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Olá, bem-vindos à Vício Suave. O meu nome é Miguel Santos Carrapatoso, sou jornalista e editor adjunto de política do Observador. Tenho ao meu lado o melhor socorrista da telefonia portuguesa, o Miguel Vitério Dias, e as nossas paramédicas de serviço, a Inês André Figueiredo e a Mariana Lima Cunha. É este trio emergente e de emergência que me vai ajudar a explicar uma semana marcada inevitavelmente pelas 11 mortes que terão resultado dos anormais constrangimentos do INEM. Marcelo pediu soluções rápidas, a oposição exigiu que rolassem cabeças, Montenegro segurou a ministra, a ministra empurrou a secretário de Estado, o presidente do INEM queixou-se dos grevistas e os grevistas falam em tremenda cara de pau. É oficial, começou o campeonato do passa-culpas.

Eu prefiro continuar a trabalhar para resolver o que está mal. Não fujo, não minto e não me escondo. Olhos nos olhos digo: saberei retirar as consequências. Eu não me pronuncio sobre tudo o resto.

A consequência política não é mudar pessoas para o problema continuar, é o contrário.

Não dependo deste lugar para sobreviver, nem para viver.

A única declaração que tivemos do senhor primeiro-ministro é uma declaração de desvalorização do tema.

É de tal maneira importante que o meu tempo tem que ser dedicado em mais de 70% a resolver os problemas do INEM.

O governo português e o primeiro-ministro estão a falhar ao país e aos portugueses.

Rapidamente se encontra uma solução, importa aos portugueses.

Entretanto, a Madeira vai continuando a viver o seu enésimo psicodrama. Miguel Albuquerque vai dizendo "daqui não saio, daqui ninguém me tira", mas já se percebeu que é mesmo uma questão de tempo até cair. Pelo continente, mais concretamente no Largo do Rato, as coisas não estão muito famosas. A federação mais influente do PS parece um saco de gados e Leão cedeu finalmente a boquinhar Costa. Ninguém disse que estar na oposição ia ser fácil. Para falar disto e muito mais, venha daí a refeição mais deliciosa da política portuguesa. Miguel Vitério Dias, começo por ti para falar sobre a crise que se vive no INEM, os seus efeitos políticos e para te servir e ajudar a comentar a sopa hospitalar.

É uma sopa desinchabida. Sempre, a sopa hospitalar. Dá vontade de dizer bem-vindos ao governo. Agora é que começam os problemas, depois destes seis meses de arranque.

Não te querendo corrigir, os problemas na saúde com este governo já duram pelo menos desde o verão.

Certo. O pedido de rolarem as primeiras cabeças está a aparecer agora e, portanto, estes problemas de governo a sério, depois de virada a página do orçamento, começam verdadeiramente a aparecer e começam a obrigar Luís Montenegro, nas últimas semanas, a vir defender vários ministros. Começou ainda parece que já muito distante com Paulo Rangel, com a questão das Forças Armadas, depois passou por Margarida Blanco, plomeia ali um Miguel Pinto Luz e entretanto mantemos Margarida Blanco nesse limbo e Ana Paula Martins vai ganhando.

Realmente, agora é que sabemos que temos um governo em funções, porque eu já não me lembrava de metade das polémicas que acabaste de enumerar, o que quer dizer que estamos no tempo mediático normal.

E entretanto, Ana Paula Martins vai ganhando na pole position a Margarida Blanco nas ministras que dão mais dores de cabeça. Pegando num texto que o Observador publicou esta semana sobre a influência de Cunha Vaz, um dos gurus da comunicação, precisamente, que estará a trabalhar com Ana Paula Martins e Margarida Blanco, como escreveste, Miguel.

Obrigado!

Há uma diferença no desempenho de ambas ou no trabalho que Cunha Vaz terá com ambas, que é enquanto Margarida Blanco continua com muitas dificuldades, o problema de Ana Paula Martins não foi propriamente a forma como reagiu do ponto de vista discursivo, retórico, oratório, como quiserem chamar, ao problema do INEM, porque a ministra até pode-se dizer que esteve bem em assumir o problema de frente quando foi ao Parlamento, não esperou por perguntas, respondeu a isso. Agora, o problema é o que está nos e-mails e em tudo o resto para trás e que a partir daí se foi desenrolando um novelo que vai ter que terminar com essa assunção de responsabilidade. A ministra já disse que quer esperar pelos relatórios, mas o PS, e passou mais ou menos escondido, porque foi já na terceira ronda de perguntas à ministra, o PS pelo deputado João Paulo Correia, que é hoje em dia o coordenador do partido na Comissão de Saúde, também avisou logo que os relatórios não indicam culpas propriamente políticas e que essas têm que ser assumidas antes. Portanto, o PS, que diz que não pede cabeças, já não tem muita vergonha em pedir a cabeça de Ana Paula Martins.

Mariana Lima Cunha, imaginando ou admitindo que destes inquéritos que estão em curso venha a ficar comprovado que há uma relação de causalidade entre a greve no INEM e as mortes que infelizmente ocorreram, a ministra da Saúde tem condições para continuar no cargo?

