi, acho que foi na Marketeer, na revista, que desde 2010, há uma subida de 20% de pessoas a viverem sozinhas. É bastante grande. Sim, há mais ou menos 10 anos.

E há de haver vários fatores envolvidos.

Há vários fatores, sim.

Mas essa capacidade de resolver tudo em casa sem sair.

Eu só saio porque tenho um cão. E curiosamente, chama-se Wi-Fi, portanto ele acaba por me conectar. Ele era a mascote da Offline. Então sim, nós tínhamos o Wi-Fi, só que era um cão. E sim, na verdade, as pessoas que eu tenho conhecido ultimamente é por causa do Wi-Fi, do cão, porque eu vou passear o cão à rua, porque eu trabalho em casa, tenho as minhas reuniões de vez em quando, tenho que ir às obras, mas acabo por não conhecer muita gente. E acho que, como eu, muita gente também já trabalha remotamente e faz tudo, até com os YouTubes. Cada vez pode trabalhar mais por si. E ter os seus próprios meios sem precisar dos outros.

Como é que tu fizeste essa ligação? Estavas a falar do Offline. O Offline foi o projeto que tu tiveste, foi antes da pandemia, não foi?

Foi, 2016.

Que era uma espécie, uma espécie, não. Era um retiro desconectado. Como é que te surgiu essa ideia? Como é que tu chegaste até aí?

Pois, eu acho que isto foi um bocadinho progressivo. Eu quando estava em Londres ainda e eu lembrava-me de que o metrô era o sítio mais deprimente de Londres. Até havia piadas no metrô a dizer: "Faça um bocadinho de eye contact, só faz bem". Porque está toda a gente agarrada aos telefones. E eu acabei por fazer uma festa lá Levei uma coluna enorme, reuni uma série de amigos e fizemos uma linha inteira de Londres a dançar e a cantar. E toda a gente adorou, porque eu achava que era o sítio mais deprimente de Londres. Isso começou com uma ideia, assim um bocado na brincadeira. Eu gostava que também, depois das experiências catastróficas do online dating, porque uma pessoa acaba por ficar com a autoestima má e não é nossa culpa. A coisa não conecta. Eu acho que não estamos a conectar da melhor maneira.

Sim, porque ao mesmo tempo-

E foi um trigger, foi um gatilho o online dating. E eu gostava, eu lembrei-me, não sei em que contexto é que foi, que devia haver um sítio em Londres onde não houvesse internet e que as pessoas só pudessem ir lá e falarem umas com as outras e conhecerem-se e conectarem de outra maneira, de uma forma espontânea, sem ter que ter meetups, sem ter que combinar isto ou aquilo.

Sim.

Uma coisa tipo o café.

Uma festa, como antigamente.

Como antigamente.

Sim.

Eu tenho saudades disso.

Exato, como o Café Central.

Café, exato, o Café Roma.

Sim.

E pronto, surgiu com isso. E depois, na altura, eu fundei isto com uma amiga e resolvemos vir para Portugal e criar um espaço, porque no fundo, o que falta, e isto já numa reflexão do que eu fiz e agora, o que nos falta é criar espaço e tempo para nos dedicarmos a coisas offline e a coisas online. Que hoje em dia não há separação, a partir do momento em que a gente está sempre com o telefone, não há espaço nem tempo para o offline, nem para o online. O online está sempre lá.

Sim.

E então, o que nós fizemos foi criar um espaço onde se pudesse estar tempo offline. No fundo, foi isso.

E aquilo era o quê? Um fim de semana, uma semana? Como é que funcionava?

Sim, aquilo nos primeiros três anos funcionou mais com uma estadia mínima de três noites, onde fazias o check-in, entregavas os telefones. Tínhamos cacifes para o telemóvel, para os computadores.

E durante esses três, as pessoas não podiam usar?

Não podiam. Nós não éramos polícias, tínhamos o cacife, fazia parte. Antes das pessoas fazerem a marcação, sabiam que estas eram as regras. Eu dava sempre o meu número de telefone, que estava na receção, o meu telemóvel estava na receção, se houvesse alguma emergência, podiam ligar para aquele número e falavam com a pessoa. Portanto, regra geral, sim, havia algumas exceções. Eu acabei por ver pessoas, pais a darem comida aos filhos no andar de baixo, que eu nem sempre estava lá, com o iPad, com os desenhos animados. E eu disse: "Desculpe, o que está a fazer?" Mas apanhei algumas pessoas: "Não, é que ele não come sem ser..." "Não, mas é exatamente por isso que está aqui". Pensei que queria fazer: "Mas eu não consigo". Pronto, foi toda uma jornada ali de pessoas mais dependentes, menos dependentes. Tenho muitas histórias.

Chegaram lá histórias, o que as pessoas faziam lá? Portanto, largavam os telemóveis, depois tinham o quê? Tinham atividades tipo ioga?

Sim. Eu dava aulas de ioga, meditação, tocávamos, eu também toco música, toco piano, então acabava sempre por haver ali umas-

Ok, passeios.

Lições de música, passeios, surf.

Praia, não é?

Tínhamos que dar outras coisas.

Aquilo era em Aljezur, não é?

É, Aljezur.

Portanto, tinham essas atividades todas.

Sim, as primeiras-

Mas as pessoas sabiam ao que iam? Muitas ou era tipo: "Olha este sítio fixe".

