Catalunha

A crise catalã afecta todos os europeus

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O vento de desunião que sopra em Espanha é de um nível inquietante, sem pontes para atravessar nem sombra de linguagem em comum, arriscando-se a ressuscitar os fantasmas da guerra civil.

Há exactamente 18 meses, sem aderir à secessão catalã nem de resto acreditar em tal possibilidade, manifestei aqui a minha empatia com a Catalunha, onde tenho fortes laços familiares, ao mesmo tempo que reconhecia a enorme responsabilidade do actual primeiro-ministro do Partido Popular (PP) no desencadeamento deste nefasto processo. Com efeito, desde 2006, quando se encontrou perante o novo Estatuto da Catalunha (aprovado por referendo nacional), o PM Rajoy introduziu vários cortes puramente ideológicos, como suprimir a designação da Catalunha por “nação”, conforme sucede com a Andaluzia e a Comunidade Valenciana, ao mesmo que prejudicava economicamente a Catalunha recusando alargar-lhe o sistema de relações financeiras com o Estado Central de que o País Basco e Navarra beneficiam.

Tudo unicamente para agradar aos apoiantes e clientelas mais conservadoras e centralistas do PP. Neste sentido, independentemente da ilegalidade constitucional do anunciado “referendo de auto-determinação” e da incerteza que pesaria sobre a Catalunha no caso de tal decisão unilateral, muitos observadores pensam que nem o PM Rajoy, nem tão pouco qualquer membro do actual govern catalão, são idóneos para negociar o que quer que seja!

Há ano e meio, eu tirava esta conclusão: “Uma vez mais, a União Europeia começou por ser uma solução para se transformar num problema”! Como Portugal e tantos outros países que entretanto aderiram à UE, esta prometia resolver todos os problemas económicos e políticos desses países, como quando o governo português exultava beatamente com a entrada no euro: “Estamos no pelotão da frente”!

Ora, o que se verificou desde a grande recessão de 2007, que só agora dá sinais de estar a terminar, é que a pertença à União se transformou, para muitos, na causa de todos os problemas de cada país, desencadeando correntes soberanistas e populistas que acabaram por minar o consenso político-partidário em vigor até então na Europa. A nossa própria “geringonça” faz parte dessa vaga ao colocar a estabilidade política sob a dependência de partidos anti-europeus e contra o euro!

Em Espanha, a longa crise parlamentar de 2015 e 2016 em busca falhada de consenso fez surgir novos partidos, como o Podemos e o Ciudadanos, e provocou uma clivagem interna no PSOE (socialista), acabando por fornecer um terreno fértil para a irrupção de novos movimentos multitudinários e até violentos – patrocinados ou inspirados pelo populismo do Podemos — que chegaram ao poder em muitas cidades e regiões importantes.

Não foi o caso no País Basco nem na maioria das situações locais onde não havia correntes nacionalistas duradouras. Em contrapartida, na Catalunha, a linhagem política nacionalista era antiga e tinha presença nos governos catalães antes da guerra civil espanhola. Com a implantação da democracia, o movimento nacionalista era dominado pela corrente conservadora da antiga Convergència i Uniò de Jordi Pujol, frequentemente próxima dos governos centrais, mas que, entretanto, foi assolada pela corrupção, reaparecendo agora sob a liderança de um representante da ala mais obtusa do separatismo, Carles Puigdemont.

Existia também desde antes da guerra civil a Esquerda Republicana Catalã, que esteve igualmente no govern no início do século e cujo actual líder, Oriol Junqueras, é vice-presidente da coligação soberanista no poder e anti-europeísta declarado. Hoje, esses antigos partidos nacionalistas e os movimentos emergentes da esquerda populista, uns inspirados pelo Podemos e outros “locais”, como o da presidente da Câmara de Barcelona, Ada Colau, aliaram-se para garantir uma ínfima maioria que permitiu à coligação da direita e da esquerda nacionalistas lançar o processo separatista, sem qualquer outra base programática e com evidente prejuízo para a construção da UE.

Foi com viragens de 180º como esta que o processo de convergência europeu passou na última década de centrípeto a centrífugo, ameaçando sobretudo os países que, por motivos económicos e/ou ideológicos, se afastaram do eixo condutor da comunidade, a qual não poderá afastar-se por óbvias razões da convergência monetária. O enorme desconcerto em que se transformou a arrogância inicial do Brexit, na sequência aliás da tentativa referendária de auto-determinação da Escócia, agora obrigada de vez a sair da UE, tal desconcerto mostra que, se são fortes as forças centrífugas, não é menos verdade que quem mais perde com a troca são aqueles que saem ou pretenderiam sair da União.

As mentiras dos impulsionadores da auto-determinação catalã a respeito do futuro do novo país na UE são a prova do preço que o nacionalismo e o soberanismo terão de pagar daqui para a frente! Pelo seu lado, o comportamento puramente jurídico-administrativo, totalmente impolítico, do PM Rajoy perante o desespero das autoridades catalãs torna-se tão provocatório como o destas. Com a ajuda do alarmismo universal dos media, o vento de desunião que sopra em Espanha é de um nível inquietante, sem pontes para atravessar nem sombra de linguagem em comum, arriscando-se a ressuscitar os fantasmas da guerra civil.

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