Eu acho muito difícil, não quero ser das pessoas que começam logo a pedir cabeças, mas acho muito difícil num caso destes não rolem cabeças, não sei dizer de quem exatamente, mas da maneira como a informação e o tal novilho se têm estado a desenrolar e o que sabemos. Eu diria sobretudo aquela questão sobre ter havido, de facto, avisos atempados a que o governo aparentemente não deu a atenção necessária. Estava a ler o texto do Miguel também. É um texto muito bom, deviam todos seguir-nos e lê-lo também.

Vocês estragam-me com o mínimo. Eu ia dizer e é de borla, mas não é.

Não é. Sustentem o nosso jornalismo. A questão de a secretária de Estado haver a ideia de que empurrou as negociações para 2026.

Secretária de Estado, para quem nos está a ouvir, foi aquela senhora que apareceu a dizer ou acusar a comunicação social de estar com anemia.

Com anemia, exatamente.

Para quem tiver amnésia sobre o que ela disse, foi isso.

E o jornalismo até tem vários problemas, por acaso anemia acho que não é um deles. Tanto esse facto como Montenegro a dizer que o governo não pode andar atrás de pré-avisos de greve, são coisas que acho que numa situação destas não são exatamente aceitáveis. Nós temos o governo numa fase inicial e óbvio que o estado de graça tinha a terminar algum dia, mas foi um governo que apareceu com muito aquela ideia de apresentar planos e programas. Eu acho que quando se apresenta um plano de ação com não sei quantas medidas, parece dar, de facto, logo uma ideia de dinâmica e de ação, mas agora é a altura, e agora que não estamos todos distraídos com o drama orçamental, em que começa a ver-se que resultados é que há e que culpas é que podem ser imputadas a este governo ou ainda ao governo anterior. Mas dito isto, acho muito difícil que acabe sem nenhuma assunção de responsabilidade. Claro que se tem falado, por exemplo, do caso Marta Temido, que eu acho que ainda assim é diferente, porque Marta Temido já trazia um desgaste muito grande consigo. Não foi propriamente uma decisão inicial e ninguém a empurrou. Ou seja, Marta Temido decidiu, contra a opinião de António Costa na altura, que tinha de sair do governo naquele momento por causa de uma morte. Ou seja, é uma situação completamente diferente. Ainda assim, 11 mortes é uma situação que pesa muito e que não estou a ver como é que o governo pode dar a volta a isso sem sacrificar ninguém.

Inês André Figueiredo, é oficial, o estado de graça do governo terminou?

Pode decretar, vai. Vou deixar essa para o próximo, talvez sejas tu, Miguel. Não, mas eu diria que Ana Paula Martins, obviamente estando baixo de fogo, porque é o rosto mais exposto de tudo isto, veio ela própria meter mais achas para a fogueira e fez algo que de facto só veio prejudicar a sua própria secretária de Estado, chamando a responsabilidade obviamente da tutela do INEM a si. Obviamente justificou isso com a gravidade do que se estava a passar, mas havia alguém no governo que tinha essa pasta e que agora tem um peso sobre os ombros muito mais elevado. Isto ganhou tanta atenção que a própria Iniciativa Liberal, por exemplo, já veio salvar a pele da ministra ao dizer que não se justifica uma demissão, mas que é preciso que a secretária de Estado saia. Não é obviamente um nome com tanto impacto, não seria uma saída tão pesada, mas nesta fase terminaria com esses dias bons ou com esse estado de graça de Luís Montenegro. Não quer dizer que o governo não fique melindrado com isto também, mas de facto, talvez Montenegro não poderia dizer mais "não tenho demissões no governo" e isso mudaria aqui um bocadinho o jogo.

Continuamos de crise em crise até à crise final. Inês André Figueiredo, continuo contigo para te servir uma sopa de trigo com feijão, uma sopa típica da Madeira. Para quem nos está a ouvir, Inês André Figueiredo, tu que estiveste na Madeira a acompanhar as últimas eleições, faz um breve resumo sobre a nova crise com Miguel Albuquerque e tenta antecipar o desfecho deste novo ciclo político.

Vamos continuar a antecipar o desfecho desta bicha esfada. Eu resumiria da seguinte forma: neste momento, o Juntos pelo Povo é a peça-chave de todo este processo.

Mas que já anunciou o chumbo orçamento e também que alinharia com a moção de censura apresentada pelo Chega. Logo, Miguel Albuquerque está condenado a cair, é isso?

Certo, mas o JPP nem sempre é um partido coerente ou sólido em muitas das suas decisões. Teve anos a dizer que o PS e o PSD eram iguais e quando foram as eleições, no dia a seguir, estava junto com Paulo Cafofo a apresentar um entendimento com o PS. Talvez Miguel Albuquerque ainda possa, nesta fase final-

E se juntarmos a isso a coerência ou a falta dela do Chega, torna mais difícil ainda antecipar o que é que pode acontecer na Madeira.

