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Então à nossa. Muito obrigada por ter vindo. Por que trouxe este Eremitas À Mondegealia?

Boa tarde. Bom dia. Viva. Trouxe este vinho porque é um vinho feito de rabiato, uma casta rabiato, no Douro Superior. E desde que comecei a trabalhar por conta própria, encontrei esta casta que, para mim, tem um significado enorme, porque é uma casta portuguesa extraordinária, que plantada no sítio certo, dá vinhos brancos únicos e que representam super bem o sítio onde estamos.

Bem-vindos ao Tinto no Branco, um podcast observador. Todas as semanas brindamos com um convidado diferente, sempre uma história de vida, uma vida com história. E ainda algumas dicas úteis para a hora de abrir uma garrafa. O mundo do vinho português, Tinto no Branco. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e comigo está Mateus Nicolau de Almeida. Na família do Mateus, contam-se pelos dedos da mão quantos vivem longe do vinho. É assim há gerações. Aos 47 anos, aposta na produção de vinhos biológicos no Douro Superior. Tem os seus próprios vinhos e uma adega que é uma caverna. Mateus, gosta que o chamem Homem das Cavernas?

É interessante. Realmente, tudo que é o solo é o que me interessa mais. A parte telúrica, digamos, da terra bem e o xisto, vivendo eu no Douro e rodeado de xisto. O xisto é uma pedra que tem uma força muito grande. E depois vivo também numa zona do Parque Arqueológico do Côa. Não eram os homens das cavernas, mas eram os paleolíticos que saíram das cavernas e fizeram as suas gravuras. Portanto, não sei se estou dentro da caverna ou já saí da caverna, mas pode ser o nome.

Como é que foi isto? Como é que se tornou, de repente, Homem das Cavernas?

Eu acho que isso é uma brincadeira por causa de uma adega subterrânea que fiz na minha quinta. Se uma pessoa trabalha as vinhas de uma certa forma, como nós trabalhamos, numa agricultura, digamos, biológica, mas também para além disso, o vinho depois, se pegarmos nessas uvas e pusermos numa espécie de fábrica, digamos, uma adega muito moderna, não fazia muito sentido. Tem que percorrer sempre o mesmo tipo de caminho e achei que o vinho também deveria se sentir bem dentro da rocha para se manter no seu ambiente. E depois também por um efeito de temperatura, evidentemente, não ter que usar ar-condicionado e que naturalmente a adega tivesse condições de temperatura e de umidade perfeitas para o vinho.

É filho de João Nicolau de Almeida, um dos mais ilustres enólogos portugueses daquela geração, criador, entre muitas outras coisas, do Vinho Duas Quintas, da Ramos Pinto e um profundo conhecedor do Douro. O que ele disse quando entrou na sua adega pela primeira vez, nesta adega cavada na rocha?

Adorou. Evidente que nem sempre estamos de acordo. Mas teve uma boa surpresa. Porque a adega não é só por ser escavada na terra, tem uma série de características especiais que fazem daquela adega um sítio especial.

Como por exemplo?

A adega tem cubas em granito, os calcatorium. A adega é experimental. E ele também, à altura dele, mas com um nível bastante maior, experimentou muito. Investigou muito, foi sempre o trabalho dele. Ele gostou dessa parte também da procura. No fundo, é a procura constante.

No fundo, é manter-se próximo da terra.

Sim. Para mim é a terra. Havia uma coisa que a minha avó dizia-me: "Mateus, põe as mãos na terra, que aquilo dá energia". Ela gostava muito de jardim. "Põe as mãos na terra que ela dá energia". E a verdade é que o que mais me interessa é a terra, a rocha.

Que avó?

Maria José Ramos Pinto Rosas, mãe do meu pai.

Uma mulher muito singular para a época.

Era. Foi uma mulher especial. E estar casada com alguém como o avô, que também era muito excêntrico, não era fácil. Mas era uma mulher muito especial. Gostava muito dela.

Só para as pessoas nos entenderem, estamos a falar do seu avô, Nicolau de Almeida, o cheirista provavelmente mais famoso da sua geração, responsável pela criação de imensos vinhos, incluindo o mítico Barca Velha.

Certo.

Que era um homem muito excêntrico.