Que engraçado, olha que ideia tão engraçada, sim. Mas a verdade é que a partir do momento em que se tira o telefone, e aí é que foi também o meu trabalho mais e da minha sócia na altura, de tentar, como é que se diz, break the ice, quebrar o gelo nas primeiras 24 horas. Aquilo era muito complicado, porque as pessoas não sabiam o que é que haviam de fazer. A gente tinha livros, tínhamos jogos de tabuleiro, tínhamos coisas para pintar, mas as pessoas às vezes andavam assim com os braços, tipo zumbis. Era esquisito. Mas claro, depois também tinha staff lá na casa, que ajudava a descomprimir e depois, passado 24 horas, já éramos tipo quase uma família. Havia ali um ambiente muito engraçado, de conectarem uns com os outros.

Viste casos extremos de dependência?

Casos extremos. Eu vejo como as pessoas ficam incomodadas quando não têm o telefone. Mas eu não sou psiquiatra, isto acabam por ser tudo reflexões que eu fiz disso. Vejo como há pessoas que ficam mesmo incomodadas e que ficam com o olhar perdido quando não sabem o que é que hão de fazer. Estão sentadas e não sabem. O telemóvel acaba sendo como uma bengala. Quando há ali espaços mortos, só de silêncio. Isso era muito incomodativo para eu ver. E então eu ia lá, fazia uma palhaçada qualquer. Lá está, sempre fui esse elemento que nas festas fazia com que toda a gente ficasse à vontade, então eu acabava por ser o palhaço ali da casa. O que era fixe, não estou a dizer o contrário. Eu gostava era que as pessoas se sentissem bem. E ao fim de um tempo, aconteciam ali coisas muito bonitas e depois não queriam ir embora, e depois voltavam, e continuávamos a falar depois de saírem. Portanto, eu acho que houve ali aquilo que eu buscava, que estava a sentir falta em Londres.

Que era o tal contacto humano.

Sim, essa espontaneidade, esse contacto, essa pureza, às vezes de certas conversas e certos gestos, de abraços, porque nunca foi o nosso intuito fazer uma coisa terapêutica ou muito séria, tipo retiro.

Sim.

Que eu também já fiz, já entrei nessa onda do ioga também, e acaba por ser uma coisa pesada, às vezes.

Sim, mas acho que as pessoas podem fazer isso, se calhar é um passo à frente.

Não, havia um pouco de tudo.

Porque há certas coisas. Eu acho que há certos sinais que podem revelar que nós, de alguma maneira, estamos dependentes do Da tecnologia. Isso que tu estavas a dizer, se calhar o sono alterado, o não desligar as notificações. Mas há coisas, por exemplo, eu noto, como se calhar também estou um bocado mais consciente para isso, se eu de manhã acordo e a primeira coisa que faço é agarrar no telemóvel para ver WhatsApps, eu: "Já está aqui a dar merda".

A ansiedade.

Não é suposto eu estar a fazer isso logo de manhã. Ou, por exemplo, de vez em quando é muito engraçado fazerem um jogo que é tão simples quanto isto: vocês vão almoçar com alguém e toda a gente mete os telemóveis de lado. E tu vês as pessoas incomodadas.

Pois. Tu imagina alguém que vai passar umas férias sem o telefone.

Pois.

É bem pior.

Tu às vezes em almoços, tens malta-

Não sabem o que é que vão fazer, depois vão dormir.

Nos almoços começam tipo: "Então e se tocar, o que é que eu faço?" Eu: "Não atendes. Ninguém pode atender. Quem atender vai pagar o almoço ao resto da malta". E ficam mesmo tipo: "Mas se alguém for, eu vou também". As pessoas, às vezes, mesmo dizendo isto, não percebem que isso é um sinal de uma dependência.

Sim, por exemplo, nós tínhamos sessões de música ou de karaokê ao vivo. Alguém a tocar piano, alguém a tocar guitarra. Queremos cantar uma música. "Ai, eu não sei a letra, não posso ir buscar o telefone só para ver a letra?" Não! Inventa, faz lá lá lá, diz o que for, não interessa, não é para ser perfeito. Ou estamos a falar de uma coisa qualquer. "Não, esse filme era do quê? Ai, eu lembro, deixa-me ir buscar o telefone". Montes de coisas desse gênero.

Tu, hoje em dia, já não tens discussões.

Ou tirar fotografia.

Já não tens discussões.

Não te lembras de qualquer coisa.

Não tens discussões porque as respostas estão todas lá.

E depois quebras uma conversa, porque vais ao telefone. "Estávamos a falar do quê?" Porque estás ali, já espera lá.

Ou estás a falar de um filme, isso que estavas a dizer. "Ai, um filme, porque uma vez eu vi um filme era com não sei quantos". "Ai, não, era com não sei o quê". "Ai, não, então espera aí. Pronto, olha, era com não sei quantos, está feito. E agora? Vamos mudar de tema". E acaba a conversa aí.

Quando há tantas coisas que podem surgir, se não nos lembrarmos disso ou se não quebrarmos a conversa, a conversa acaba por fluir num sentido mais natural.

Tu fizeste um desmame ou vais fazendo?

Já fiz. O meu maior foi duas semanas, quando fiz Vipassana, aquele retiro de silêncio.

Sim.

