Feminismo

A Confraria Vermelha: “O feminismo é mais necessário do que nunca”

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Só tem livros escritos por mulheres, os clientes são mulheres e é assim que se quer que seja. Fomos conhecer A Confraria Vermelha, uma livraria feminista no Porto, e acompanhar o clube de leitura.

Ricardo Castelo/Observador

19 horas de um final de tarde chuvoso na Invicta e a livraria prepara-se para receber mais uma sessão do clube de leitura. Esta é especial. “As Leitoras de Pandora”, nome da atividade, celebra um ano de existência e por isso, as ideias e os pensamentos sobre o feminismo e a literatura continuam tão ou mais afiados como da primeira vez. A Confraria Vermelha tida como a única livraria feminista no país não ignora as obras literárias, mas a atualidade internacional aquece as vozes ainda antes da sessão.

Donald Trump e a esposa Melania Trump são motivo de conversa: há quem discorde de todo o buzz nas redes sociais em redor do casal – que acreditam fortalecer o poder de influência do atual presidente dos Estados Unidos da América – ou das ofensas feitas a alguns membros da família, como ao pequeno Barron Trump, aparentemente distraído em várias cerimónias oficiais. Mas o consenso atinge-se num ponto: Trump não está do lado correto no debate da igualdade de género. Nenhuma das mulheres na livraria o parece levar a sério.

“Costumamos esperar até às 19h15min”, diz Aida Suárez, a mente por detrás da Confraria Vermelha. O limite de inscrições para as sessões do clube de leitura é sempre dez pessoas. Além da confusão que seria debater uma obra literária com mais vozes, o espaço convida a grupos pequenos. A livraria feminista é tal e qual uma sala de estar: várias estantes com livros, um gira-discos com vinis da Janis Joplin a espreitar, molduras de autoras como Maria Teresa Horta nas paredes e uma espécie de posto de chá com várias canecas. E não falta um dos elementos mais importantes de uma casa: um sofá.

confraria_vermelha

As leitoras de Pandora vão chegando às pinguinhas tal como a precipitação que se faz sentir nos últimos dias. “A chuva complica sempre na demora”, avisa a livreira. Aida Suárez começou a idealizar esta livraria de mulheres em 2010, em 2015 abriu as portas e hoje, acredita que o conceito é mais necessário do que nunca na literatura. “Se formos à lista dos melhores livros do último ano, quem aparece? A maioria são homens e essas escolhas são feitas por homens também”, diz ao Observador.

Embora nas prateleiras não haja escritores, os diversos tipos de autoras podem não encaixar no protótipo de uma feminista. “Nem é esse o objetivo”, segundo a responsável. Há livros da saga Harry Potter, de J.K. Rowling, para as mais novas, os clássicos como “Mulherzinhas” de Louisa May Alcott e as portuguesas Natália Correia e Florbela Espanca, entre tantas outras sugestões. “É uma livraria feminista em princípio, porque queremos criar as mesmas oportunidades dos homens para as mulheres no ramo da literatura. Há aqui livros que não têm nada a ver com feminismo”, justifica. “A Confraria é um sítio para quem gosta de ler”.

A diversidade literária da Confraria Vermelha é assim uma tomada de posição: não atribuir categorias aos livros. “Eu não gosto de dizer aquela escritora é feminista. Perdemos muito tempo com isso”, diz a livreira. Aida Suárez explica até que Simone de Beauvoir quando escreveu o livro “Segundo Sexo” nunca o idealizou numa perspetiva feminista. “Foram as leitoras dos Estados Unidos que lhe escreviam cartas a felicitá-la pelo seu feminismo”, acrescenta.

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Aida Suárez abriu a Confraria Vermelha há dois anos @Ricardo Castelo/Observador

A primeira sessão do clube de leitura do novo ano é feita à boleia de Virginia Woolf e da obra “Orlando” – romance publicado em 1928 que explora o tema da identidade de género, mais propriamente, o percurso de Orlando, um jovem rapaz que acorda um dia como mulher. “Sempre pensei na Virginia como a madrinha da Confraria”, confessa Aida, ainda antes do debate.

Quase como se tratassem de amigas próximas, todas as autoras, feministas ou não, são tratadas como se fossem membros da Confraria. Só faltaria o tratamento por ‘tu’ e estarem presentes (fisicamente) no clube de leitura.

