A Suécia ocupa os lugares cimeiros nos rankings da igualdade de género em todo mundo, mas Margareta Winberg, antiga vice-primeira-ministra da Suécia afirma que o seu país ainda não é “uma sociedade igualitária”, embora o facto de o Governo se afirmar como feminista esteja a mudar as mentalidades. Para esta antiga governante, é essencial que as mulheres sejam independentes e isso só se consegue quando elas conseguem ter o seu próprio dinheiro, ou seja, tenham trabalho.

Margareta Winberg esteve em Lisboa na semana em que se assinalou mais um Dia Internacional da Mulher para participar no seminário “Empoderar as mulheres através do reforço das organizações de direitos das mulheres: o caso do governo feminista sueco”, organizado pela Embaixada da Suécia em parceira com a Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres. O Observador falou com a antiga vice-primeira-ministra (que deteve também os pelouros da Agricultura, Trabalho e Igualdade em vários governos durante os anos 90) e Winberg afirmou que o passo mais importante para a mudança da sociedade em termos de igualdade género é reconhecer que “as mulheres são indivíduos independentes e não existem apenas dentro de uma família”.

A Suécia afirma ter um Governo feminista. O que é que significa ter um Governo feminista? Em que áreas é que isso é visível?

Um Governo feminista, até se formos ver ao dicionário o que é o feminismo, não é de forma nenhuma algo perigoso. A definição de feminismo no dicionário é a perceção das desigualdades entre homens e mulheres e querer mudar isso. E, por isso, as pessoas identificam-se como feministas. O Governo sueco está a tentar olhar para todas as áreas com uma perspetiva feminista e assim, se tomar uma decisão, avaliar o que é vai acontecer às mulheres e aos homens. Isto passa por fazer uma integração da igualdade de género em todas as áreas. É isso que é o feminismo.

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Consegue dar alguns exemplos concretos destas políticas?

Sim, o Governo tem quatro pilares de políticas que pretendem melhorar a igualdade de género. O primeiro tem a ver com a igualdade na participação política e capacidade de influência. Se olharmos para o Parlamento, para a administração regional e local, neste momento eu diria que ainda há cerca de 45% de mulheres e 55% de homens. Mas no que diz respeito ao ambiente empresarial, os números não são bons. É muito difícil mudar isso porque não se pode impor como se faz na política. A igualdade económica também é fundamental e isso significa que, para ser livre, tanto o homem como a mulher têm de ter o seu próprio dinheiro, ou seja, um trabalho e educação. E também é preciso olhar para os salários, já que os homens ganham mais e cerca de 30% das mulheres na Suécia trabalham em part-time. O terceiro pilar é o trabalho que não é pago, ou seja, lavar a roupa, tomar conta das crianças e tomar conta dos mais velhos. Estes trabalhos ainda são feitos por mulheres e a mudança é muito lenta. O último ponto tem a ver com a violência contra as mulheres. Na minha região estou a trabalhar com os hospitais para se perguntar sempre às mulheres se foram vítimas de violência doméstica, mas continua a ser difícil perguntar. Temos ainda uma estratégia de política externa feminista.

O seminário em que vai participar em Portugal faz parte desta ótica?

Sim, mas também consideramos que é muito importante trocar opiniões com a sociedade civil e ver como podemos envolver estas organizações nas políticas do Governo de modo a fazer-se um trabalho conjunto.

Falámos na questão da participação política das mulheres e, em Portugal, uma medida que marcou esta questão foi a introdução de quotas. Considera que as quotas são importantes na política?

Eu era presidente da Liga das Mulheres Sociais-Democratas no início dos anos 90 e conseguimos que o partido introduzisse quotas informais 50/50. Isto passou-se em 1993 e nas eleições de 1994, o número de mulheres aumentou muito. E não foi só no nosso partido, aumentou em todos os partidos porque todos seguiram o nosso exemplo. Depois disso, é comum que os lugares nas listas sejam alternados e assim tornou-se a política mais comum mesmo sem a necessidade de impor um sistema formal.

E quando falamos da economia? Quando é preciso colocar mulheres no topo de empresas parece mais complicado. Qual é a sua opinião sobre a introdução de quotas nas administrações das empresas?

Sou a favor disso. Lidei com essa realidade como ministra do Trabalho, mas há muita resistência por parte das empresas. Na Suécia, o Governo está a fazer uma investigação sobre este tema e o plano é introduzir o sistema de quotas nas empresas. Até porque isto faz parte de uma política alargada que está a ser estudada pela própria União Europeia. Penso que a quota ficaria em 40-60.

