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UNESCO elege cante alentejano como Património Imaterial da Humanidade

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A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura acaba de declarar o cante alentejano como Património Imaterial da Humanidade. Exatamente três anos depois do fado.

Os Camponeses de Pias e o Grupo da Casa do Povo de Serpa, no Mosteiro dos Jerónimos, em setembro deste ano

Gonçalo Villaverde / Global Imagens

O cante alentejano já é da Humanidade. A decisão foi tomada esta quinta-feira de manhã, em Paris, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO)

A candidatura do cante alentejano a Património Cultural Imaterial da Humanidade deu formalmente entrada a 28 de março de 2013 no comité internacional da UNESCO. Há três semanas foi considerada “exemplar” pelo comité de avaliação e as expectativas eram altas.

Esta semana, o presidente da Câmara Municipal de Serpa Tomé Pires disse ao Observador que a chancela da UNESCO ao cante alentejano podia abrir muitas portas. Ao objetivo de salvaguardar e transmitir o cante, é preciso também “começar a pensar em tornar este ativo cultural numa ativo económico, para ajudar a sustentabilidade do cante e o desenvolvimento da nossa região”, disse.

Em comunicado, o secretário de Estado da Cultura Barreto Xavier congratulou a decisão “de grande relevância e significado para Portugal e que em muito honra os portugueses”.

Trata-se do reconhecimento da importância de uma prática que é parte integrante da cultura portuguesa e que, apesar de nascida no Alentejo, é valorizada em todo o território nacional e, cada vez mais, a nível internacional. A importância do cante alentejano vai além da sua vertente cultural, integrando uma componente social muito forte que se manifestou ao longo de séculos de história e através da sua capacidade de transmissão geracional, que une cidadãos das mais diversas faixas etárias, tornando-o um veículo dinamizador de muitas comunidade”.

O primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, em comunicado enviado à agência Lusa, partilha o “sentimento de orgulho pelo reconhecimento do cante alentejano” a património cultural. E lembra que a distinção é o “esperado e merecido tributo” a uma das referências culturais que “melhor reflete a identidade e a história de uma comunidade e de uma região”, assim como uma “forma de expressão musical única” que se pretende continuar a “valorizar e divulgar”, agora com o estatuto reforçado de “legado mundial”.

Em nota publicada no site oficial da Presidência da República, Cavaco Silva salienta que a cultura portuguesa é “colocada em destaque no panorama internacional”, adiantando que se homenageia uma “arte que nasceu de uma tradição vernacular e rural, um canto do povo, que é tão belo como as planícies do Alentejo onde nasceu”. Para Cavaco Silva, é “essencial preservar esta poética e riqueza musical e assegurarmos a sua transmissão às próximas gerações”, sublinhando que o cante é” a marca e um sinal de um povo”, assim como “a expressão mais genuína e autêntica da sua identidade”.

Há exatamente três anos, a 27 de novembro de 2011, Portugal celebrou a eleição do fado como Património Imaterial da Humanidade. No ano passado, foi a vez de a dieta mediterrânica entrar para a prestigiada lista, graças à candidatura conjunta submetida por Portugal, Chipre, Croácia, Grécia, Espanha, Itália e Marrocos.

A brasileira “roda de capoeira” e as carpetes “kilimi” feitas pelas mulheres de Chiprovtsi, na Bulgária, foram outras das várias tradições inscritas esta semana na UNESCO. As reuniões que analisam um total de 46 candidaturas terminam na sexta-feira.

Duas candidaturas, duas aprovações

O musicólogo Rui Vieira Nery foi o presidente da Comissão Científica da candidatura do fado à Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade e também liderou a candidatura do cante alentejano. Mas, em 2012, demitiu-se do cargo, alegando que a candidatura padecia de muitos problemas que já tinham levado ao chumbo de outros projetos.

“A candidatura começou mal, com um processo de gabinete, e houve uma primeira tentativa de apresentação que não foi concretizada porque, a meu ver, teria levado ao falhanço”, explicou ao Observador. “Depois houve um trabalho excelente no refazer da candidatura, no aspeto da ligação com a comunidade, condição fundamental desta convenção. Foi um trabalho muito bem feito pela equipa de Paulo Lima e de Salwa Castelo-Branco, que foi quem o substituiu”.

Fado e cante alentejano. As duas únicas candidaturas, as duas consideradas exemplares e as duas aprovadas pela UNESCO. Para Rui Vieira Nery “isto é um convite à navegação, no sentido de que vale a pena apresentar estas candidaturas, mas com tempo, com calma e sem calendários políticos. Neste momento, Portugal tem uma imagem muito boa no comité”, disse, mas alerta: “Isto não é um Guinness, ninguém vai avaliar a qualidade da forma artística, mas sim o carácter representativo e identitário dessa forma, como símbolo de uma comunidade.

A visibilidade nacional e internacional são o primeiro ganho, mas o musicólogo destaca a “dimensão turística” e o plano de salvaguarda que acompanha a candidatura. Entre as ações de salvaguarda previstas conta-se, de acordo com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, a recolha e análise documental e museográfica, a caracterização do cante alentejano, dos grupos de cante e dos cantadores, bem como a inclusão do ensino desta prática nas escolas locais a fim de promover a sua transmissão intergeracional.

“Se esse plano for cumprido penso que haverá condições para um desenvolvimento ainda mais sustentável”, disse Rui Vieira Nery. E acrescenta que “os benefícios não são imediatos, são mais um estimulo. Isto aumenta o amor próprio das pessoas que fazem cante alentejano e a própria imagem da cultura alentejana”.

A candidatura final foi apresentada em 2013 e é fruto do trabalho do Município de Serpa e dos Municípios do Baixo Alentejo, da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo, da Direção Regional de Cultura do Alentejo, da Entidade Regional de Turismo do Alentejo, da Comissão Nacional da UNESCO e dos grupos corais de cantadores e respetivas associações.

Na comitiva que seguiu para Paris estavam duas dezenas de homens do Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa. David de Mira filmou o grupo em frente à Torre Eiffel.

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