Sim. É verdade que o Chega tem tido muito esse peso, principalmente a nível nacional, mas o JPP tem um peso muito mais forte na Madeira do que o próprio Chega. Ou seja, se Hélvio Sousa, secretário-geral do JPP, quisesse salvar Miguel Albuquerque, poderia de facto fazê-lo, mesmo que o Chega estivesse contra. Eu diria que talvez o presidente do Governo Regional da Madeira devesse investir em convencer Hélvio Sousa de que pode passar esse orçamento do Estado, dando-lhe algumas das coisas que levou para a campanha eleitoral. A verdade é que a tentativa de aprovar o orçamento agora com esta mudança da data da moção de censura, pode até ser uma cruz para Miguel Albuquerque, pode acabar bem a ter de ir a eleições caso caia o governo devido a essa moção de censura, mas a verdade é que há uma história antiga na Madeira que se conta pelo facto de Miguel Albuquerque não querer sair do governo, nem querer deixar que alguém

Do PSD faça a sua vez. Já no final das eleições, o Chega tentou que isso acontecesse, pediu que Miguel Albuquerque saísse e disse que daria apoio a um governo do PSD Madeira. Não aconteceu, está tudo novamente desta forma por causa de Miguel Albuquerque.

Muito bem, Marianela Lima Cunha, para te servir um caldo entornado, aqui para falar do Partido Socialista, há várias dimensões deste novo ciclo em que mergulhou o partido. Tivemos finalmente uma resposta de Ricardo Leão a António Costa. Temos a federação da área urbana de Lisboa, uma das mais influentes, senão a mais influente do partido, já com três, quatro, cinco candidatos. O que isto nos diz do momento atual do PS?

Eu acho que talvez a parte mais relevante da resposta de Ricardo Leão a António Costa seja que coloca em cima da mesa um dilema que o PS inteiro está a ter neste momento. Isto estou agora a deixar à parte a conversa sobre a proposta em concreto que foi aprovada em Loures sobre a questão dos despachos. Estou a falar do raciocínio dele sobre não querer enterrar a cabeça na areia e falar dos problemas de segurança, por exemplo, que preocupam as pessoas. E isso, de facto, é uma questão que está a preocupar o PS interno. Na semana passada, se não me engano, o público escrevia que em Setúbal, por exemplo, o PS está a fazer uma série de estudos e recolha de informação para perceber que medidas é que pode tomar nesse âmbito, sempre com aquela ideia de não deixar o discurso exclusivamente para o Chega ou de não começarem a atacar-se dentro do partido. Quem está a tentar entrar dentro desses temas para não os deixar para o Chega e quem acredita que esses temas nem sequer deveriam ser tocados ou mencionados pelo PS sob pena de estar a dar mais centralidade à agenda do Chega. Eu esta semana fazia um texto que não tinha a ver com o PS, mas que vai dar um pouco ao mesmo. Era um texto sobre as preocupações nas autárquicas do PCP e falava com pessoas do PS que têm responsabilidades, por exemplo, no distrito de Setúbal, que é um distrito muito competitivo e que me dizia para reparar, e eu fui ver, nas votações nalgumas freguesias muito populosas da margem sul e de Setúbal. É impressionante quando vemos a maneira como viraram completamente, parece que estamos a ver os swing states americanos, como viraram de ser 40 e tal por cento do PS para ser o Chega que ganha num ano, de umas eleições antecipadas para as seguintes. E estavam a ser feitas várias análises em termos de composição do tecido social, das preocupações das pessoas que se mudam para esse tipo de locais, que são abstencionistas tradicionalmente, que são mais novas, portanto, não são as pessoas mais velhas que são o eleitorado mais associado ao PS ou ao PCP, ou seja, a essa esquerda. E portanto, está a haver um pouco esse momento de pânico em vários pontos no PS e não só sobre o que fazer com este discurso, o que fazer com estas pessoas que não podem ser ignoradas e portanto as suas preocupações têm de ser assumidas. E portanto, aí António Costa, eu acho que comprou uma guerra, sobretudo com o Pedro Nuno. Em termos de conteúdo, é uma preocupação que toda a gente tem no PS. Eu acho que era uma preocupação que vi no PS, por exemplo, lembro-me quando António Costa deu aquela resposta a André Ventura há muito tempo, já parece outra vida, sobre ir de trivela, citando Ricardo Quaresma, para responder às coisas negativas que André Ventura dizia sobre a comunidade cigana. E eu lembro-me de ver muita gente no PS a celebrar a resposta e a tirada de António Costa, mas também muita gente preocupada com isso não ir exatamente ao âmbito do que são depois as preocupações com os eleitores.

Ora bem.

Acho que o PS tem esse grande dilema em mãos e também acho, deixe-me só dizer, se Pedro Nuno Santos tivesse ouvido o que Ricardo Leão disse, dito pelo PSD, teria rasgado as vestes e a conversa provavelmente seria outra.

Claro. Miguel Viteiro Dias, convido a enfiares uma colherada neste caldo entornado, também para falar do momento atual que o Partido Socialista atravessa.

O que eu não enfio é cabeça na areia, citando Ricardo Leão. O ex-presidente do PS de Lisboa e presidente da Câmara de Loures vem mais ou menos tentar enterrar o problema hoje no artigo do jornal Público, a dizer ou a assumir que se expressou mal, mas depois também deixa ali alguns recados, que é esta frase do ser de esquerda não pode significar enfiar a cabeça na areia com assuntos mais sensíveis. E o ponto é esse, a própria associação de autarcas do PS saiu em defesa de Ricardo Leão.

Aliás, o presidente, que é teu conterrâneo.

É verdade. Agora já não é. Nem importa. Os autarcas, como estão na linha da frente, vamos usar esta expressão que não usamos desde 2020.