Mas não acha que se corre o risco de apenas cumprir esse número e se demorar muito tempo a ultrapassá-lo?

Eu acho que é sempre positivo e é bom ter mulheres nas administrações nem que seja com regime de quotas. Há mulheres muito competentes e homens muito competentes, mas hoje em dia vê-se muitos homens nestes cargos com muita competência e outros com competência média – digo isto para ser simpática. Tem tudo a ver com procurar e encontrar. Se as empresas procurarem mulheres muito competentes, vão encontrá-las.

Teve muitos papéis em vários Governos e responsabilidade em pastas e setores diferentes. Como é que manteve a questão da igualdade de género no seu percurso político?

A área mais difícil foi a Agricultura. Esse é um setor com tradições antigas e algum conservadorismo. Temos muitos homens que são agricultores e isso não é algo fácil de mudar. O que fizemos na Suécia foi promover produções a uma escala menor, não estou a falar de grandes plantações ou grandes explorações pecuárias, mas estou a falar de uma escala mais pequenas. No norte da Suécia, de onde eu venho, temos agora muitas agricultoras com pequenas plantações.

Em Portugal também tivemos no último Governo a primeira mulher ministra da Agricultura…

Ai foi? E o que é que aconteceu?

Nada de especial, desempenhou o seu cargo como outro membro do Governo.

Eu também fui a primeira ministra da Agricultura na Suécia (alguns risos).

E como foi essa experiência? Como é que se faz com que isso não fosse o principal foco do mandato e se quebrassem alguns preconceitos?

Eu tentei concentrar-me noutro tema para além do facto de eu ser uma mulher. Em 1994, entrámos para a União Europeia e o debate passava pelo financiamento aos agricultores e novas regras que vinham de Bruxelas. Mas também introduzi a questão do bem-estar dos animais que consumimos.

Tentou então desviar a atenção para temas relacionados com a Agricultura e não concentrar a atenção em si?

Sim, e, de um certo ponto de vista, ter também uma perspetiva feminista sobre esses temas. Muitas mulheres trabalhavam no setor alimentar e as mulheres queriam alimentos com mais qualidade. Queriam também ter a certeza que não havia crueldade na morte dos animais que consumiam.

Quando falamos da União Europeia, foi uma das pessoas que tinha algumas dúvidas quanto à adesão…

Eu não algumas tinha dúvidas, eu tinha muitas!

Mas hoje, quando visita países como Portugal onde a diferença entre homens e mulheres ainda é muito visível na sociedade, mas que tinham também um atraso grande na implementação de políticas de igualdade género devido a regimes autoritários, não considera que a entrada na União e o facto de partilharmos valores e políticas ajuda na questão da igualdade de género?

É muito difícil responder a isso. Há outras formas de cooperar para além da Uniaõ Europeia. É claro que eu vejo que a União Europeia foi muito importante para Portugal em muitos aspetos diferentes.

Mas não neste aspeto da igualdade de género?

O que eu posso dizer é que do ponto de vista sueco, mas também da perspetiva da União Europeia e das Nações Unidas, a área mais importante para as mulheres é a sua liberdade. E na perspetiva sueca, não é possível ser livre sem dinheiro, ou seja, sem um trabalho. E nisso, Portugal está a ficar para trás. É também preciso creches. Só isso é que vai permitir que os pais consigam trabalhar.

Quando se fala em violência contra as mulheres, pensa que a violência é entendida de forma diferente aqui em Portugal e na Suécia?

Não. É o mesmo.

Não acha que a sociedade na Suécia está mais alerta para a violência de género e também que se fala mais e mais abertamente sobre esta questão?

Sim, mas é sempre a mesma violência. É sempre uma questão de poder, nomeadamente do poder masculino.

Mas nas instituições que recebem as queixas ou no seio de um casal?

Em casa, entre um casal. As relações não são equilibradas. Estamos a falar de uma questão estrutural de dominância masculina em toda a sociedade. E a violência pode ser um dos resultados. É claro que é muito mais difícil alguém se divorciar quando está dependente financeiramente da outra pessoa.

Alguma da violência contra as mulheres em Portugal nos últimos anos, durante a crise, tem sido atribuída de uma certa forma às más condições de vida, ao facto de não haver dinheiro. Acha que esta ligação faz algum sentido quando se fala de violência de género?

