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Literatura Infantil

Farto da Elsa? Chegou a Coleção Antiprincesas

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Em vez de castelos e superpoderes, uma nova coleção de livros conta a história de mulheres reais que conseguiram ser extraordinárias. Frida Kahlo e Clarice Lispector são duas das "antiprincesas".

Não usam tiaras e não têm superpoderes mas mudaram o mundo à sua maneira. Frida Kahlo, Clarice Lispector, Violeta Parra e Juana Azurduy são as quatro heroínas de uma nova coleção infanto-juvenil “para meninos e meninas” que chega dia 3 de março às livrarias. “Quatro mulheres do mundo real para combater estereótipos de género junto dos mais novos”, lê-se na apresentação da coleção batizada, sugestivamente, de Coleção Antiprincesas.

Contamos histórias de mulheres porque sabemos de muitíssimas histórias de homens importantes, mas não tantas de mulheres. Conhecemos algumas histórias de princesas, é certo, mas quão longe da nossa realidade estão essas raparigas que vivem em castelos enormes e frios? Há muitas mulheres que quebraram os padrões da sua época, que não se resignaram a desempenhar as funções que a sociedade lhes impunha (os maridos, os pais, os irmãos mais velhos) e seguiram o seu próprio caminho”, escreve Nadia Fink, jornalista argentina que teve a ideia da coleção — editada originalmente pela conterrânea Chirimbote — e assina todos os textos.

Para começar são quatro livros, um por cada uma destas mulheres, escritos com uma linguagem acessível e ilustrados a cores (com recurso a algumas imagens reais) pelo também argentino Pitu Sáa. Em Portugal a edição está a cargo da Tinta da China — numa parceria com a EGEAC e o programa Lisboa por Dentro — e a 8 de março, Dia da Mulher, há direito a lançamento no Cine-Teatro Capitólio, no Parque Mayer.

Cada livro da coleção tem 28 páginas ilustradas a cores e custa 8,90€. Todos terminam com sugestões de atividades e jogos relacionados com o que se leu. © Pitu Sáa

Da pintura à literatura, passando pelas lutas políticas e a música, estas são quatro histórias inspiradoras que não podiam estar mais longe do “viveram felizes para sempre” da Disney e dos poderes mágicos de Frozen. Por isso mesmo, a primeira coisa que se vê quando se abrem os livros são as pernas de Branca de Neve, reconhecíveis pela enorme saia amarela, a irem embora para dar lugar a outras mulheres que “não se deixaram ficar à espera e, com vontade de ir mais longe, procuraram compreender o mundo de outra maneira, superar obstáculos e deixar uma obra que está para lá do tempo”. Sem tiaras nem coroas mas com muitas outras coisas na cabeça.

Quem são estas antiprincesas?

Antiprincesa nº 1: Frida Kahlo

Exemplo de força e de um imaginário sem igual, Frida Kahlo usou cores fortes para pintar o sofrimento da sua vida. Resumindo com a mesma linguagem acessível do primeiro livro da coleção — e que poupa os leitores mais pequenos, e bem, aos pormenores do famoso acidente que a deixou com a coluna partida (contados magistralmente por Alexandra Lucas Coelho num outro livro da Tinta da China, Viva México) –, Frida nasceu em 1907 mas preferia dizer que tinha nascido em 1910 “porque foi nesse ano que os camponeses começaram uma grande revolução no seu país, e por isso decidiu que ela e o novo México tinham nascido juntos”. Teve uma perna defeituosa, motivada por uma doença aos seis anos (poliomelite), e ficou presa à cama e com as costas engessadas depois do autocarro onde viajava ser esmagado por um elétrico, aos 18 anos. Para a entreter, a mãe montou um cavalete e um espelho sobre a cama: “A princípio, Frida enfurecia-se por se ver tão imóvel, mas acabou por decidir que seria a sua própria modelo. (…) Começou assim a pintar auto-retratos. E, para que a acompanhassem na solidão, acrescentava animais: nas suas pinturas passeavam macacos, cães, veados e papagaios.” Ao longo da vida pintou-se a si própria e ao México, ao muralista Diego Rivera, com quem casou, aos animais que a acompanhavam na grande Casa Azul, hoje uma casa-museu, e às lutas sociais.

A capa do livro dedicado à pintora. No final há várias atividades sugeridas, desde pintar um auto-retrato a recriar um quadro de Frida Kahlo, enviando-o depois por e-mail para a Tinta da China.