Pronto, isso aí tiram-te o passaporte e tudo, ficas sem nada mesmo.

Isso aí é tráfico humano.

É, a carteira, foi tudo. Não, mas eu não saí do mesmo sítio, portanto, foi tudo bem.

Mas, por exemplo, quando tu estavas-

Não, mas tem regras, obviamente.

Tu quando estavas em Londres e começaste a perceber que tinhas uma dependência, começaste a ler sobre o tema?

Não, não havia grande coisa ainda. Comecei foi a desligar.

Como é que tu fizeste essa separação? Como é que fizeste esse desligar?

Eu comecei a ter uma vida muito festa.

Foste autodidata?

Isso foi um bocadinho. Como em muitas coisas. Comecei-me a perceber que não dormia bem, comecei a desligar à noite, comecei a dormir melhor.

Mas de certeza que sentiste o que se sente numa dependência.

Sim.

A ansiedade.

Sim, tinha que deixar o telefone lá ao fundo, sim, do quarto. Eu lembro, o meu quarto, punha lá no canto, para não ir lá durante a noite.

Sim. E acordavas à mesma, mesmo com as notificações desligadas, as primeiras vezes, se calhar?

Não, eu desligava, punha no modo voo mesmo.

Mas nas primeiras noites não acordaste mesmo e sem modo voo?

Sim, provavelmente.

Está a ver? Por causa da dependência, do hábito.

Sim. Eu não levei como uma coisa muito grave. Eu depois comecei a me aperceber da gravidade, mas foi ao longo do tempo. Eu disse: "Não, eu vou desligar, quero ficar mais em casa, já chega de festa", porque aquilo não se para. É festa todos os dias. Chega de festa, comecei a fazer ioga, comecei de manhã a não estar no Facebook, porque antes não havia muito Instagram ainda.

Sim.

Não estava no Facebook e comecei a fazer ioga. À noite também fazia exercícios de respiração, também para me ajudar na ansiedade. E comecei assim a mudar os meus hábitos. E aí comecei a me sentir melhor. E aí começou, não quero dizer aqui o meu percurso de-

De iluminação.

Não, de self-development.

De desenvolvimento. Sim. Está-te a acontecer mesmo.

Ter uma consciência um bocadinho maior. Que hoje em dia é diferente e olho às vezes as coisas para trás com uma outra perspectiva. Que acho que hoje em dia há muita gente que diz: "Bárbara, tu agora é que devias ter a Offline, que agora eu ia precisar mesmo de umas férias offline". Mas já não tenho a mesma idade e acho que também não faz muito sentido nós estarmos a promover. Na altura fez-me todo sentido e acho que é um conceito importante, quanto mais para despertar esta consciência. Mas de nada nos vale fazer uma detox, como detox de sums, se depois voltamos aos nossos hábitos normais. Ou voltamos à casa e fazemos tudo igual. Claro que temos aquele momento e que foi bom e há uma certa conscientização, mas nem toda a gente depois leva os hábitos, porque nós depois dávamos algumas dicas para, por exemplo, não ver ao acordar o telefone, não ver ao adormecer e substituir esses hábitos. E hoje em dia, já com esse livro também dos hábitos atômicos, que toda a gente fala, de James Clear. Realmente, para se mudar um hábito mau, tem que substituir por outro. Esses para mim é o principal. Depois é ao acordar e ao adormecer, não usar o telefone.

Que é tipo uma hora?

É uma hora, dizem. Sim.

Uma hora antes de adormecer e uma hora depois de acordar, não é?

Sim. Eu ao adormecer ainda é muito difícil para mim. Mas antes de dormir, leio sempre.

Mas porquê? Por questões de trabalho?

Porque já é a ansiedade de eu vou dormir mal.

Mas, por exemplo, há uma coisa que eu faço de vez em quando com as miúdas. O mundo está diferente. Tu és de que ano?

Sou de 81.

81. Sou de 80. Portanto, somos da mesma altura. Nós fomos a última geração que viveu a transição do analógico pro digital. Portanto, ainda temos memória do telefone de casa. Da rodinha.

Isso também é muito interessante.

Temos essa memória, portanto, estamos entre os dois mundos. Mas os putos que nascem já a partir de 2000, já não têm essa realidade. Portanto, há coisas boas no digital. Eu acho que haverá coisas boas no mundo digital e nesta interação. Por exemplo, a minha filha mais velha dá-me dicas de edição de vídeos ou dá-me dicas de certas coisas de postar nas redes, que fazem muito sentido. Eu paro e penso: "Isso são coisas de quem já só vive nesta idade". E eu acho que isso pode ser útil. Mas sim, também temos que estar muito atentos pra que haja esta separação. Mas por que eu estava a dizer isto? Porque, às vezes, à noite, eu ligo o telefone à televisão e estamos a ver vídeos de pessoas a cair, mas estamos a ver em família. Ou seja, não está cada um no seu telemóvel, estamos todos a ver o mesmo e estamos a rir. Aquele programa que dava de apanhados.

Sim, da MTV.

Não, isso é o "Ridiculousness", o que dá agora. Mas nós tínhamos na RTP.

Eu lembro, sim. E só rir. Era uma coisa assim.

Era. E que as famílias juntavam-se a ver.

Claro, isso é uma maneira saudável, acho eu, de utilizar o digital.