Saudades.

Sabem que é preciso começar a dar resposta a estes problemas e desta vez foi Loures, mas quer dizer, há muitas cidades de áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto que passam pelos mesmos problemas e cujos autarcas, muitos deles do PS, vão ter que responder a um crescimento do Chega que pode ser grande e que os pode obrigar, não digo a assumir um discurso populista.

A questão é se concordo com aquela solução ou não. É só uma questão de olhar para o assunto.

Mas vão ter que falar de segurança, obrigatoriamente, e isso vai sempre levar para um discurso que a praça de comentadores em Portugal gosta muito de dizer que é o discurso do Chega. Pois, é que não vai ser, vai ter que ser de todos.

E nós sabemos que tu não gostas particularmente de comentadores televisivos, não é, Miguel? Bom, a nossa primeira parte infelizmente tem que ficar por aqui. Voltamos dentro de momentos com entrevista a Miguel Guimarães, primeiro vice-presidente da bancada do Partido Social-Democrata. Até já. Olá, bem-vindos à segunda parte da Vixi e Suas. Temos conosco Miguel Guimarães, deputado e primeiro vice-presidente da bancada parlamentar do PSD. Foi também bastonário da Ordem dos Médicos. É inevitável começarmos pelo tema da semana. A conjugação de duas greves provocou constrangimentos anormais no INEM e podem estar associados a esses constrangimentos pelo menos 11 mortes. Registou, sublinho a palavra, podem estar associados, não temos a certeza se é assim ou não. Mas antes de ser deputado, é médico, foi, como dizia, bastonário da Ordem dos Médicos. Se estivesse no lugar da Ministra da Saúde, teria colocado o seu lugar à disposição?

Antes de mais, muito obrigado pelo convite. É um prazer enorme estar aqui convosco. Eu acho que não, porque a senhora Ministra da Saúde tem que resolver a situação do INEM. E foi isso mesmo que a senhora Ministra da Saúde foi dizer ao Parlamento no passado dia 12. As mortes que aconteceram estão a ser investigadas pela Inspeção-Geral de Atividades em Saúde, pela IGAS. Algumas delas estão também a ser investigadas pelo Ministério Público e, portanto, nós temos que aguardar serenamente para perceber se estas mortes, que aconteceram num contexto de uma greve às horas extraordinárias por parte dos técnicos de emergência pré-hospitalar, se têm uma relação direta ou não com o atraso que aconteceu no socorro que foi prestado a estas pessoas.

E deixe-me perguntar-lhe, se ficar provado que uma ou mais mortes estão, de facto, relacionadas com esta greve, a ministra não tem outra alternativa a não ser apresentar a sua demissão?

Isso será sempre uma decisão da senhora Ministra da Saúde ou do senhor Primeiro-Ministro, mas eu aproveito para recordar que o INEM vai tendo falhas naquilo que é os tempos de resposta. As pessoas provavelmente não sabem isto, mas os tempos de resposta definidos, quer em termos de atendimento, quer em termos de mobilização do meio de socorro que vai chegar ao sítio X para prestar socorro a uma pessoa que se sentiu mal ou que até pode ter entrado em morte cardiorrespiratória e que tecnicamente, se demorar, por exemplo, mais de cinco minutos, pode já não ser recuperável em termos cerebrais, pode entrar em morte cerebral, são tempos que nem sempre se conseguem cumprir por vários motivos. Porque quando a pessoa liga para o INEM, o técnico vai fazer algumas perguntas, poucas, mas que têm a ver com algoritmo para perceber exatamente o que é que se passa e que meio é que vai ser mobilizado para prestar o socorro. Isto pode demorar mais tempo do que aquele que é o tempo desejável, digamos assim. Há também o tempo, obviamente, de atendimento da chamada, e esse tempo de atendimento da chamada é que se tem falado mais, e é um tempo também importante, porque é aí que começa tudo. E depois quando se mobiliza o meio adequado para aquele socorro. O meio adequado pode não demorar exatamente o tempo que está previsto, por vários motivos que são conhecidos, nomeadamente, as horas não são todas iguais, há horas de maior trânsito, horas de menor trânsito. Claro que as ambulâncias, as viaturas de emergência circulam com as sirenes e portanto têm prioridade, mas mesmo assim, muitas vezes não conseguem cumprir os tempos e isto é perfeitamente compreensível. O que significa, só para terminar, que nós temos mortes todos os dias em Portugal. Eu não sei exatamente, por exemplo, quantas pessoas morreram em 2023. Eu não estou a falar do INEM agora, estou a falar das pessoas que morrem por doença, que morrem por acidente, que morrem por várias circunstâncias. Se porventura um ministro da Saúde for demitido ou se demitir porque ocorreu uma morte numa situação em que o INEM foi ativado, eu suponho que nós não conseguimos ter ministro da Saúde que dure mais de dois, três meses, porque estas situações infelizmente podem acontecer. Ou seja, o INEM pode ser até devidamente ativado, pode correr tudo dentro daquilo que é esperado e mesmo assim não se conseguir salvar uma vida. Portanto, por isso é que são importantes as autopsias, as investigações que estão a ser feitas.

