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Hoje vamos falar de algo que afeta muitas pessoas em silêncio: o medo constante de ter uma doença grave. Sabia que sentir palpitações, tonturas ou dores nem sempre significa uma doença física, mas sim, ansiedade. Comigo já está o médico de família da CUF, o doutor João Marques Santos. Bom dia, doutor.

Olá, bom dia.

Afinal, o que é esta ansiedade com a saúde?

A ansiedade com a saúde é aquilo que às vezes popularmente chamamos de hipocondria. Acontece quando uma pessoa vive num estado de vigilância constante sobre o próprio corpo. Parece que qualquer sinal perfeitamente normal ou até passageiro, como uma dor muscular, uma dor de cabeça ligeira, ou um bater do coração um bocadinho mais forte, é logo interpretado como um perigo iminente.

Mas para quem está a passar por isso, a dor ou o mal-estar são muito reais. Parece uma coisa gigante. Como é que uma pessoa pode perceber se é apenas ansiedade, entre aspas, ou se realmente tem algum problema de saúde?

Isto é a grande questão, Maria João. Na verdade, este sofrimento é 100% real. Não é uma invenção, ou então apenas ansiedade, como também às vezes se tem tendência a dizer e que só por si é bastante redutor.

Muito.

Esta ansiedade ativa o nosso sistema de alarme corporal. O cérebro fica a libertar mais adrenalina, o coração acelera, a respiração fica mais curta, os músculos ficam tensos e podem até surgir tonturas ou formigamentos.

E um ataque de pânico.

Exatamente. Isto no limite.

Sim.

A diferença é que numa doença física costumam haver outro tipo de sinais, um bocadinho mais objetivos e persistentes, que o médico consegue identificar na sua observação ou então até em exames complementares.

Claro.

Esta ansiedade, os sintomas tendem a oscilar muito, intensificam-se quando pensamos mais neles e abrandam quando nos distraímos ou quando conseguimos relaxar.

E o que a pessoa pode fazer no momento em que sente esse pânico a instalar-se? Há dicas práticas, doutor? Que é isso que às vezes faz falta naquele momento.

Pode fazer a diferença. Há três regras fundamentais que a evidência nos mostra que podem funcionar bem. Em primeiro lugar, evitar o doutor Google. Porque pesquisar sintomas na internet vai amplificar o alarme e vai nos dar resultados, sempre os piores cenários.

Temos logo a pior coisa do mundo.

Porque dá mais cliques. Praticar também algo que é a respiração abdominal. Quando há uma ansiedade crescente, fazer uma pausa, inspirar devagar pelo nariz durante quatro segundos, deitar o ar fora pela boca durante seis segundos, e isto vai desligar o alarme do nosso cérebro.

Até porque estamos concentrados nessa respiração.

Exatamente. Só o contar dos segundos já é quase libertador. Depois, quebrar um ciclo de verificação. No fundo, estar constantemente a medir a tensão, a ver se o pulso está a oscilar, se verificar o nosso corpo para ver se temos alguma alteração. Ou então até junto dos familiares. Quanto mais verificamos, mais ansiosos vamos ficar.

E como é que a relação com o médico de família pode ajudar a quebrar este ciclo?

Sim, aqui o médico de família é um porto de abrigo. É fundamental ter uma conversa aberta, sem medos. E aqui não é só pedir exames. O médico vai ter que escutar, ouvir, compreender o que o doente está a sentir e perceber estes sinais do corpo. Se estabelecermos uma relação de confiança, vamos conseguir definir um plano, fazer avaliações necessárias. Conseguimos perceber o que se está a passar sem fazermos exames em excesso e depois chegar a uma conclusão. Sobretudo, tranquilizar o doente e, eventualmente, se for necessário, tratar esta ansiedade. Sobretudo pensar que não vamos dizer a uma pessoa que tem um braço partido: "Vamos nos acalmar, que isso passa".

Exato, saber distinguir.

Exatamente. Na verdade, existem sintomas e doenças que temos que tratar. Se encararmos a ansiedade da mesma forma, vamos conseguir ser objetivos e ajudar a pessoa. A ansiedade é uma doença como qualquer outra, tem tratamento e este tratamento vai fazer com que os sintomas melhorem e até desapareçam.

Mas é um tratamento que será feito para sempre ou até só a situação melhorar?

Depende muito das situações. Pode ser um problema de saúde que fica tratado em alguns meses ou uma doença crônica que necessita de medicação crônica, como por exemplo, hipertensão ou diabetes. Em ambos os casos, o objetivo é que a pessoa não tenha sintomas e, como noutros problemas de saúde, se for detetado mais cedo, será mais fácil de tratar.

tratardaSaude@observador.pt, para onde pode enviar as suas dúvidas ou até sugestões. Se preferir, também pode enviar áudio por WhatsApp para 910024185. Doutor João, marcamos consulta amanhã mesmo hora. Até amanhã.

Até amanhã. Obrigado.