Acho que sim, pode ser interessante. Ou, por exemplo, o fato de tu veres os trabalhos que elas fazem na escola, já muito usando técnicas de inteligência artificial. Há muitas coisas das entrevistas que eu preparo com inteligência artificial, com o ChatGPT.

Eu também. Eu só gosto de refletir sobre esta temática e não desfazendo o bom disso. Eu estou maravilhada com o ChatGPT.

Sim.

Mas também estou assustada, porque também já começo a falar com ele como se ele fosse meu terapeuta. E já começo a pensar: "O que está a passar aqui?" E eu, como sou uma pessoa naturalmente curiosa e já gosto de pensar nas coisas. Eu acho que a tecnologia é tão importante e tão vital, e acho que pode ser uma ferramenta tão boa para nós nos podermos dedicar àquilo que somos bons e aquilo que gostamos, em termos de criatividade, e a tecnologia fazer a parte toda chata, em termos de burocracia. Claro, também se pode ser criativo nas redes sociais e tudo isso. Mas a partir do momento que a tecnologia entra na nossa humanidade, e aqui voltando ao tema do que nos faz ser humanos, e isto na conversa que eu tive com esse meu amigo, o que nos faz ser humanos são os nossos sentidos, as nossas emoções vêm dos nossos sentidos. Isto foi uma reflexão minha, vale o que vale, mas acho que faz sentido. Nós temos a visão, temos o cheiro, o olfato, o tato. Está a faltar ali a audição. A audição, por exemplo, a música é uma coisa que nos faz ter imensas emoções e que nos faz sentir vivo. E essa sensação de nos faz sentir vivo é o que nos faz ser humanos. O que um telefone tem para nos criar emoções, o único sentido que a gente está a usar é a visão e a audição. Não temos o tato.

Nem o paladar.

Nem o paladar, nem o cheiro. E mesmo a visão é através de um ecrã, não é uma visão real, é uma visão digital. E o som também é um som digital. E a partir do momento que a tecnologia faz com que nós nos comuniquemos com o outro, e a comunicação é uma comunicação verbal e uma comunicação com todos os nossos sentidos. A comunicação não verbal dizem que até é muito maior que a verbal. A comunicação que nós temos com os outros através de uma plataforma digital acaba por não ser uma conexão humana, porque não está envolvido os sentidos todos.

Sim.

Esta é a reflexão. E quando nós estamos assim, estamos a ter uma conexão completamente diferente.

Sim, eu estava a pensar nisso, porque nós aqui temos tudo. Temos o tato, nem que seja do sítio físico onde estamos.

E temos o olhar nos olhos. O olhar nos olhos é completamente diferente do que estar numa call de Zoom. Não tem nada a ver. Aliás, até é perturbante. Eu já fiz exercícios desses, também fazia lá na Offline, que levam uma pessoa a ficar meio estranha.

Eu já fiz isso também.

Pronto, é esse tipo de coisas.

Sim, ou tocar nas pessoas que eu não conheço do lado.

Entrar ali no espaço, claro. O espaço digital é o foro. E até é por isso que as pessoas, por exemplo, os haters, essa questão que estávamos a falar. Não há humanidade nas redes sociais, por quê? Porque através de um ecrã, a gente pode dizer o que quiser. Tem essa coragem. Agora, se tu vais na rua, tu és uma figura pública, um hater qualquer vai te chegar ao pé de ti e dizer isso? Não, porque ele tem o mínimo de empatia que está ao pé de ti. E é isso que o faz ser humano.

E não é só isso. É a empatia e é o medo da reação. O medo da reação, a vergonha.

Porque a outra pessoa também é humana, claro. A vergonha, todos esses sentimentos, essas emoções que estávamos a falar que é o que nos faz ser humanos, no digital não existe. Então pra mim é uma coisa que não é real. Por isso é que eu acho que toda gente, quando se fala neste tema, já se fala em todas essas medidas que combatem a ansiedade e esses problemas mentais que estão aliados às redes sociais e aos videojogos, essas coisas todas. Mas esta temática da maneira como nós nos estamos a relacionar uns com os outros Não é tão falada assim, exatamente por isso.

Nós quer queiramos, quer não, somos seres sociais e só chegamos aqui por sermos seres sociais.

E tu que também sabes disto, sabes que acho que é em torno de 70% para a nossa condição mental estar bem, é nós termos relações humanas saudáveis. Se as nossas relações humanas acabam por ser majoritariamente digitais e online, para onde é que vai caminhar a nossa saúde mental em termos já mais visionários? Se ainda hoje os pais não querem que os filhos tenham os telemóveis dentro da escola. Porque acho que agora supostamente iam tirar e agora os pais não querem, que eles precisam. Na primária. Isso não faz sentido nenhum. Já no resto da Europa toda a gente está a tirar e nós continuamos sempre com aquele atraso. Normal.

Não faz sentido, até porque a maior parte dos pais fizeram toda uma escola sem telefones.

Exatamente.

Deviam se lembrar disso.

E os meus pais até eram bem controladores, porque a desculpa dos pais agora, segundo o que eu ouvi, é que: "Não, que eu preciso saber onde é que ele está para eu ir buscar". Nós vivíamos assim.

À hora que é para sair, eles pegam no telefone, porque na maior parte das escolas, ou a grande parte das escolas, já se faz isso. Os putos deixam os telemóveis no cacifo.