Era. Muito excêntrico.

É verdade que a sua avó, quando eles iam ao Douro e precisavam de pernoitar em alguma pensão, tinha de sair do carro primeiro para ir cheirar os quartos.

Eu conheço essa história, mas é uma passagem por Espanha. O meu avô dizia que Espanha cheirava a fritos e, portanto, não gostava e andava com um lenço, com perfume para não cheirar os fritos de Espanha.

Herdou muita coisa desse seu avô. Esta paixão pelos vinhos, por exemplo.

Tenho muito por onde herdar. Realmente, a minha família, por todos os lados, está ligada ao mundo do vinho. Mas não sei, isto do vinho tem sido uma coisa bastante natural na nossa família, não há uma ideia ou uma vontade. "Quero fazer vinhos". Em miúdo não pensava que queria fazer vinhos.

Queria fazer o quê em miúdo?

Também não sei. Por isso é que se calhar faço vinhos.

A maioria das famílias nem nunca foi a uma adega. Na sua é o contrário. Entre primos e tios, quantas adegas conta na família?

Não sei, tinha que fazer as contas, mas muitas. Uma, duas, três, quatro, cinco. Não sei. Bastantes.

Difícil é achar quem não esteja ligado ao vinho.

Sim. Realmente, parece que é uma frouxa de gravidade que vai-nos atraindo a todos para este mundo. Alguns lá se escapam.

Tri-neto, bisneto, neto e filho de um enólogo, irmão de um enólogo, casado com uma enóloga. Vocês lá em casa falam de alguma coisa que não seja vinho?

É aborrecido. Às vezes é monótono. A minha mãe às vezes nos jantares diz: "Chega, vamos falar de outra coisa", porque realmente o vinho está sempre muito presente. Mas sim, falamos montes de coisas, de tudo e mais alguma coisa. Arte. O vinho dá para filosofar, dá para viajar e falar sobre várias coisas. Música, gostamos muito de música.

Que género de música é que gosta?

Ouço de vários géneros. Eu toco baixo, não muito bem, mas música que tenha um baixo presente. Jazz, rock, rap, eletrónica, ouço tudo.

A última vez que nos vimos foi num jantar da Confraria do Vinho do Porto. Também deu para ver que era um bom bailarino.

Certo. Não, não sou nada bom bailarino. Isso é o efeito do vinho do Porto, o efeito do Dionísio, que nos leva a expressar melhor as nossas ideias e a certa altura tem que ser pela dança. Não há outra maneira.

Neto Fernando Nicolau de Almeida, autor do Barca Velha, filho de João Nicolau de Almeida, criador do Duas Quintas. Sente a pressão de ter de criar um ícone?

Agora não, mas quando comecei a trabalhar, evidentemente que via. Ainda por cima, eu vivi cinco anos em França. Isso fez-me distanciar muito da realidade aqui em Portugal. Por exemplo, o meu irmão estudou na UTAD, em Vila Real, e sentia mais isso. Mas evidente, quando voltei para o Douro, as pessoas falam tanto que uma pessoa sente: "Caramba, o que é que eu faço agora?". Pode dar vontade de fazer mais e de procurar mais. Pressão já não há. Não sei se é bom ou mau isso. É bom ter um bocadinho de pressão.

Falávamos há pouco da sua adega cavada na rocha à maneira de uma caverna, mas com nome de peixe.

É, pois.

Sável. Adega do Sável.

Adega do Sável.

Por que este nome?

Por duas razões. Uma, porque eu sou um pouco Sável. O Sável é um peixe que vive no mar e vem procriar nos rios. E eu também nasci à beira-mar e depois fui procriar no interior, rio acima. Mas também porque representa algo que para mim tem um grande significado, que é o rio vivo. A grande parte dos rios hoje em dia na Europa estão bloqueados por barragens e toda a vida marítima que vinha procriar rios acima, neste momento não está a fazer esse percurso. O Sável é um peixe que foi muito importante em toda a história. Aliás, em escavações, tenho amigos arqueólogos que me mostraram espinhas de Sável. É um peixe que alimenta muito. É gordo. Um bom Sável alimenta muita gente. Hoje em dia é um peixe esquecido, mas que foi superimportante em toda a Europa. Na Europa e nos Estados Unidos. O nosso Sável é Alosa alosa e nos Estados Unidos é Alosa sapidissima.