Antiprincesa nº 2: Violeta Parra

Menos conhecida dos leitores portugueses, Violeta Parra foi uma artista chilena que viajou pelo seu país de guitarra ao ombro, para ouvir e salvar do esquecimento as canções tradicionais do Chile. Nascida em 1917, numa família pobre, aprendeu a tocar sozinha, imitando os pais às escondidas (eles eram músicos de folclore mas já lhe tinham dito: “nada de ganhar a vida com a música”). Teve de usar saias feitas de cortinados e cantar na rua, em troca de esmola, encontrou e perdeu o amor em Santiago do Chile, para onde se mudou à procura de uma vida melhor, e percorreu as zonas mais recônditas do país, muitas vezes com os filhos pequenos, para ouvir e gravar, da boca dos mais velhos, as canções tradicionais que já estavam a desaparecer. “A minha única vantagem é que, graças à guitarra, pude deixar de descascar batatas. Porque eu não sou ninguém. Há muitas mulheres como eu por todo o Chile” é uma das suas frases citadas no livro. Outra, para terminar: “Eu não quero exibir-me. Quero cantar e ensinar uma verdade, quero cantar porque o mundo vale a pena e está mais confuso do que eu.”

No final do livro sugerem-se vários jogos aos leitores, como pedir aos familiares mais velhos que cantem uma canção da sua juventude ou escrever uma letra com palavras inventadas.

Antiprincesa nº 3: Juana Azurduy

A ser uma princesa da Disney, Juana Azurduy seria Mulan (ou Mulan é Azurduy, melhor dizendo). Guerreira e heroína nascida em 1780, foi uma espécie de Joana D’Arc da Bolívia que pegou na espada para lutar pela libertação do seu país, na altura colonizado pelos espanhóis. História e mito cruzam-se no livro, mas há factos que é possível balizar: aos 17 anos entrou num convento, “para onde as mulheres da altura iam para se tornarem freiras ou para estudarem”, mas foi expulsa pouco tempo depois. Casou aos 19 anos com um lavrador e juntos batalharam pela independência, ao lado dos guerrilheiros. Juana lutava a cavalo e armada com pistolas e um sabre, numa altura em que as mulheres não eram permitidas no exército. Não só lutava como um dia teve de salvar o marido que tinha sido feito prisioneiro, invertendo a ordem das histórias dos cavaleiros que salvam princesas de dragões em castelos. Comandou um esquadrão chamado Os Hussardos, teve cinco filhos — terá mesmo combatido grávida e com a filha recém-nascida nos braços — e depois da morte do marido, Manuel Padilla, numa batalha, foi lutar para a Argentina, tendo regressado à Bolívia com a independência do país, em 1824.

Juana Azurduy com o famoso sabre, na capa do livro.

Antiprincesa nº 4: Clarice Lispector

Mais do que antiprincesa, “esta brasileira considerava-se ‘anti-escritora’, porque não gostava de estruturas, das coisas académicas, nem de regras, e escrevia onde e como podia: em papelinhos, guardanapos ou com a máquina de escrever no colo, enquanto os filhos corriam e ela atendia o telefone e os ajudava com os trabalhos de casa”, lê-se na primeira página do quarto livro da coleção. Fascinante na obra e na personalidade, Clarice Lispector é o tipo de mulher difícil de resumir — até Benjamin Moser, que assinou uma monumental e excecional biografia sobre a escritora (publicada em Portugal pela Civilização, em 2010), dizia que Clarice é como a esfinge, um mistério difícil de desvendar. De “olhar felino”, como escreve Nadia Fink, Clarice Lispector nasceu em 1920, na Ucrânia, e foi para o Brasil com um ano, no navio que os pais, judeus, tiveram de apanhar para fugir das perseguições anti-semitas. Desde pequena gostava de inventar histórias com as amigas, sobretudo de contos que não tinham fim. “Quando chegava em um ponto impossível, por exemplo, todos os personagens mortos, eu pegava. E dizia: ‘Não estavam bem mortos.’ E continuava.” Ao longo da vida escreveu romances (muitos com o famoso final aberto, todos desconcertantes), livros infantis protagonizados por animais (estão publicados pela Relógio D’Água) e crónicas nos jornais para ganhar a vida, sobretudo depois de se divorciar do diplomata com quem tinha casado e regressar ao Brasil. O melhor será ficar com as palavras da própria Clarice, citada no livro anti-princesas, e esperar que a sua leitura incite os mais jovens a descobrirem-lhe a obra: “Escrever é usar a palavra como isca, para pescar o que não é palavra.”

“Clarice Lispector para meninos e meninas”, como todos os outros livros da coleção, chega dia 3 de março às livrarias.

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