O Adler, cargueiro de bandeira russa, esteve à deriva na Zona Económica Exclusiva de Portugal no final de agosto, noticiou o Expresso citando fonte oficial da Marinha Portuguesa e confirmou o Observador. Como menciona o jornal, o navio em si é alvo de sanções nos Estados Unidos, a empresa que o gere está sancionada pela União Europeia, estando envolvidos em entrega de transporte de armas para a guerra na Ucrânia, para a China e as forças pró-russas no Mali.
O porta-voz da Marinha, o comandante Ricardo Sá Granja, confirmou ao Expresso que o navio passou dentro da ZEE portuguesa entre 27 de agosto e 2 de setembro.
“No momento da entrada na ZEE portuguesa, o navio começou a derivar em direção a terra, sem nunca ter entrado em águas territoriais portuguesas“, explicou o comandante ao jornal.
Face à trajetória que mostrava uma possível entrada nas águas territoriais, Sá Granja contou ao jornal que o navio foi contactado pelo Centro de Operações Marítimas, respondendo que tinha uma avaria. A Marinha apelou, assim, a que o Adler contratasse “serviços de reboque, para evitar uma situação de navio desgovernado, que poderia fazer perigar a navegação e a costa portuguesa”, acrescentou.
A Zona Económica Exclusiva e as águas territoriais (ou mar territorial) representam dois níveis diferentes do controlo da costa portuguesa. Enquanto Portugal tem direito à exploração económica na ZEE, o chamado mar territorial já está, como explicou o porta-voz, “sujeito à soberania nacional“.
A Marinha não esclareceu qual o conteúdo do cargueiro nem se foi abordado por qualquer navio português. Porém, garantiu que “o comandante do navio agiu sempre de forma cooperante”.
A embarcação foi entretanto rebocada pelo navio especializado “Roma”, de bandeira espanhola, tendo sido abordado “a cerca de 16 milhas a oeste da Póvoa de Varzim“. Atualmente, segundo a plataforma de rasteamento Marine Traffic, o navio encontra-se atracado no porto de Oran, na costa mediterrânica da Argélia. Foi para este porto, continua o representante, que o Adler tinha sido rebocado, já no início deste mês.
Navio sancionado pelos EUA e envolvido em entregas de armas
Em maio de 2022, poucos meses depois de começar a guerra na Ucrânia, o Adler, propriedade da empresa M Leasing, foi nomeado como um dos navios sancionados pelos Estados Unidos dentro de um largo pacote destinado a restringir “a economia da Rússia e o acesso aos serviços e tecnologias de que necessita para levar a cabo esta invasão não provocada”, como explicou a então secretária do Tesouro, Janet L. Yellen.
Em 2019, o órgão noticioso independente russo baseado na Letónia Meduza tinha noticiado que o Adler foi um dos vários navios envolvidos na entrega dos sistemas russos de mísseis S-400 à China no ano anterior.
Cinco anos depois, em dezembro de 2024, o Adler atracou na Guiné-Conacri. Segundo o Le Monde, o cargueiro transportava uma série de veículos militares que terão servido para reforçar a junta militar pró-russa que governa o Mali e é liderada pelo Presidente Assimi Goïta, que é apoiada pelas forças paramilitares controladas por Moscovo que vieram substituir a presença do Grupo Wagner: os Africa Corps.
Para além do navio, a própria empresa dona do Adler e a sua diretora executiva Svetlana Savelyeva também são alvo de penalizações, desta vez pela União Europeia, sendo nomeadas no 16.º pacote de sanções europeu, de fevereiro deste ano.
Para a União Europeia, “a M Leasing LLC está envolvida numa rede de transporte militar de navios de carga russos que transportam armamento norte-coreano de Pyongyang para instalações militares no porto russo de Dunai”.
“Posteriormente, as munições norte-coreanas transportadas pela M Leasing LLC são transferidas para depósitos na fronteira ocidental da Rússia para serem utilizadas na guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia“, acrescentou a UE.