É o que vocês querem também para os vossos vinhos, que eles sejam importantes em Portugal, em toda a Europa, nos Estados Unidos?

Sim, primeiro Portugal, mas evidentemente que em todos os países é importante. É uma maneira de comunicar Portugal. O vinho é uma mensagem numa garrafa, é um produto de transformação humana, é um produto em que há uma ligação humano-natureza bastante especial. Não há muitos produtos que tenham esta ligação de comunicação do humano com a natureza. E essa informação está aqui escondida dentro de uma garrafa e enviá-la para a China ou Estados Unidos é um bocado da nossa alma e da nossa terra que vai por aí afora a falar sobre nós.

Qual é a mensagem que vai numa garrafa de vinho feita por si?

Eu, em relação aos vinhos, sou bastante interiorista ou intimista. Ponho bastante da minha pessoa Que não sei bem o que é, mas ponho tudo. E o meu trabalho tem sido passar a minha identidade para a adega, para os vinhos, para a vinha, para o solo e tentar comunicar o máximo possível com o solo, com a vinha, com o líquido, com as uvas. Não é uma coisa muito simples de explicar, é algo que se sente. Mas depois, evidentemente, à volta de tudo isto, há coisas mais, não supérfluas, mas como o tipo de agricultura em que se faz, que se utiliza, os tipos de vinificação, evidentemente, e depois toda uma história que vem por trás de mim. Evidentemente, eu não comecei do nada. Tenho informação genética que também, de alguma maneira, transmito.

Numa garrafa há muito passado e muito presente.

Grande presente, exatamente. E um olhar para o futuro também.

A adega é o prolongamento da vinha. É na vinha que tudo começa.

É, claro. É no solo. Eu sou um solista. Depois há o clima, tem uma influência enorme no vinho. Aliás, faço um tríptico sobre o clima, que é o Transdouro Express, sobre os três grandes climas do Douro, que é o Baixo Corgo, Cima Corgo, Douro Superior. Mas para mim, tenho uma atração muito grande sobre o solo e tenho trabalhado muito sobre isso. E não só eu, em conjunto com a minha mulher, Teresa, com os meus irmãos, meu pai, amigos, artistas. É algo que procuro sempre.

Isto é o regressar à terra.

Sim.

Há quanto tempo aposta na agricultura biológica?

Desde que comecei a trabalhar por conta própria, isso foi em 2003. Vamos lá ver, também vivo numa zona que é mais fácil trabalhar em agricultura biológica, o Douro Superior, devido ao clima. Se bem que este ano, por acaso, não foi fácil. Mas agricultura biológica obriga-nos a ligar-nos um bocadinho mais à natureza que nos rodeia e ter um bocadinho mais de humildade em relação à natureza e não sermos tão impositivos. Somos sempre impositivos, a nossa existência é sempre impositiva.

Fala-se muito de vinhos naturais, estão na moda.

Sim, acho que sim. Acho que estão, talvez.

Por outro lado, também ainda há um bocadinho de preconceito.

Há sempre preconceitos para todos os lados. Eu não entro nas definições, não defino nada dos meus vinhos para um lado, para o outro. O vinho é bom, quando é bom. Tanto faz se é agricultura biológica, biodinâmica, natural, convencional. O vinho é bom se ele é bom.

É o mais importante.

Exatamente. Não estou dentro de nenhum campo.

Na Adega do Sável, tudo respira. Há mais xisto do que cimento. Há uma ligação muito orgânica com o solo, como falávamos. Há uma espécie de liberdade. Liberdade é uma palavra importante para si.

Super. E super difícil de batalhar para essa liberdade. Aliás, o Dionísio com as suas bacantes veio, no fundo, dizer isso, trazer liberdade. Desorganizar a vida organizada do poder institucional. Ele vem desorganizar tudo isto. No fundo, eu acho que qualquer pessoa que trabalha no vinho procura um bocado a liberdade. O vinho é algo que nos liberta a produzir e depois a beber também.