Precisamente. E mantendo esse raciocínio e sabendo nós que em política a palavra tem um peso, a ministra disse que assumiria total responsabilidade. Daí a insistência da nossa pergunta. Se ficar provado que houve um nexo de causalidade entre as greves, que poderiam ter sido evitadas, e estas fatalidades, na sua opinião, enquanto deputado, mas sobretudo enquanto médico, a ministra da Saúde tem condições para se manter no cargo?

Depende das circunstâncias que nós tivermos nas avaliações. Quer dizer, isto é muito difícil, neste momento, estar a dar uma resposta concreta àquilo que são as avaliações que vão acontecer, as investigações. E, portanto, eu acho que quando chegar o momento, a senhora ministra, tal como disse no Parlamento, que assumiria a total responsabilidade depois de as investigações estarem feitas, tomará a decisão que achar mais adequada. Como lhe disse há pouco, estas decisões são sempre difíceis e envolvem sempre também o senhor primeiro-ministro.

Miguel Guimarães, sabemos, até porque foi isso que aconteceu imediatamente a seguir, que a greve podia ter sido perfeitamente evitada. O governo foi suficientemente previdente?

Eu diria, para começar, que a greve, em termos daquilo que é sentar à mesa com o Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar e tentar estabelecer um acordo de negociação que valorize a carreira destes técnicos e todas as outras medidas associadas, como por exemplo, aumentar o número de técnicos na emergência médica e nomeadamente nos centros de atendimento, que são importantes, nos CODU, podia ter acontecido há um ano, há dois, há três, há quatro. Isto é, esta situação já tem muito tempo e o governo anterior não teve aquilo que era a sua obrigação, que era já ter reunido com estes técnicos.

A questão é que houve uma comunicação entre sindicatos e o gabinete da senhora Ministra da Saúde, onde os sindicatos manifestaram vontade de negociar. Aparentemente, a secretária de Estado disse que não havia disponibilidade e que essa negociação só deveria ocorrer em 2026. Entretanto, a Ministra da Saúde, já depois da greve, decidiu atuar

A greve foi evitada. Portanto, é possível concluir que se tivesse sido feito um esforço, pelo menos de disponibilidade para negociar, esta greve poderia ter sido evitada.

Sim, mas repare, a senhora ministra, e eu acredito na palavra dela, aliás, esta situação ocorreu perante a comunicação social, teve conhecimento. Claro que há os e-mails enviados, etc., mas ela só se apercebeu da greve na segunda-feira da semana passada. Na terça-feira, a senhora ministra estava a reunir com o sindicato e estava a ser suspensa a greve, tal como está a dizer, e entraram numa negociação que agora vai continuar no sentido que eu disse há pouco, de valorização da carreira dos técnicos de emergência pré-hospitalar. Agora, eu percebo o que está a dizer, porque a comunicação foi para várias pessoas, não foi apenas para a senhora Ministra da Saúde, foi também para as secretárias de Estado, julgo que também para o chefe de gabinete e para o presidente do INEM. É tentar perceber exatamente o que aconteceu, porque o ministro normalmente não faz a gestão do e-mail oficial que tem ao seu cargo. Eu imagino que o ministro deve receber milhares de e-mails todos os dias. E portanto, há aqui, de facto, uma falha interna, sem dúvida, mas a senhora ministra mal teve conhecimento, e eu acho que este aspecto é que é importante, mal teve conhecimento da greve, reuniu no dia seguinte com o sindicato.

E procurou resolver.

E procurou resolver a situação.

Se a ministra cair, admite vir a suceder Ana Paula Martins?

Essa pergunta é uma pergunta que neste momento não faz sentido. Eu peço imensa desculpa de lhe dizer isto, porque eu acho que a senhora ministra vai continuar. E portanto, ela está a fazer um bom trabalho, está a tentar fazer em tempo recorde aquilo que não foi feito durante muito tempo, não só a nível da emergência médica, mas também a nível de outras áreas, como a questão dos serviços de urgência, como a questão da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, como a questão dos cuidados paliativos, enfim, entre muitas outras áreas, que inclui também, obviamente, a questão dos investimentos. Dos investimentos em novos hospitais, dos investimentos em requalificação de novas unidades de saúde e também naquilo que é valorização das carreiras. Repare que a senhora ministra já conseguiu ter um acordo com os chefes enfermeiros, está a tentar um acordo, e vai conseguir seguramente, com os médicos e com os técnicos de emergência pré-hospitalar e também com os farmacêuticos. Portanto, tudo isto que está a acontecer, está a acontecer num tempo relativamente curto. Para quem está fora é sempre muito tempo, porque meses é muito tempo, mas a verdade é que o Partido Socialista, quando foi governo, não fez isto durante estes oito anos, pelo menos com todos. Fez um acordo com os médicos, é verdade.

A minha questão, e só para recentrar, é que o nome do Miguel Guimarães é apontado como um dos, se calhar, primeiros ministriáveis, caso seja necessário encontrar um novo nome para o lugar. Não tem essa ambição ou esse sonho ou desejo?

Neste momento, a minha ambição é fazer o trabalho que estou a fazer. Estou a trabalhar como deputado na Assembleia da República, é um trabalho estimulante, um trabalho a que eu não estava propriamente habituado. Eu estava habituado a tomar mais decisões diretamente do que agora. Agora temos que trabalhar em equipa, como é evidente, os grupos parlamentares. E portanto, neste momento, o que estou a fazer é aquilo que devo fazer e é o compromisso que eu tenho com os cidadãos do distrito do Porto, que me elegeram para ser deputado.

