Mário Soares (1924-2017)

As consequências económicas do Dr. Soares

Autor
  • Ricardo Santos

Por muito que desprezasse os números, Mário Soares teve o instinto necessário para fazer as melhores escolhas e, principalmente, para escolher os melhores sempre que foi necessário.

Mais do que isto

É Jesus Cristo

Que não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca

“Liberdade”, Fernando Pessoa, citado por Mário Soares na apresentação da sua última candidatura presidencial, em 2005

Mesmo não querendo repetir os comentários que foram feitos por tantos ao longo dos últimos dias, tenho sempre de começar por dizer que Mário Soares foi um grande Político (com “P” maiúsculo), um grande lutador pela liberdade e o maior político do século XX português.

Mas Mário Soares teve também outra faceta, que ele próprio gostava de menorizar: embora não gostasse de números, sempre que foi primeiro-ministro escolheu sempre as melhores políticas económicas, fez as melhores escolhas para ministros das Finanças e governadores do Banco de Portugal – mesmo que lhes chegasse a pedir para não o acordarem a meio da noite como fez a Silva Lopes. Por isso, parafraseando Keynes, as consequências económicas do Dr. Soares são, sem dúvida, as melhores.

Sou muito novo para me lembrar, só me lembro do “Bochechas” sempre bem disposto, do “Presidente- Rei”, das ultimas duas campanhas e das duras críticas à troika. Mas é fácil reconhecer que foi graças aos governos por ele liderados que Portugal evitou por duas vezes a bancarrota, em 1977 e 3m 1983 – primeiro após os exageros do “verão quente” e da revolução, depois devido aos erros da Aliança Democrática.

Em 1977, com o país perto de ficar sem reservas cambiais, e depois do desvarios de 1975, foi graças à sua credibilidade externa e diplomacia, mas também graças à credibilidade da equipa económica que escolheu para o governo, que conseguiu assegurar um empréstimo junto dos principais accionistas do Fundo Monetário Internacional (FMI). Depois, foi suficientemente pragmático para se aliar ao partido mais à direita, o CDS, e conseguir cumprir o programa. Contra todas as críticas, principalmente do seu partido, desvalorizou o escudo, controlou salários, a inflação e o défice público. Foi ainda neste governo que assinou o pedido de adesão às comunidades europeias.

Em 1983, volta ao governo e tem de implementar um novo programa do FMI. Mais uma vez, o país está perto da bancarrota, mas este programa serve, também, para preparar a adesão à União Europeia. Mais uma vez, foi pragmático e alia-se ao PSD, seguindo sempre o que lhe dizia o seu ministro das Finanças, Ernâni Lopes. Mais uma vez, o défice externo e as finanças públicas foram controlados. Com este programa, Portugal começou a abrir a porta à iniciativa privada e reorganizou o Estado. Sem grande surpresa, as medidas que teve de implementar fizeram-no colecionar, na altura, vários inimigos, da esquerda à direita.

A eficácia da implementação do programa foi tal que as últimas tranches do financiamento do FMI não foram necessárias, já que Portugal voltou a conseguir financiar-se no mercado. Por isso, lamentavelmente, parte da reforma do Estado terá ficado por fazer. Entretanto, em 1985u o PSD, já liderado por Cavaco Silva, retirou o apoio ao governo. E o resto é história.

Mas a mais importante consequência económica da actuação do Dr. Soares e da sua última passagem por São Bento foi, mesmo, a adesão à Comunidade Europeia. Embora a sua principal motivação tenha sido manter Portugal no (então) restrito clube das democracias europeias, a CEE tinha (e tem) como principio base a economia de mercado e a construção do mercado comum. Apesar das suas críticas dos últimos anos de vida, o primeiro-ministro Mário Soares era, em 1985, um dos maiores apoiantes do mercado comum e da iniciativa privada.

Há inúmeras críticas que podem ser feitas às negociações da adesão à CEE, principalmente quanto à política agrícola comum e às pescas, mas a prioridade era (e bem) garantir que Portugal entrava naquele ano com Espanha. Mais uma vez, Mário Soares acertou e avaliou bem na altura o que poderia custar o adiamento da adesão.

Graças à adesão à CEE, Portugal reabriu vários sectores ao investimento privado, principalmente a banca e os seguros. E, posteriormente, Mário Soares apoiou as reprivatizações no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, já no Palácio de Belém, em perfeita coabitação com os governos de maioria absoluta do PSD. Também nessa altura, Soares não teve problema em aceitar que os grupos económicos voltassem maioritariamente para os antigos donos (ainda que em alguns casos a preços de “amigo”)

Por tudo isto, e ignorando a retórica anticapitalista dos últimos anos, as consequências económicas do Dr. Soares foram mais do que positivas. Por muito que desprezasse os números, Mário Soares teve o instinto necessário para fazer as melhores escolhas e, principalmente, para escolher os melhores sempre que foi necessário.

Por isso, muito obrigado Dr. Soares. Obrigado pelo que o que fez antes do 25 de Abril. Obrigado pelo que fez em 1975 mas, também, obrigado pela sua visão e pelo seu pragmatismo quando governou.

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