E assim chegamos ao final da primeira parte. Regressamos já de seguida para continuar a conversar com Mateus Nicolau de Almeida, autor dos vinhos da Adega do Sável, no Douro Superior, e descobrir como é que se faz vinho dentro de uma pedra. Haverá ainda tempo para a Saca-Dúvidas, o momento certo para conhecer o que precisa para brilhar na hora de sacar a rolha. Até já. Bem-vindos de volta ao Tinto no Branco, um podcast observador. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e aqui comigo está Mateus Nicolau de Almeida, autor dos vinhos da Adega do Sável, que muitos apelidam Homem das Cavernas. Daqui a pouco teremos Saca-Dúvidas, o espaço em que todas as semanas partilhamos dicas úteis para a hora de abrir uma garrafa. Mas antes, vamos começar pelo vinho que Mateus nos trouxe. Assim de repente, qual é a comida perfeita para este Ermitas Amontiliá?

Para mim, eu bebo de várias formas, sozinho, acompanhado, carne, peixe. Adoro brancos. Tive uma formação em França com uma pessoa que foi um grande investigador sobre os brancos, que se chamava Denis Bourdieux. Não sei se foi por ele, mas Tive desde sempre uma grande paixão pelos brancos. Gosto muito de brancos. Aliás, os brancos num passado já distante, eram os grandes vinhos, eram os vinhos de topo. Chamavam-lhe os vinhos dos bispos, os bispos é que bebiam os brancos. Eram os mais caros. Mas isso depois nos últimos 200 anos, 200 e tal anos, passou para o tinto. E depois eu aterrei numa região que por mais estranho que pareça, ali em Foz Côa, zona do Douro Superior, é uma região que foi de brancos. Aliás, quando não estava dentro da denominação de origem, havia muito branco lá. Muito por causa desta casta, o rabigato, que aguenta muito bem o calor. E já o meu avô, o meu tio-avô, o meu pai, havia muito branco ali na zona de Mucharrata.

Antes de começarmos a gravar, estava muito indeciso com que vinho abrir. Trazia dois. Este Eremitas e o Quinta do Monte Xisto. É um homem dividido.

Sim, tenho uma vida um bocado esquizofrênica, tenho o meu cérebro dividido em dois. A Quinta do Monte Xisto é a minha família, o meu pai, a minha mãe, os meus irmãos. Uma quinta que o meu pai comprou em 93 e que começamos a plantar em 2005. É algo que para mim tem uma força brutal, é muito presente na minha vida. Nós somos uma família que sempre fomos bastante unidos, damo-nos bem, divertimo-nos. E depois também é a parte em que existe uma ascendência. Não é só a minha geração, é a geração do meu pai, e depois o meu pai também tirou ideias da outra geração acima, quer dizer, é um vinho mais geracional, intergeracional. E onde trabalhamos também agricultura biológica. Portanto, estou dividido entre isso e os vinhos Amestoy e Almeida. Amestoy é a minha mulher, a Teresa, em que fazemos uma série de vinhos, em que procuramos respostas e dar a conhecer os diferentes solos, climas, diferentes tipos de vinificação. E também, recentemente, os vinhos de Almeida, que é uma região que poderia ser uma própria denominação de origem, tem uma característica muito especial.

Eremitas, é assim que o Mateus e a Teresa se veem.

Um bocado. Nós fomos viver para Foz Côa há 22 anos, o interior de Portugal é uma parte de Portugal bastante afastada de tudo, mas que tem falta de meios para várias coisas, mas tem outros pontos positivos. Lá está, o eremitismo, deixar o ruído, não ter tanto ruído à volta para poder pensar.

É casado com a Teresa Amestoy, enóloga e oriunda do País Basco, e são sócios, trabalham juntos na Adega do Sável. Trabalhar com o marido ou com a mulher pode ser complicado. Como é que gerem?

Mal. Não é fácil, claro que não é fácil. Tem muitos pontos positivos, mas pontos negativos, porque nós também temos a nossa vida com os nossos filhos.

Quantos filhos é que têm?

Temos três filhos. Uma já saiu, já voou para fora de casa e os outros dois ainda vivem lá. E claro que tem as suas dificuldades, porque a gente tem que separar a parte relação de casal para relação laboral, tem que estar atento. Mas é tudo como na família, também temos que fazer um esforço entre irmãos.