O presidente da República já veio exigir consequências políticas, utilizou até a expressão "doa a quem doer". No passado, este tipo de intervenções de Marcelo Rebelo de Sousa motivaram a queda de ministros. Acha que é isso que está à espera o presidente da República?

Eu não sei exatamente do que está à espera o senhor presidente da República. Agora, as palavras do senhor presidente da República são palavras de um desejo profundo que esta questão do INEM se resolva o mais rapidamente possível. E eu reitero isto: vão sempre acontecer, infelizmente, mortes que o INEM não vai conseguir salvar. Tal como acontece também com os bombeiros e acontece também com a Cruz Vermelha Portuguesa, até porque uma grande parte do socorro em Portugal, e a maior parte das pessoas não têm conhecimento disso, é feita pelos bombeiros e pela Cruz Vermelha Portuguesa, e uma parte mais pequena pelo INEM. Mas independentemente disso, eu acho que o desejo do senhor presidente da República é que esta situação fique rapidamente resolvida, é que se apurem responsabilidades, naturalmente.

Mais do que a questão das cabeças?

Mais do que a questão das cabeças. Esta é a minha interpretação, mas só o senhor presidente da República é que pode esclarecer aquilo.

Há quem entenda, e não é um exclusivo deste governo, que este tipo de declarações do presidente da República acabam por ser uma pressão inaceitável. Concorda com isso?

É uma pressão grande, é o estilo que o nosso presidente da República nos habituou e, portanto, eu não iria por aí. Quer dizer, pronto, o senhor presidente da República tem também, obviamente, a oportunidade e gosta de, nas situações em que existem situações mais complexas, nomeadamente no caso do INEM, neste caso, no caso da emergência, achou que devia comunicar ao país alguma coisa no sentido de tentar que seja acelerada a resolução desta situação.

Relativamente ao INEM, sabemos que não reforçou os serviços mínimos e podia tê-lo feito. Sérgio Janeiro tem condições para se manter como presidente do instituto?

Eu acho que essa questão é uma boa questão, mas é uma questão que tem que ser colocada à senhora Ministra da Saúde. O senhor presidente do INEM está em funções há pouco tempo. Está em funções que neste momento são funções transitórias. Eu julgo que brevemente vai existir um concurso para o presidente do INEM e, portanto, a avaliação daquilo que aconteceu internamente entre o Ministério da Saúde compete à senhora Ministra da Saúde e daí tirar as conclusões.

Mas era preciso outro perfil para alguém que está à frente de um instituto como o INEM?

O perfil do atual presidente do INEM é um perfil que, à partida, será um perfil bom. É uma pessoa que tem alguma experiência em termos de decisões, é uma pessoa que vem da área militar, que está habituada a ser mais rigoroso e a ser mais, não interventivo, mas ser mais rápido a tomar decisões. Agora, ele está há muito pouco tempo como presidente do INEM. Esta situação, como foi dito no início, é uma situação que não envolve apenas a ministra da Saúde, embora a senhora ministra da Saúde seja a responsável pela saúde em Portugal, mas envolve eventualmente outras pessoas que também receberam o e-mail e que podiam ter alertado.

Mas no limite, pode ser responsabilizado por este erro? Cometeu ou não um erro ao não contratar mais ou não dizer para haver mais serviços mínimos dentro do INEM?

Os serviços mínimos foram comunicados muito em cima da hora, é verdade. Portanto, essa situação terá que ser avaliada pela senhora ministra da Saúde.

No seu livro mais recente, Aníbal Cavaco Silva defendeu que, e passo a citar: "Culpar o governo anterior para além do período de seis meses mostra incapacidade do primeiro-ministro." Já nesta entrevista falou várias vezes sobre o legado que a Aliança Democrática recebeu dos anteriores governos. Este governo não foi seguramente apanhado de surpresa pelos problemas no SNS, porque eram há muitos anos falados. Não deveria estar já a apresentar resultados?

Já está a apresentar resultados em algumas áreas. Por exemplo, vamos nos focar no INEM também. A senhora ministra já abriu há algum tempo atrás um concurso para 200 técnicos de emergência pré-hospitalar, que já está concluído e que brevemente vão começar a trabalhar no INEM. Mas mais do que isso, já tem um concurso preparado para mais 200 técnicos de emergência pré-hospitalar para iniciar a ser aberto em janeiro e termos mais, no fundo, 400 técnicos a curto prazo. Portanto, isto não está parado, as coisas obrigam a esse tipo de concursos. E já agora, deixe-me dar aqui uma explicação para as pessoas perceberem. As pessoas podem dizer assim: "Bom, mas por que a senhora ministra não abriu logo um concurso para 400 técnicos de emergência pré-hospitalar?" Não abriu porque neste momento, e mal, a formação dos técnicos de emergência pré-hospitalar é feita apenas pelo INEM. É a única instituição que tem, neste momento, a competência para formar os técnicos, porque nunca se exploraram outras situações, nomeadamente as universidades, as escolas médicas, haver aqui uma interligação que permitisse formar mais pessoas rapidamente e, portanto, o máximo de pessoas que conseguem formar de cada vez são 200.