Porque voltando aos hábitos, se os miúdos vão para o recreio e estão interagindo todos uns com os outros no telemóvel.

Sim, nas escolas estão a ser retirados por isso.

Depois acabam por não conseguir reagir humanamente, com todos os sentidos, a ter acesso a todas as emoções deles, de uma forma real, sem ser digital, offline, sem ser online, no fundo.

E depois há essa questão que eu acho que também pode ser um pouco assustadora, que vai acontecendo, que é através da inteligência artificial e até de aplicações em que são namoradas e namorados digitais.

Pois.

Que não existem e que pessoas que criam essa relação com uma aplicação.

E não estamos muito longe disso, eu acho.

Não, já existe, já existe caso assim.

Não estamos muito longe disso, no fundo. Eu sei que há aplicações, mas eu acho que não falta muito até termos um holograma e ter um namorado virtual em casa ou um robô, que vai buscar o jantar e que é o Marco ou não sei o quê.

Sim, tu tens empresas, mas ia mais a nível sexual, as empresas das bonecas de silicone e dos bonecos de silicone.

Pronto, é isso que eu estou--

Mas, a verdade, eu noutro dia, por acaso, estava a ler sobre isso, porque eu pus-me a pensar: será que esse mercado, porque há muitos anos eu escrevia para a Max Men, para a revista, e eu escrevi um texto porque tinha sido uma notícia de um homem que se tinha casado com uma boneca de silicone. E as bonecas de silicone têm um avanço brutal. Bonecas e bonecos, claro que o mercado é mais para os homens. Mas custam 3, 4 mil euros. E eu no outro dia fui ver: "Deixa cá ver se isto entretanto evoluiu com a inteligência artificial". E então tu já tens bonecas com inteligência artificial, em que decora os teus gostos, ou seja, vai assimilando a relação que vai tendo contigo, vai para um banco de dados onde vai aumentando, vai te conhecendo mais, o tipo de piadas que gostas, esse tipo de coisas. Ou seja, isto é mais uma maneira de lá está, de contribuir para que esta pessoa se afaste completamente do mundo real.

Sim, isso é assustador. E se isso não for um comportamento do foro psiquiátrico, não sei, eu não sou psiquiatra, mas acho que é.

Eu acho que sim. Eu acho que o teste é simples.

Acaba por ser uma dependência. A pornografia também já é uma dependência.

Eu acho que tudo é fácil de analisar. E se vocês que estão a ver e ouvir querem perceber até que ponto têm essa dependência, por exemplo, dos telemóveis, é fazer esses pequenos testes de: "Vou afastar o meu telemóvel, vou estar uma hora sem o meu telemóvel".

Ou sair de casa sem o telefone.

Ou sair de casa sem o telefone.

Estar num café, num espaço público, sem o telefone.

Sim, esse é um bom exercício, sair de casa sem o telefone.

Ver como é que se sentem.

E perceber o que é que se sentem, exatamente. Se sentem ansiedade. Claro que acho que é normal uma pessoa sentir um desconforto inicial. Agora, se esse desconforto se mantiver durante o tempo todo em que estão fora, se calhar já aí alguma coisa precisa de ser trabalhada.

Que acho que é uma coisa um bocadinho difícil de se analisar em termos de ser uma dependência ou uma perturbação, porque toda a gente usa.

Sim.

Eu não sei, às vezes noto, até notava muito de clientes que chegavam: "Não, eu não sou nada dependente" e depois...

Pois, há isso.

Porque acho que é uma coisa que eu experienciei mesmo.

E tu podes não ter noção. Esse é que é o perigo.

E eu acho que é isso. E é mais nesse sentido que eu gosto de falar deste tema e de tentar espalhar um bocado esta consciencialização que todos nós somos. E quem disser que não é, há ali um certo grau de hipocrisia, não querendo estar aqui a julgar, mas julgando, porque é o que acontece.

Sim.

Salvo raras exceções que eu conheci de pessoas que ainda têm Nokias, toda a gente está agarrada a isto.

Exato, e o teu 3310.

Tenho, conheço duas pessoas que têm.

Com snake. Mesmo aí tem o jogo da cobra, e um gajo ainda fica ali a jogar aquilo. Sim, eu noto. E depois posso usar a desculpa do trabalho.

O trabalho é outra coisa. Por exemplo, eu tinha muito poucos homens na offline, que não conseguiam desligar por causa do trabalho. Isso também é uma coisa que nos afeta imenso. Por exemplo, eu com os meus clientes digo sempre para não mandarem mensagens a partir de uma certa hora, quando mandam E eu não respondo. A partir de uma certa hora, não trabalho, porque hoje em dia já se usa o WhatsApp também para trabalho e para mim o WhatsApp é uma coisa mais pessoal.

Sim.

Para os meus amigos. Os homens não queriam deixar o telefone por uma semana, se fosse uma semana, por exemplo, porque tinham que ver pelo menos uma vez por dia por causa do trabalho. Não conseguir desligar a cabeça do trabalho não é bom para a nossa saúde física e mental. Toda a gente sabe disso. Não precisa ser psiquiatra para dizer isso. Mas a maior parte dos homens tinha mais essa do que as mulheres.

Sim.

As mulheres tinham a ver com os filhos, mais.

Sim. Mas acaba sempre por ser tudo uma desculpa, é uma dependência.