Sim e não. Não ter dinheiro é claro que é desesperante, mas há violência em casas onde os homens ganham muito bem. Há violência em casas onde os homens são médicos ou advogados de sucesso e em casas onde os homens são desempregados. Isso não interessa. Há violência contra as mulheres em toda a sociedade, em todas as classes e em todos os grupos étnicos. Mas claro que o estigma é ainda maior quando as pessoas são pobres.

No caso da Suécia e do que acompanhou, quais foram as medidas que mais ajudaram a promover a igualdade de género?

O mais importante foi aceitar que as mulheres são indivíduos independentes e não existem apenas dentro de uma família. As mulheres têm direitos, responsabilidades e muitas possibilidades. As mulheres têm de ter trabalho e para isso é preciso que haja um bom sistema de creches, um bom sistema de lares para os mais velhos e apoios para quem sofre de deficiências. A infraestrutura social para garantir à mulher esta independência é muito importante. Mas também a questão da licença de maternidade e paternidade. Ainda há pouco tempo perguntaram-me porque é que na Suécia a taxa de natalidade é tão alta e eu respondi: “Porque é possível ter um trabalho e ser mãe ou pai”.

Discutiu-se esta semana um relatório sobre as mulheres refugiadas no Parlamento Europeu. Como é que olha para a situação destas mulheres?

Desde logo, a maior parte das pessoas que vêm para a Europa são homens. Porque eles são os mais fortes. Na Suécia, temos muitos refugiados, a maior parte são homens, mas também temos muitas famílias e estamos a tentar dar-lhes boas condições. Na parte norte do país, de onde eu venho, estamos a tentar envolver a sociedade civil e fazer com que as mulheres refugiadas diversifiquem os seus interesses e sejam ativas.

Pensa que há necessidade de tal como acontece na Dinamarca, providenciar informação aos refugiados sobre a perspetiva sueca da igualdade de género?

Sim, na Suécia a aprendizagem da língua começa assim que os refugiados chegam e está incluída a formação em igualdade de género e direitos das mulheres e outras questões que têm a ver com o funcionamento da sociedade. Isto é importante porque as nossas culturas são diferentes.

E acha que isso tem resultados visíveis?

Ainda é muito cedo para dizer isso.

É uma pessoa que assume o feminismo com muita frontalidade e isso já lhe valeu algumas críticas. Encontrou ao longo da sua carreira política muitos obstáculos à sua afirmação pessoal?

Eu comecei a afirmar-me como feminista no início dos anos 90. Antes disso, eu não me identificava como tal.

Não estava sensibilizada para as questões da igualdade de género?

Eu não sabia bem o que era. Eu achava que o feminismo era algo que não era. Estava enganada. Quando me apercebi do verdadeiro significado do feminismo percebi que era feminista desde que era pequena. Desde essa altura, quando tomei essa consciência, que tento convencer os outros daquilo que penso sobre este tema e acho que fui bem-sucedida. O meu partido declarou-se como um partido feminista em 2002 e não é uma palavra perigosa para nós. Mas sei que para outras pessoas continua a ser. Ligam esta palavra a mulheres que odeiam homens e extremismo. É preciso retomar esta palavra.

Como é que explica que outras mulheres tenham também essa interpretação do feminismo como um movimento mais extremista?

É por isso que é tão importante ter um Governo feminista. É algo que está lá em cima [gesto com mão]. As pessoas questionam-se sobre o que é um Governo feminista, ficam curiosas sobre o tema, querem saber mais. Há cada vez mais pessoas que ousam chamar-se feministas porque têm mais conhecimento sobre o tema. Pensam: “Isto afinal não é tão estranho”.

Mesmo na Suécia, que é um país que lidera os rankings da igualdade de género, ainda há problemas a resolver? Quais?

Claro que há problemas. Nós não somos uma sociedade igualitária na Suécia. A prioridade, a meu ver, é a licença de maternidade e paternidade. Se as mães e os pais partilhassem a licença, isso seria um grande passo. Até terem filhos, os casais têm relações igualitárias, quando nascem as crianças começam as desigualdades. A mulher acumula a responsabilidade do filho, volta ao trabalho em part-time, e pouco tempo depois tem outro filho. E isto repete-se. Quando ela tiver 65 anos, vai receber uma pensão muito mais baixa que o marido e isso faz com que ela não seja independente.