A presente crise político-partidária, em que o primeiro-ministro cessante pretende candidatar-se de novo após ter exibido publicamente as suas manigâncias financeiras, mostra até que ponto Portugal perdeu a corrida ao desenvolvimento socioeconómico e cultural. Cinquenta anos após a liquidação do decrépito regime de outros tantos 50 anos de ditadura colonial e corporativa de Oliveira Salazar, a democracia alardeada desde 1974 por Mário Soares e o recém-criado PS teve as dificuldades que se conhecem em superar as pretensões do Partido Comunista e dos seus comparsas mais ou menos esclarecidos, acerca do que era necessário fazer após o golpe militar do 25 de Abril.

Entretanto, o processo de liquidação da ditadura deixou de ser controlado à distância pelos órgãos norte-americanos após cumprirem o objectivo de conferir a independência formal às últimas colónias lusitanas. Reduzidas aos seus limites as veleidades revolucionárias de Álvaro Cunhal e dos seus seguidores, Mário Soares ainda teve oportunidade de dar a mão à luta pela democratização da Espanha após a morte do ditador Francisco Franco.

A partir daí, ambos os países ibéricos se colocaram sob a protecção da actual União Europeia, então em vias de crescimento numérico e de crescente alargamento. Dito isto, com o tempo, a lamentável saída da Inglaterra do projecto europeu e a crescente adesão dos países oriundos da antiga União Soviética, Portugal e países igualmente desgovernados como a Grécia não têm feito outra coisa senão desbaratar o dinheiro da UE e ir descendo na escala europeia…

Tal processo é suficiente para perceber que a propagandeada democratização de Portugal, como a da Grécia, falhou inteiramente o seu papel político em tudo quanto ultrapassava o atabalhoado liberalismo dos partidos então chamados à praça eleitoral. Com variantes fáceis de adivinhar, aquilo que se viu crescer e apoderar-se não só das rédeas do poder como dos fundos financeiros deixados pelo antigo regime, foi o número crescente de grupelhos partidários com poucos membros militantes e pagantes: todos juntos, nem um quarto de milhão de adeptos terão hoje…

Isso transformou, contudo, grande parte da vida do país numa corrida permanente aos «serviços públicos» e aos respectivos empregos e dependências, bem como aos crescentes regimes de envelhecimento e de reforma. Ao cabo de pouco mais de dez anos, Portugal logrou enfim associar-se à Espanha em Janeiro de 1986 a fim de entrar, como então se dizia, na «Europa»!

Meio-século após a proclamação da liberdade e da democracia, pode-se calcular facilmente a gradual estigmatização do processo sócio-económico e cultural do país, escolarização incluída, como sendo o resultado de uma extrema dominação estatal perante a nítida redução dos nascimentos observados em Portugal desde o Censo de 1981 bem como a c0ntinuação da emigração.

Simultaneamente, esta brusca redução do anterior crescimento demográfico nacional foi sendo «compensada» pela imigração proveniente das antigas colónias, substituídas actualmente por origens cada vez mais longínquas, tanto do ponto de vista geográfico como étnico, linguístico, religioso e mais traços que desconhecemos…

Foi através desse processo imigratório cada vez menos modernizado do ponto de vista sociocultural e, portanto, menos capacitado do ponto de vista profissional e técnico, que os governos partidários substituíram em grande parte os sectores de trabalho mais profissionalizados pelos estabelecimentos de instrução. Contudo, os trabalhadores não deixaram de continuar a emigrar para o estrangeiro, como tem sido desde sempre, confirmando a tradição nacional de expulsar o mais produtivo em troca do menos desenvolvido, seja em que regime económico for…

Sem necessariamente conceber essa troca de forma deliberada mas apenas herdada do passado, tem sido esse o meio de a «elite» político-partidária enquadrar a esmagadora maioria da população local através dos chamados «sistemas públicos», os quais foram assumidos como gestores e executantes da generalidade das actividades socioeconómicas e culturais do país, mas com resultados e remunerações igualmente medíocres.

As comparações com a maioria dos países provenientes do «domínio soviético» que têm vindo a entrar para a União Europeia confirmam o atraso do referido modelo português, o qual vai ficando regularmente na cauda da Europa. Entretanto, são as imigrações provenientes cada vez de mais longe e com menos preparação profissional que vêm colmatar os empregos manuais sem qualificação.

O peso morto do Estado reflecte-se não só no número desproporcionado dos funcionários públicos (cerca de 750.00 mais os respectivos aposentados e viúvas, para cima de um milhão tudo incluído!) como também dos partidos políticos, a começar pelo número exorbitante de membros do parlamento sem funções de peso que se conheçam, como são os 230 deputados portugueses correspondentes a escassos 10 milhões de habitantes… comparando com os 630 deputados para 83 milhões de Alemães ou com os 577 deputados para 68 milhões de Franceses.

Quanto à comunicação social, num país conhecido historicamente pela baixa literacia, o número de publicações diárias não podia deixar de ser escasso como escassas são as suas tiragens e, consequentemente, o debate público acaba por se restringir praticamente à chamada «comunicação social» que inunda as televisões! No momento presente, a vida do país está de novo entregue a mais um governo provisório que não deixará de se concentrar, sobretudo se não exclusivamente, em conquistar votos para a próxima eleição… Ficando assim o país igual a si mesmo sem qualquer planificação nem objectivos conhecidos da população!