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Cá estamos nós mais uma vez, caros ouvintes, para levarmos até si um conjunto irrepreensível de fatos praticamente inúteis e, sempre que possível, acompanhados de umas músicas foleiras, daquelas que toda mundo diz: "Eish, há anos que não ouvia isto" ou "Costumava ouvir isto nas férias em casa do meu tio Adelino, que abria Minis com os dentes".
Muito bem, estão feitas as apresentações. Então hoje vamos começar por onde?
Bem, Nelson, não tinhas maneira de saber isto, mas no momento em que estava a escrever esta parte do texto, não fazia a mínima ideia por onde começar. Andei a ver efemérides, a ler notícias em todos os sites, a tentar perceber que personalidade se tinha destacado e nada. Até que pensei: vou pôr o Nelson a dizer coisas enquanto penso na melhor maneira de arrancar o episódio de hoje, e lembrei-me que se calhar gostarias de dizer isto.
Sim. O meu nome é Nelson Ferreira, gosto de molotov e de ovos escalfados. A minha banda preferida são os Aerosmith e uma vez desmaiei num concerto dos Roxy Music.
Espera, disseste Roxy Music?
Sim, foi o que tu escreveste aqui pra eu ler.
Sim, claro, desculpa. Eu sei. Mas então é isso, vamos começar por aí. Vanessa, tens a bondade de apresentar os Roxy Music aos nossos ouvintes?
Vamos lá a isso. Os Roxy Music são uma banda britânica formada em 1970 por Bryan Ferry, Graham Simpson, Phil Manzanera, Andy Mackay e Paul Thompson. Apesar de terem tido um sucesso significativo, só por uma vez é que chegaram ao topo das tabelas e foi com esta canção. Um original de John Lennon, incluído no álbum Imagine, de 1971, e que nunca tinha sido lançado como single antes desta versão dos Roxy Music.
E é uma canção que fala sobre um homem ciumento, coitadinho. O ciúme, o demónio de olhos verdes. Eu por acaso não sabia qual era a origem desta expressão e por que é que chamamos ao ciúme um monstro de olhos verdes, mas vem certamente de Shakespeare, que a usou duas vezes: no Mercador de Veneza e em Otelo.
As coisas que tu sabes.
Já o nosso Francisco José dizia que não era bem assim. Os olhos verdes eram traição, os olhos azuis é que eram ciúme. Contradições cromáticas.
Olhos azuis são ciúme e nada valem para mim. Olhos negros são queixume, duma tristeza sem fim.
Mas ele derretia-se mesmo era com os olhos castanhos, de encantos tamanhos, estrelas fulgentes, brilhantes, luzentes. São risonhos, são sonhos. Bem, tanta coisa. Enfim, a beleza está nos olhos de quem a vê e há gostos pra tudo.
E não era o único candidato encantado, aliás, por olhos castanhos. Aqui temos outro, Van Morrison.
Uma canção que esteve mesmo pra se chamar Brown Skinned Girl, porque era uma canção com o ritmo jamaicano e Van Morrison estava a pensar numa morena, morenita.
Bem, inevitável. Tínhamos de chegar a Marco Paulo.
E por que não? Marco Paulo é o grande patrono desta rubrica. Mas está bem, pronto. Continuemos aqui pelo reino da oftalmologia.
Onde estão teus olhos negros? Onde estão teus olhos negros? Que eu de perto vi antes de dormir e agora estão longe daqui.
Que maravilha de canção! Vanessa, vamos lá esclarecer uma vez mais os nossos ouvintes. Quem são estes senhores à procura de olhos negros? Eu espero que não seja de pancada.
Muito bem. Uma banda de rock e pop formada no Rio de Janeiro em 1964, que não tem o nome em português do Brasil, mas sim em estrangeiro, são os The Fevers. É uma banda associada ao movimento da Jovem Guarda.
Jovem Guarda, que era o nome de um programa de televisão de uma emissora do Rio de Janeiro em 1965 e que divulgava o tipo de música que a malta jovem gostava, estilo Beatles, iê-iê-iê e cenas bué à frente pra aquela época.
E quem é que apresentava o programa? Nada mais, nada menos do que o rei.
O Ed Sheeran?
Não, esse é o rei da rádio. Falamos dele ontem.
Sim.
E é agora. Naquela altura, ele ainda nem sequer era um projeto de gente.
Rei, rei. O Pelé?
Eu sei que há reis para todos os gostos, mas rei da música brasileira, desculpem lá, mas só há um: é Roberto Carlos e mais nenhum.
Estou amando loucamente a namoradinha de um amigo meu. Sei que estou errado, mas nem mesmo sei como isso aconteceu.
Ora, esta foi uma das canções interpretadas por Roberto Carlos no programa Jovem Guarda. E digamos que é uma canção de ciúmes ao contrário, porque aqui alguém se apaixona pela namorada do amigo. Quem nunca?
Mas ele tem um rebate de consciência, não é? Tem medo do que vão pensar dele, diz que vai à procura de alguém que não tenha ninguém, reconhece que vai sofrer, mas o que é dos outros não é pra se ter.
No fundo, é um rapaz decente e que aprendeu bem a lição bíblica: não cobiçarás a mulher do próximo.
Bem, voltando aqui um pouco atrás, a febre do iê-iê-iê não atingiu apenas o Brasil. Ainda sobre o grupo The Fevers, diga-se que no início se chamavam The Fenders, só que depois perceberam que Fender era uma marca registrada e lá tiveram de alterar o nome da banda.
Mas como dizias, a febre do iê-iê também chegou a Portugal com influência dos Beatles, pois claro, e de todas as muitas bandas que nasceram nessa altura, como cogumelos, nenhuma teve tanto sucesso como os Shakes, a banda de Paulo de Carvalho e Carlos Mendes. "Missing You" ficou pra história. Sem querer desfazer dos Shakes, de Paulo de Carvalho e de Carlos Mendes, que se tornaram figuras de referência na música portuguesa, esta que vamos ouvir agora é, para mim, a melhor canção portuguesa dos anos 60. A canção que fazia um elogio aos empregados da Carris e à sempre tão maltratada figura do revisor. Aqui está "O Autocarro do Amor".
E tivemos de esperar quase 50 anos para que a Carris e os revisores voltassem a ser tratados condignamente pela música portuguesa. "O Pica do Sete", de António Zambujo, uma celebração do amor e da arte esquecida de picar o bilhete.
De manhã cedinho, eu salto do ninho e vou pra paragem. De bandolete, à espera do sete, mas não pela viagem. Eu bem que não queria, mas um certo dia a vi passar. E o meu peito cético, por um pica de elétrico, voltou a sonhar.