Mas a seu ver, o que foi feito nos últimos meses foi suficiente.

Nunca é suficiente. Repare, quando nós temos vários problemas ao mesmo tempo, como a questão relacionada com os serviços de urgência e, em especial, com as maternidades. Quando nós temos problemas sérios no INEM, é que os problemas no INEM não estão apenas restringidos à questão dos técnicos de emergência pré-hospitalar. Nós temos falta de médicos no INEM, temos falta de enfermeiros no INEM, temos falta de viaturas de emergência. Temos e tínhamos o problema dos helicópteros, que entretanto agora já está finalmente resolvido com um concurso internacional que está adequado àquilo que neste momento são os preços médios praticados na Europa, até porque com duas guerras em curso, é natural que os valores que na altura o Partido Socialista apresentou para o concurso internacional não teve ninguém a concorrer, porque os valores eram extremamente baixos. Estes valores subiram por causa dos pilotos, por causa dos helicópteros, etc. Portanto, há várias coisas que estão a ser feitas, mas estas coisas demoram algum tempo. Ainda assim, por exemplo, neste concurso de helicópteros, é bom dizer que se estão a contratar quatro helicópteros, o concurso é para quatro helicópteros para funcionamento de 24 horas.

E aqui, Almeirim, antes de avançarmos para outro conjunto de perguntas, perante o que nos está a dizer, que é preciso tempo para resolver problemas que existem, que são de já há muitos anos, a nossa pergunta é muito concreta: a ministra da Saúde, depois de um verão problemático, depois deste episódio com o INEM, tem essa força política e terá esse tempo, esse estado de graça, se quiser, para imprimir essas reformas?

Eu julgo que sim. Como lhe digo, a senhora ministra está motivada no cargo de ministra da Saúde. Já fez algumas alterações importantes, e não estou a falar apenas da questão do plano de emergência para a saúde, mas tem também previstas várias alterações estruturais dentro do Serviço Nacional de Saúde, que são fundamentais para que o Serviço Nacional de Saúde consiga dar uma resposta mais adequada em tempo clinicamente aceitável aos cidadãos. Porque nós temos, e falar do passado é sempre mau, é verdade, mas a verdade é que nós temos situações relativamente àquilo que são os tempos máximos de resposta garantidos, nomeadamente em áreas mais críticas como são os doentes oncológicos, que obviamente não eram aceitáveis e já começaram a ser resolvidas. Dir-me-á: "Já está tudo resolvido." Não está tudo resolvido, porque não se consegue resolver uma situação deste tipo na saúde, que envolve todos os portugueses, que envolve centenas de unidades, hospitais, centros de saúde, enfim, cuidados continuados, uma série de equipamentos que obviamente demoram algum tempo a estarem a funcionar como o governo quer que estejam a funcionar. Mas como digo, há coisas que já foram feitas, algumas coisas positivas, eu diria até bastante positivas nalgumas áreas específicas e, portanto, acho que a senhora ministra está motivada para isso e neste momento está a começar a ter até resultados objetivos, por exemplo, no número de cirurgias, no número de consultas. Elas aumentaram bastante nos últimos seis meses.

Temos de avançar, infelizmente, o nosso tempo é curto. Uma rápida incursão pelo próximo ciclo político, até porque há mais vida para além da saúde. Pedir-lhe respostas rápidas, eleições autárquicas no Porto, é frequentemente apontado como possível candidato. Admite-se ele?

Sim, neste momento não sou candidato à Câmara Municipal do Porto, mas é uma situação da qual não fujo. Isto é, se me for lançado o desafio, obviamente que Muito provavelmente poderia aceitar o desafio, mas depende das circunstâncias, como é óbvio.

E acredita que vai receber esse convite para abraçar esse desafio?

Não sei.

Mas era algo que manifestamente desejava ou via com bons olhos, pelo menos.

Dentro daquilo que eu posso fazer para a sociedade neste momento, para ajudar as pessoas, a primeira coisa que eu tenho é ser médico. Aliás, o meu lugar no Hospital São João, que neste momento está suspenso porque sou deputado, é sempre um lugar que eu abraço com a maior alegria, porque aquilo que eu fiz até hoje que mais felicidade me deu foi ser médico, foi estar na questão dos transplantes, foi fazer aquilo que eu sei fazer melhor e que gosto de fazer. Agora, para ajudar a sociedade, para ajudar uma determinada população, já o fiz enquanto parlamentar da Ordem dos Médicos, já o fiz enquanto presidente do Conselho Regional, estou agora a tentar fazê-lo também dentro daquilo que são as funções que tenho no grupo parlamentar, como deputado. E obviamente que as autarquias têm um papel que vai ser cada vez mais importante em ajudar as pessoas que mais precisam. Nós temos grandes desigualdades sociais no país e os autarcas têm aqui um papel que o governo não consegue ter, que é o papel de proximidade.

Miguel Guimarães.

E isso é estimulante.

Infelizmente, temos de ir ao último segmento deste programa, o Bloco Carne ou Peixe. É um estreante na Vixi Suave. Recordo que só pode escolher uma de duas opções. Venha daí a trilha. Preferia descer a rua de Santa Catarina, no Porto, ao lado do candidato presidencial Luís Marques Mendes ou Pedro Passos Coelho?