Vocês conheceram-se onde?

Em Bordéus, em 96. A lavar cubas. Uma estágio.

A lavar cubas?

Sim.

Eram os dois estagiários?

Sim. Amor à primeira vista. Até agora.

E conseguiu trazê-la para Portugal, para o Douro.

Sim, ela desde sempre gostou muito de Portugal. Os pais dela também já vinham a Portugal e conheciam, o que é coisa rara em Espanha, porque às vezes Espanha tem pouco conhecimento de Portugal. E fascina-lhe esta autenticidade deste país.

Estudou em Bordéus?

Sim.

Que tal foi a experiência? Conte-me uma história desses tempos.

Foi uma maravilha. Na altura, Bordéus era, não sei agora como é que estão as coisas, mas era uma capital do vinho, quer dizer, do estudo do vinho. Tinha a Faculdade de Enologia, mas mesmo as escolas técnicas e práticas também eram muito boas, respirava-se vinho.

E foi divertido.

O primeiro intuito era sair de Portugal, dar uma volta. Fosse em Bordéus ou fosse noutro lado. Calhou Bordéus, porque o meu pai já tinha estado lá, conhecia lá algumas pessoas, mas foi mais importante também sair de Portugal em 96. Não era o Portugal de agora e foi uma maravilha ver o mundo.

E a seguir a Bordéus, foi viajar e conhecer adegas.

Sim, e mesmo estando lá também viajei bastante. Estive em vários sítios em França, estive em vários sítios em Espanha, na Califórnia, no Chile.

O que é que o impressionou mais?

França. Nos vinhos, França, tudo me impressiona. A cultura vínica deles é extraordinária. De um lado ao outro país, continuo a procurar informação. É um país que realmente tem um know-how e tem um gosto na agricultura e uma valorização da agricultura fortíssima.

Quando está assim em casa com amigos, qual é a história dessas viagens que lhe vem à memória?

Nenhuma relacionada com o vinho. Por exemplo, a viagem que fiz depois de estar na Argentina, no Peru e na Bolívia foi fantástica. Tenho a imagem gravada do Lago Titicaca, que é algo inexplicável.

Força da terra.

Lá está, força da terra. Voltamos sempre a isso. Parte telúrica.

E vamos voltar outra vez à família. Em miúdo, como é que era ser filho do João Nicolau de Almeida? Ele levava-o para as adegas, brincava muito, lia histórias, como é que era?

Nós adorávamos ir para o Douro. Aliás, passávamos o tempo inteiro a correr atrás das vinhas, atrás das pessoas que trabalhavam. Sempre nos fascinou, a mim como aos meus irmãos. Aliás, quando chegávamos das férias e voltávamos ao Porto, ficávamos com a ideia de que se as pessoas soubessem de onde é que eu vim, nem consigo explicar aquele mundo que havia lá.

Era um mundo distante.

Era um mundo distante. Era um mundo mágico. E adorávamos trabalhar. O meu pai tinha aquelas microvinificações e estagiários a trabalharem com ele para fazer as suas investigações e também queríamos ajudar.

O seu primeiro emprego a sério foi com o seu pai, na Quinta do Monte Xisto ou não?

Sim, na Quinta do Monte Xisto. Em 2013 ainda não estavam plantadas as vinhas, mas sim, já estava a ocupar-me na quinta. Mas o primeiro trabalho foi com outros sócios que tinha, com um projeto que se chamava Semuchagate, que foi muito interessante, mas nunca trabalhei com o meu pai. O meu pai trabalhava na Ramos Pinto. Eu não trabalhei na Ramos Pinto.

Quando é que fez o seu primeiro vinho?

O meu primeiro vinho foi em 2013. Um ano de extremo calor. As temperaturas eram tão elevadas que pelo Douro inteiro as fermentações não chegavam ao fim, não terminavam. Comparava-se a um ano de que se fala muito, 1820, em que naturalmente as fermentações pararam.

É verdade que tem um vinho que faz estágio no granito?