Pois.

É uma dependência.

Disseste tudo, sim.

Sim, é uma dependência emocional.

É a cena do controlo. Do controlo.

É uma bengala. E no meio disto tudo, a evolução dos telemóveis também, porque é um negócio, e também não ajuda. Para o bem e para o mal, mais uma vez.

Sim, e os CEOs do Google e do Instagram. Do Facebook não, do Instagram. Vi uns quantos podcasts sobre isso a falarem que até se despediram porque não estavam a conseguir lidar com o que estavam a fazer em termos de trabalho para as outras pessoas.

Pois, e que papel é que as empresas, tu és trabalhadora independente, mas que papel é que as empresas também têm no meio disto tudo? As empresas de tecnologia.

De tecnologia? Não sei, mas acho que as empresas ao nível geral, tal como todos nós, isto depende da escala. Desde a nossa casa até o sítio onde trabalhamos e quem é dono de uma empresa, era criar o tal espaço e o tempo para as pessoas comunicarem de uma maneira real, offline.

Sim.

Uma hora por dia, desligamos todos os computadores e vamos para uma sala. Há empresas que têm esse tipo playgrounds, onde a malta vai para lá e até há grandes brainstormings e criações de ideias que acontecem quando uma pessoa desliga e está ou a jogar matraquilhos ou beber um café. As empresas de tecnologia, eu acho que a partir do momento em que são privadas, a regulamentação tem que vir do governo, das instituições. Eu acho que uma das coisas, por exemplo, era nas escolas, não haver os telemóveis até uma certa idade. Para exatamente desenvolver essas capacidades emocionais e cognitivas de um ser humano e utilizar todos os nossos sentidos naturais. Porque o digital não é uma coisa natural. Ou é?

Pois.

Não sei. Nada é natural. Tipo isto, o vidro. Quer dizer, a madeira é uma coisa natural.

Sim, eu entendo o que estás a dizer, mas a partir do momento em que as crianças que nascem agora já nascem neste mundo, mais vale integrar também.

O criar o espaço e o tempo, exato.

Sim. Outro dia vi um vídeo. Aquilo só me passou muito rápido, mas eu não sei se isto é verdade ou não. Que é: malta que está a ficar com a cabeça deformada por causa dos headphones, mas eu acho que isto deve ser a gozar.

Eu já vi isso. E há problemas já na coluna também da malta.

Mas ficavam com o crânio a começar a ficar deformado de usarem os fones, aqueles fones grandes.

Uma dentista no outro dia disse-me que os nossos dentes, por exemplo, também já estão a ficar mais pequenos porque não mastigamos tanto.

Porque não falamos.

Não, não mastigamos. Exato, também. Não sei.

Porque não mastigamos tanto?

Não mastigamos.

Por causa da comida processada.

Comida mais processada, sim.

Se calhar, aquelas imagens que nós vemos-

Cá estou a dizer algo disparato, ainda vou para a Joana Marques. Não, isto foi uma dentista que me disse.

Não sei, mas faz sentido. Eu acho que faz sentido. Sim, olha, está-me aqui a dizer dos polegares. Estamos a começar a ficar com os polegares deformados.

Eu lembro-me que eu fiquei 15 dias sem tocar no telefone lá no retiro do Vipassana. Quando peguei no meu telemóvel, fiz assim. Foi muito esquisito.

Fizeste como?

Foi tipo um choque. Deu-me choque. Quando voltei a ligar o telefone, também estava ali numa onda mesmo completamente zen. E peguei no telefone e disse: "Epa!" E eu assim: "Fogo". Agora, como estamos habituados, nem damos por isso.

Sim.

Mas eu acho que há coisas que a tecnologia, obviamente, na nossa mão, ligada aqui diretamente ao coração e todo o sistema nervoso, fisicamente, não há de ser bom.

Sim.

Mas eu acho que a nível mental e emocional é bem pior. As consequências que pode trazer.

É essa alienação, essa mistura da dependência emocional que tu crias com uma aplicação, com as redes sociais, com o estar à espera de respostas. Depois, quando as respostas são negativas.

A conta feia.

O ghosting, os haters. Quando tu sentes essa necessidade. Eu, por exemplo, já contei muitas vezes esta história, eu deixei de ter Twitter já há uns anos. Eu tinha 250 mil seguidores no Twitter, não era pequeno. E eu deixei de ter, porque cada vez que eu ia ao Twitter, eu ficava ansioso. E ficava fisicamente mal disposto, porque é uma rede supervisceral. E eu percebi: "Isto está me a fazer mal". E desliguei. E se eu pudesse, eu posso, na realidade, eu posso, mas grande parte do meu trabalho também está nas redes sociais. Portanto, se eu apagasse as minhas redes sociais, basicamente, de alguma maneira, eu estava a mudar também de trabalho. E teria que o promover depois de outra maneira também.

Claro.

Mas há coisas que eu tive que fazer também o meu distanciamento, os comentários negativos, as mensagens às vezes do contrário, de extrema dependência. Tu tens que ter essa consciência para conseguir criar uma barreira entre esse mundo verdadeiro e o mundo digital. E eu acho que este tipo de conversas pode ajudar, de alguma maneira, que as pessoas tenham um bocadinho mais de atenção.

É.

Não é? O que tu achas que é preciso ser feito?