Pedro Passos Coelho.

Está numa segunda volta presidencial e tem que escolher um dos dois candidatos. Tem dois nomes: Mário Centeno e Gouveia e Melo. Em que quadradinho é que punha a cruz?

Entre Mário Centeno e Gouveia e Melo, Gouveia e Melo.

A quem oferecia o álbum "Kind of Blue", que pelo que sabemos, é um dos seus favoritos.

Claro.

Marta Temido ou Manuel Pizarro?

Manuel Pizarro.

Por fim, quem exilava nos Galápagos André Ventura ou Mariana Mortágua?

Essa pergunta é mais difícil de responder. Muito provavelmente, Mariana Mortágua.

Muito bem, Miguel Guimarães, fez um pleno, deixe-me registar isso, é raro nas nossas Vixi Suave. Fez um pleno, respondeu a todas as questões e, como é hábito no nosso programa, pode escolher uma sobremesa, no caso, uma música. Que música nos traz e por quê?

Poema de Menino Jesus, da Maria Bethânia. E por quê? Porque é um poema que eu acho que é verdadeiramente extraordinário, é um poema que nos inspira, é um poema que nos dá força quando nós estamos mais embaixo e é feito com uma voz que é inultrapassável. É uma voz que não precisa de instrumentos a acompanhar. Há algum acompanhamento, mas o acompanhamento mínimo. E, portanto, esta música é uma música que está no meu coração, é uma música que eu ouço muitas vezes. Claro que eu sou um melómano, eu gosto de muitas outras músicas, mas escolhi esta porque acho que esta é mais adequada a este momento e é mais importante para as pessoas que nos estão a ouvir em casa.

Miguel Guimarães, muito obrigado por ter vindo à Vixi Suave, foi um gosto tê-lo cá. Os nossos ouvintes e leitores já sabem, podem ver esta entrevista e ouvi-la nas plataformas habituais e também no site do Observador. Até à próxima semana.

Num meio-dia de fim de primavera, eu tive um sonho como uma fotografia. Eu vi Jesus Cristo descer à Terra. Ele veio pela encosta de um monte, mas era outra vez menino, a correr e a rolar-se pela erva, a arrancar flores para deitar fora e a rir de modo a ouvir-se de longe. Ele tinha fugido do céu, era nosso demais para fingir de segunda pessoa da Trindade. Um dia que Deus estava dormindo e o Espírito Santo andava a voar, ele foi até a caixa dos milagres e roubou três. Com o primeiro, ele fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido. Com o segundo, ele se criou eternamente humano e menino. E com o terceiro, ele criou um Cristo eternamente na cruz e deixou-o pregado na cruz que há no céu e serve de modelo às outras. Depois ele fugiu para o sol e desceu pelo primeiro raio que apanhou. Hoje ele vive na minha aldeia comigo. Uma criança bonita, de riso natural, limpa o nariz com o braço direito, chapinha nas poças d'água, colhe as flores, gosta delas, esquece. Atira pedra aos burros, colhe as frutas nos pomares e foge a chorar e a gritar dos cães. Só porque sabe que elas não gostam, que toda gente acha graça, ele corre atrás das raparigas que levam as bilhas na cabeça e levanta-lhes a saia. A mim, ele me ensinou tudo. Ele me ensinou a olhar para as coisas. Ele me aponta todas as cores que há nas flores e me mostra como as pedras são engraçadas quando a gente as tem na mão e olha devagar para elas. Damo-nos tão bem um com o outro, na companhia de tudo o que nunca pensamos um no outro. Vivemos juntos os dois com o acordo íntimo, como a mão direita e a esquerda. Ao anoitecer, nós brincamos às cinco pedrinhas no degrau da porta de casa. Graves, como convém a um Deus e a um poeta. Como se cada pedra fosse todo o universo e fosse, por isso, um perigo muito grande deixá-la cair no chão. Depois eu lhe conto histórias das coisas só dos homens. E ele sorri, porque tudo é incrível. Ele ri dos reis e dos que não são reis. E tem pena de ouvir falar das guerras e dos comércios. Depois ele adormece e eu o levo no colo para dentro da minha casa. Deito-o na minha cama, despindo-o lentamente, como seguindo um ritual todo humano e todo materno até ele estar nu. Ele dorme dentro da minha alma Às vezes ele acorda de noite e brinca com meus sonhos. Vira uns de perna pro ar, põe uns por cima dos outros e bate palmas sozinho, sorrindo para o meu sono. Quando eu morrer, filhinho, seja eu a criança, o mais pequeno. Pega-me tu ao colo e leva-me para dentro da tua casa, deita-me na tua cama, despe o meu ser cansado e humano, conta-me histórias caso eu acorde, para eu tornar a adormecer, e dá-me sonhos teus para eu brincar. Minha vida que parece muito calmo. Tem segredos que eu não posso revelar. Escondidos bem no fundo de minha alma. Não transparecem nem sequer em um olhar. Vive sempre conversando a sós comigo. Uma voz que eu escuto com fervor. Escolheu meu coração pra seu abrigo. E dele fez um roseiral em flor. A ninguém revelarei o meu segredo. E nem direi quem é o meu amor.