Sim. Lá está a busca telúrica. Granito e agora estou a terminar a cuba em xisto, cavada na própria rocha. E então esse vinho é um vinho engraçado, que é um vinho que se chama Dwr. Além do vinho estagiar durante dois anos na cuba de granito, portanto, fica dois anos de estágio com as massas, dois anos de maceração sem lhe tocar. Às vezes damos uma volta, porque aquilo tem uma artimanha para se poder rodar aquele calhau gigante de 3000 kg. É mais uma das minhas procuras. Nesse caso era para saber se com os taninos da película e os taninos das grainhas podia haver a estabilização de cor e de aromas, etc.

E lá voltamos nós ao contacto com a terra. Inventar é o que mais gosta de fazer.

Não sou engenhocas, não tenho jeito nenhum de mãos, mas gosto de pensar e ter ideias.

Isso faz-

E aplicá-las. O problema é que tens de aplicá-las e depois não há tempo para tudo.

Isso faz pensar no seu avô. Voltamos ao seu avô Nicolau de Almeida, que para fazer o Barca Velha mandou ir um caminhão carregado de gelo de Matosinhos até ao Douro. Herda um bocadinho desta singularidade?

Não sou como o meu avô, nem pensar. O meu avô era uma pessoa extraordinária. Mas sim, tanto o meu avô como o meu pai, na parte dos vinhos, sempre foram ultracuriosos. Isso eu herdei, essa curiosidade. Não é copiar o que se fez no passado, mas sim ter a mesma ideia de fazer e procurar novas formas de interpretar o Douro, principalmente nos vinhos secos, porque os vinhos do Porto estão bem mais estudados.

Em casa do seu avô, quando o Mateus era pequeno, não havia muito o hábito das crianças frequentarem a sala dos adultos, mas chegou a privar com este avô.

Sim. Não muito. Ele morreu eu tinha 20 anos. E era uma família grande e os avós estavam lá em cima. Não era uma coisa muito chegada, mas sim, chegamos a privar e às vezes os meus pais saíam para férias e deixavam-nos lá e era muito engraçado.

Era uma casa com muita vida, com muitas festas.

Sim, uma casa sempre muitas festas. Muita gente, amigos, primos.

Vocês jantavam à mesa com os avós?

Nas festas, depende. Íamos começando a subir na escala, mas sim, era uma mesa ao lado e nos dias especiais tínhamos que ir de smoking. E depois fazíamos uma coisa que era muito engraçada. Nos Natais, depois do jantar, fazíamos teatros. Os netos tinham que fazer teatros para os mais velhos. E era sempre muito engraçado. Depois aparecia o Pai Natal, depois havia os discursos do meu avô, que eram sempre fora de série, impressionantes. E depois os meus tios também brincavam muito.

É verdade que o seu avô tinha uma piscina onde só dava para ele se deitar e abrir os braços em forma de T?

Era. Ele mergulhava e no final abria os braços e à frente havia um padrão dos descobrimentos. Tu já tinhas chegado lá. Mas depois também tinha muralhas, castelos. Ele adorava a época medieval. Aliás, nos nossos vinhos da Nicolau de Almeida, nos vinhos do Porto, usamos um desenho dele, que era o provador medieval Em que ele tem um provador vestido de uma armadura a provar vinho.

Da parte de pai, tudo é vinho. E da mãe?

Também. Parte da minha mãe é Cabral. Teresa Voo foi uma pessoa muito importante no Douro também, com muita investigação. Era proprietária de quintas, a Quinta do Monsul, a Quinta do Caxão.

Ainda é descendente do escritor Eça de Queiroz. Leu os livros todos dele?

Todos não, mas bastantes. E é um escritor fantástico.

Como é que foi na escola quando a professora mandou ler "Os Maias"? Ficou todo orgulhoso?

Sim, fiquei orgulhoso.

Contou à professora que ainda era família?

Não. Tinha um bocado de vergonha, mas eles iam pelo nome da minha mãe. Acho eu, mas não contava. Há uma certa vergonha.

Mateus, quando é que percebeu que queria fazer vinhos? Ou não tinha escapatória?

Quando saí da universidade não fazia a mínima ideia do que queria fazer. Gostava de Economia. A Economia era uma coisa que eu gostaria ainda de poder estudar, mas não tinha nada na cabeça. E fui fazer um estágio para Bordéus e fiquei encantado com aquilo tudo, de estar ali. Ainda por cima na vindima recebi uns francos, que para mim era imenso dinheiro na altura.