Acho que é preciso ser feito a vários níveis. A nível das instituições, criar limites.

Uma regulamentação faria sentido, sim.

Principalmente nas escolas, uma regulamentação em relação a isso, o que é ou não foro psiquiátrico. Nas empresas, nos espaços de trabalho. Isto tem a ver com os diferentes espaços que existem: o espaço urbano, o espaço do trabalho, o espaço pessoal em casa. Em casa, vamos numa escala maior. No espaço urbano, eu sonho um dia em que haja carruagens do metrô offline, uma carruagem que seja offline, que haja bloqueadores de internet, que haja espaços na cidade, por exemplo, eu acho que hoje em dia, como arquiteta-

Como o tabaco.

Exatamente. Nos restaurantes, por exemplo, haver zonas em que não há telefones.

Eu acho que há restaurantes que fazem isso.

Já há. E há festivais, por exemplo, eu já não vou a festivais porque eu não consigo estar à frente de não sei quantos ecrãs. Passa-me da cabeça. Eu não quero ver o teu ecrã, eu quero ver o que está no palco. Não vou já, já desisti. Acho que a esse nível-

E vídeos que ninguém vai ver.

Ninguém vai ver. E o outro: "Olha, mais um vídeo do não sei quantos que vê cá. Mais um vídeo da Lana Del Ray". Ninguém vê. Parecemos todos uns carneirinhos. "Esse também está a fazer, também vou filmar". Essa consciencialização de que é muito bom apontar o dedo e depois todos fazemos a mesma coisa. Eu não faço, porque eu já não vou mesmo. E como te disse, tenho agora um novo smartphone, e tinha um que estava a cair aos bocados. Eu quase não usava telefone e agora estou aqui outra vez nesta situação. A um nível mais urbano nisso, em todos os eventos mais sociais, casas de concerto, pronto, pedem. Os cinemas pedem para desligar. Ok. Mais e mais. Nos festivais, nos concertos, nos restaurantes, nos bares, pelo menos haver zonas em que seja offline. O pessoal vai para lá, mesmo que vá sozinho, mete conversa com alguém no bar. Eu já não faço isso há séculos. Porque às vezes quando faço olham para mim: "Quem é esta freak?".

"Esta mulher que está aqui a falar, a usar palavras".

Quando saio, sim. Já é coisa que eu não-

Se tu falares com alguém hoje em dia, é quase assédio sexual.

Assédio sexual. Exatamente. Eu ia dizer isso. Obviamente, também o movimento Me Too também faz o-

Sim. Nós vamos à cama dizer a palavra.

É, eu sou a favor, mas nós somos humanos, não é? Nem toda a gente é agressora.

Exato, um bom dia ou pagar um café a alguém, pode ser só essa interação.

Estou a ser gentil, simpática.

Sim.

E depois é nas nossas casas, também tem a ver com a nossa disciplina pessoal e nessas rotinas de criar o espaço e tempo nas nossas casas, que eu tento fazer isso também com os meus clientes. Eu acho que o modelo da nossa casa já não é a mesma coisa, principalmente a partir da pandemia, não é?

Sim.

Muita gente trabalha em casa e a nossa vivência, como é cada vez mais em casa, tem que haver mais espaços diferentes para certas coisas.

Sim, e espaços de convívio. A sala de estar já-

Espaços offline. Temos a sala da Netflix. Antes era a sala de estar, que depois tem a televisão, eu acho que agora é uma sala para a Netflix.

Sim.

Depois a sala de estar é outra coisa.

Por exemplo, nós lá em casa, hábitos digitais em conjunto, temos esse de vez em quando. Não é muito, mas de vez em quando vemos vídeos em conjunto, todos, e rimos e gozamos. Eu acho que aí faz algum sentido, porque estamos em conjunto e estamos a partilhar, e estamos a falar uns com os outros e a brincar com aquilo. Às vezes também vemos séries em conjunto.

Sim.

E vemos filmes em conjunto. Isso são coisas que tentamos. Mas também acontece muito uma coisa que às vezes, e aí nota-se bem o digital, que é cada um estar a ver a sua série no seu espaço.

Pois. Não é fácil, sei que não é fácil, claro.

Incomoda-me um bocado isso. Percebo, porque também estou na adolescência e eu também quando era adolescente queria estar no meu quarto. Acho que é importante também ter essa noção de privacidade, mas perceber também o que está a fazer no quarto. Se é para ficar três horas no quarto agarrado ao telemóvel, se calhar já não faz tanto sentido.

Eu acho que nós estamos aqui numa grande fase de transição, não é?

Sim.

E as coisas estão a evoluir de uma maneira super rápida. Nos últimos três meses, a maneira como eu trabalho está completamente diferente com a inteligência artificial. Não só o ChatGPT, mas com ferramentas que me fazem imagens de design super rápidas.

E que te ajudam a ter ideias, também?

Aí já é outra conversa para mim.

Não te ajuda?

Ajuda-me a ter um brainstorming.

Exato, um brainstorming.

Mas tu tens que dar o prompt do que tu queres, senão vai por outro lado.

Eu às vezes, por exemplo, eu tenho ideias tipo: "Olha, quero fazer piadas sobre qualquer coisa". "Dá-me fun facts sobre este tema" ou "curiosidades sobre determinado tema".