“A literatura era para os homens e ela sabia disso”

As conversas confortáveis entre algumas leitoras denunciam a frequência assídua na Confraria Vermelha. Há quem interrompa e pergunte: “Já tens o novo livro da Alexandra Lucas Coelho?” “Não, esgotou”, responde Aida. Uma médica, uma professora, uma jovem estudante são algumas das mulheres que compõem esta confraria. Que não fecha as portas aos elementos recém-chegados. “Fizeram a pré-inscrição? Não? Não faz mal, faltaram duas pessoas”, informa a livreira.

As redes sociais e os grupos de amigas parecem ser a pólvora e a “galinha dos ovos de ouro”. Ainda no dia anterior, Aida ganhou uma nova cliente: uma jovem espanhola descobriu a livraria feminista através de uma amiga alemã. E o convite à sessão do clube de leitura não faltou.

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@Ricardo Castelo/Observador

É através de um pequeno sorteio num boião de vidro que se escolhem os livros em análise. Porém, este mês a opção recaiu na escolha da leitora Cristiana Canavarro, a quem couberam as primeiras palavras. A questão da transexualidade foi colocada em cima da mesa, não fosse a identidade de género um dos temas presentes na história. “Curiosamente, nunca tínhamos falados sobre isto”, admite Aida Suárez. “Às vezes, tenho de parar a sessão porque os temas ficam muito dispersos”.

Se algumas leitoras como Cristina destacam as imensas dúvidas de Virginia Woolf, já outras como Helena evidenciam a atualidade das palavras da autora. “A literatura era para os homens e ela sabia disso. Um homem que decide ser mulher aos 21 anos vai fazer o quê naquele tempo?”, afirma. “Orlando” é baseado na vida de Vita Sackville-West, uma escritora e amiga próxima de Virginia Woolf, com quem terá tido uma relação amorosa. Vita vestia-se de mulher nuns dias e noutros vestia-se de homem, o livro representa quase a sua biografia.

Porém, se algumas ‘confreiras’ já tinham lido o livro há bastante tempo, outras ainda não o tinham terminado e apresentavam as suas razões. “Achei que era um lirismo exagerado”, disse Carla. Mas acrescentou: “A mim pareceu-me que ela não queria descalçar a bota de ser homem”. Houve quem tivesse adormecido nas primeiras páginas. “É como os Maias, passas as primeiras páginas porque são muito descritivas”, aconselhou Helena. Eram os padrões da literatura da época, dizem.

“O feminismo em Portugal tem de fazer muito trabalho de casa”

Em entrevista ao Observador, Aida Suárez defende que a Confraria Vermelha não parte de nenhuma moda em redor da igualdade de género. “Eu conhecia e admirava o trabalho de livrarias feministas lá fora — são estabelecimentos com cerca de 40 anos. Portanto, nunca partiu de um aproveitamento da visibilidade do feminismo”, justifica.

Apesar de admitir que as ideias e os direitos das mulheres são cada vez mais comunicados nos meios de comunicação social e nas redes sociais, a livreira tem dificuldade em compreender o fenómeno. “Uma mulher não pode sair à rua e intitular-se de feminista, se não conhece o que é o feminismo. O feminismo tem de ser colocado em prática, porque senão não se alcança nada”.

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@Ricardo Castelo/ Observador

A teorização dos conceitos da igualdade de género pode significar muito, porém Aida acredita que a História não se faz de um dia para o outro e sem ação. “Antes de 1975, uma mulher não podia votar, não podia ter uma conta bancária ou viajar sozinha. Não podemos pensar que isto agora é possível devido à evolução natural da História. Não. Foram grupos de mulheres que se organizaram e conseguiram isto”, afirma.

Em Portugal, a dona da Confraria Vermelha acredita que ainda há muito caminho a percorrer. Contudo, este cantinho de mulheres já leva um ponto de avanço. “A gerência é feita por um homem e por uma mulher. Na maioria das livrarias feministas, são duas mulheres na gerência”. E com isto não adiantou mais pormenores. “Talvez com isto, parem de dizer que os homens ficam à porta”, brincou.

Apesar desta frase original da Confraria estar pregada na parede: “Se não há mimos, não é a minha revolução”, as simpatias com o “senhor Donald Trump”, como Aida Suárez faz questão de tratar o presidente dos Estados Unidos da América, são poucas, mas ainda assim muito benéficas para a biblioteca da Casa Branca. “Recomendar-lhe-ia o livro «A morte da mãe» de Maria Isabel Barreno”, disse. A razão? “É um livro que tira da inércia, desconstrói o que damos por adquirido. Se temos um jardim e não tiramos a ervas daninhas, aquilo nunca ficará bem”.

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