Lá está o gosto pela Economia.

O gosto pela Economia, exato.

Qual é o seu maior sonho?

Sonho? Nos vinhos?

Na vida.

Na vida? É relaxar. É ir para um mosteiro. Através dos vinhos e da História, comecei a investigar muito como é que se vinificava em meados do século XX, princípio do século XX, e depois andei a ir para trás e cheguei aos monges, às ordens monásticas, principalmente a Ordem Cisterciense, e fiquei com uma paixão enorme por todo o trabalho que eles fizeram na Europa ligado à agricultura, e neste caso, ligado à vinha. E a partir daí comecei a ir visitar mosteiros que estavam ainda ativos. Em Portugal há muito poucos mosteiros ativos, mais em Espanha e em França. E depois a certa altura fui para um mosteiro e deixaram-me entrar. Era um mosteiro que tinha que se ir de jipe para ali acima e fiquei lá. A ver se aprendia um bocado com eles. Eles não falavam, eram ermitas. Só que em vez de aprender sobre vinhos, aprendi sobre outra coisa, que é o silêncio, que é viver a um tempo humano e a um ritmo humano. E essa sensação é fantástica. Isso é um sonho, poder ter essa sensação durante mais tempo, não só quando estou lá nos mosteiros.

Ter domínio sobre o tempo.

O domínio não, mas pelo menos andar a par dele. E não andar atrás ou à frente.

No seu site tem uma frase que é: "O trabalho da vinha é algo infinito". Eu cheguei a pensar se isto seria só uma questão de marketing, agora parece-me que tem muito a ver com a sua relação com o tempo.

Sim. Infinito, completamente infinito. Parece um bocado básico ou estúpido dizer isto, não sei se é, mas a impressão que eu tenho é que cada vez percebo menos o da vinha. É verdade. Cada vez que vou, cada ano que passa e olho para a vinha, nem entendo nada disto, não percebo nada como é que isto funciona, isto é ultracomplicado, é uma coisa ultracomplicada. As plantas são ultracomplicadas. Se estudarmos a Biologia e como é que aquilo tudo funciona é extraordinário, muito complicado e todos os anos muda. É infinito. Por isso é que realmente o mundo do vinho acho que é um mundo que trabalha muito de geração para geração, porque é infinito. Sempre a procurar.

O tempo passa a correr e o nosso já chegou ao fim.

Já chegou ao fim.

Já a seguir, a rúbrica que nos ajuda a saber o que fazer na hora de sacar a rolha. "Saca Dúvidas". Mateus, a temperatura dos vinhos é realmente importante?

Claro que é, muda tudo no vinho. Depois também há gostos. Por exemplo, eu, no meu caso, no branco, sirvo a uma temperatura mais alta do que é o normal. Para o sentir mais. Lá está, como eu acho que é um vinho sério.

Gosta de servir a que temperatura, mais ou menos?

Não sei exatamente, mas para cima dos 13º. Também depende se é verão ou inverno. E os tintos um bocadinho mais frescos. Muitas vezes vê-se nos restaurantes temperaturas de vinhos um bocado altas. É importante que quando está calor, o tinto seja servido a uma temperatura mais fresca.

Mateus, ofereceram-me duas garrafas de um vinho maravilhoso e dizem-me que estará ainda melhor daqui a cinco anos. Como é que devo guardar as garrafas?

Deitadas, ao escuro, com pouca oscilação de temperatura.

Deitadas para o líquido ter contacto com a rolha?

Sim, exatamente. A não ser que seja um vinho como um Madeira, um Xerez, quer dizer, isso é de pé.

E assim chegamos ao fim deste "Tinto no Branco", com Mateus Nicolau de Almeida, autor dos vinhos da Adega do Sável, no Douro Superior, e desenvolve com a família os vinhos da Quinta do Monte Xisto. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e todas as semanas trago-vos uma pessoa, uma história do mundo do vinho. "Tinto no Branco" passa na Rádio Observador às quintas-feiras depois das 11 da noite e está sempre disponível em podcast. Siga, partilhe, esteja e brinde conosco. Obrigada, Mateus.

Muito obrigado. Prazer.