Não tens medo de não estares a desenvolver a tua criatividade e estares a pôr isso nas mãos dele só porque é mais fácil e é mais rápido e consegues criar 10 conteúdos em vez de criares um?

Não, porque nesse sentido eu estou só à busca de informação. Também é poupar tempo

Não está. Mas não é difícil fazermos essa divisão entre o que é essa ideia é minha ou se é dele? Eu ainda estou nesse processo.

Sim, porque o que eu estou a dizer é mesmo informação, factos curiosos sobre um tema. E eu depois pego nesses factos e faço a piada ou faço a história, ou o que quer que seja, mas é para ter um ponto de partida, porque senão o que eu ia fazer é ir ao Google e escrever "factos curiosos sobre não sei o quê". Ou seja, é mais no ponto de vista da informação. Porque eu já experimentei, disse ao ChatGPT: "Olha, faz-me piadas sobre não sei o quê".

E depois não tem. Pronto.

É tudo muito mal. Nem dá para pegar em nada. Podia pensar: "Ok, isto dá para construir outra história". Não.

Sim, eu também já fiz isso com a minha profissão. "Dá-me uma casa em que o conceito seja isso", depois eu olho e falo: "Não". Mas acho que é incrível a parte de recolha de informação e até de organizar e-mails, relatórios e coisas que tu não fazes tudo, ou se calhar até fazes, não sei. Agora perdi-me, o que é que eu iria dizer? Em relação à criatividade.

Sim, de limitar a criatividade.

É.

Eu acho que-

A linha. Onde é que nós definimos esses limites com a nossa utilização destas ferramentas.

Definir, porque lá está, também se pode tornar uma dependência.

Completamente, sim.

Eu acho que se calhar o segredo é esse, é nós estarmos um bocadinho mais conscientes, porque se pensarmos, não é diferente do vício do jogo.

Nada.

Porque se eu fizer uma aposta, eu percebo a adrenalina da aposta num jogo de futebol, o ganhar.

Também, eu percebo a adrenalina das drogas em geral.

Sim, mas nós temos que ter essa consciência de que quando nós começamos a ficar muito tempo perdidos naquilo ou muito tempo a pensar naquilo, é porque já algo não está no sítio certo.

E também antes, por exemplo, o rol de pessoas que eram dependentes do álcool ou do jogo acabavam por ser mais minorias. Em termos de escala. E hoje em dia toda a gente tem.

Sim, o telemóvel toda a gente tem.

E é uma coisa que afeta a todos.

E pode haver uma dependência.

Acho que 90% dos portugueses têm um smartphone.

E mais do que um, alguns deles.

Sete horas e meia que passamos online. E à volta de duas horas e meia, duas horas e vinte redes sociais, em média. É muito tempo.

Pois, isso também é um bom teste, porque os telemóveis têm essa capacidade de gerir e de ver o tempo que nós temos de utilização, também pode ser um bom teste para se assustarem.

Sim, e depois quando a gente diz que não temos tempo para nada, e se calhar até tínhamos. Ou até aquele scroll parvo, sem ser ativo. Porque tu trabalhas do digital, eu não.

Sim, do estar só a passar.

Eu não, mas uso de outra maneira.

Bárbara, uma mensagem que gostasses de deixar a quem nos está a ver e ouvir.

Uma mensagem. A minha única intenção é que as pessoas reflitam sobre este tema e sobre, em vez de pegarem no telemóvel para abrir o Instagram, ligarem a um amigo. Criarem espaço e tempo para saírem de casa, do conforto da sua Netflix. Isto que estou a dizer para as pessoas, estou a dizer para mim.

Sim. Que ainda por cima agora tens um smartphone novo.

Exatamente. Não, o ChatGPT e a Netflix são neste momento as minhas maiores adições. E criarem espaço e tempo para a conexão humana, que isso é realmente o mais importante para nós nos sentirmos bem a um nível emocional e mental. No fundo, é isso. Tempo e espaço para o offline, como antigamente.

E eu espero que um dia voltes com esse projeto do offline. Se calhar poderia ser interessante criares um espaço.

Tenho a ideia para fazer num contexto mais urbano.

Sim.

Agora também vim viver para Lisboa já há dois anos. Para criar o tempo e o espaço offline no contexto urbano.

Se calhar até nem era preciso um retiro, mas um café, uma coisa assim.

Não, não estás longe. Eu tenho a ideia, só preciso de um investidor.

Então já não é comigo que tens que falar.

É, eu sei. Eu sei, não. Há de aparecer. Também não estou muito ativamente à procura, mas há de aparecer.

Olha, Bárbara, muito obrigado por teres feito o convite e pelas tuas partilhas.

Obrigada por me receberes. Fico contente.

Quanto a vocês, muito obrigado por estarem desse lado. Façam esse exercício. Procurem no vosso telemóvel como é que se vê as horas de utilização que têm no telemóvel ou bloqueiem o limite. Coloquem um limite nos telemóvel e percebam quanto tempo é que vocês estão no vosso telemóvel e venham aqui aos comentários dizer quanto tempo é que vos apareceu, para se assustarem. Eu já me assustei, agora já não me lembro, mas lembro três horas e tal, quatro horas e tal. Horrível. E partilhem esta conversa com os vossos amigos, com quem acham que vai fazer sentido. E obrigado por estarem deste lado. Até para a semana. Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza de que somos todos malucos.