Sociedade

Os irmãos: uma espécie em vias de extinção

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Muito antes de ser um ideal da Revolução Francesa, a fraternidade já era um princípio dos cristãos. Com tantos ataques à vida, ao casamento e à família, os irmãos são uma espécie em vias de extinção.

“Se queres ver uma criança feliz, dá-lhe um irmão. Se queres ver uma criança muito feliz, dá-lhe muitos irmãos”, dizia Fernando Ribeiro e Castro, fundador da Associação Portuguesa das Famílias Numerosas (APFN) e da Confederação Europeia de Famílias Numerosas (ELFAC). Com sua mulher, Leonor, teve uma muito numerosa e, portanto, muito feliz família: 13 filhos! Em jeito de testamento – faleceu em 2014 – deixou essa frase, especialmente apropriada para o Dia dos Irmãos, que ocorre todos os anos, no último dia do mês de Maio.

Num calendário pejado dos mais variados dias internacionais e mundiais, fazia falta um Dia dos Irmãos: a circunstância de ter sido portuguesa a iniciativa para a sua criação muito honra o nosso país, onde uma experiência pioneira desta celebração teve lugar, antes ainda desta data ganhar relevância internacional. Como se recorda no site da APFN: “a Confederação Europeia das Famílias Numerosas, numa deliberação tomada pela sua assembleia geral em 18 de Setembro de 2014, decidiu proclamar, instituir e celebrar o Dia dos Irmãos a 31 de Maio de cada ano, depois de uma primeira experiência realizada em Portugal nesse ano”. Uma comemoração que está, agora, especialmente associada à saudosa memória de Fernando Ribeiro e Castro.

“Um Dia dos Irmãos – lê-se também no mesmo site – é uma festa familiar por excelência – é uma calorosa celebração familiar na sua horizontalidade e, no sentido exacto da palavra, fraternidade. Ora, o mês de Maio é um mês onde se assinalam algumas celebrações familiares, como o Dia da Mãe (em Portugal, no 1º Domingo de Maio) e o Dia Internacional da Família, declarado e instituído a 15 de Maio por uma deliberação da Assembleia Geral das Nações Unidas em 1992”.

Por uma muito feliz circunstância, neste mês de Maio, dois pares de irmãos portugueses estiveram em destaque, por muito diferentes motivos. Primeiro, os irmãos Francisco e Jacinta Marto, que o Papa Francisco canonizou na celebração eucarística a que presidiu em Fátima, no passado dia 13, centésimo aniversário da primeira aparição mariana na Cova da Iria. Foi também nessa data que, por curiosa coincidência, outros dois irmãos portugueses – inédita proeza! – ganharam o festival da Eurovisão: Luísa e Salvador Sobral.

Muito antes de ser um ideal da Revolução Francesa, a fraternidade era já um princípio e uma realidade pregada e intensamente vivida pelos cristãos. Os relatos do livro dos Actos dos Apóstolos, cuja autoria se atribui ao evangelista Lucas, são especialmente expressivos de como os primeiros cristãos viviam essa fraternidade que, entre eles, tinha os contornos de uma verdadeira vida comunitária. Mesmo que, posteriormente, não tenha sido possível manter esse estilo de vida e de partilha, excepto nalgumas instituições religiosas, a verdade é que a fé, mesmo sendo um dom pessoal, pelo qual cada fiel dará contas ao Criador, não pode ser vivida senão comunitariamente, ou seja, em Igreja. Como a eclesiologia da comunhão, assumida pelo Concílio Vaticano II, proclama, não há lugar para um individualismo católico: não se pode ser verdadeiro cristão à margem dos outros fiéis, ou seja, dispensando os irmãos.

Por isso também, a única oração que o Senhor nos ensinou, se reza sempre no plural, ao “Pai-nosso que estás nos Céus”, a quem pedimos, entre outros dons, “o pão nosso de cada dia”. Aliás, o próprio Cristo fez-se acompanhar por um grupo de seus discípulos que, dessa forma, introduziu no estilo de vida comunitária. Também os esposos cristãos são chamados a viver, com os seus filhos e outros familiares, numa específica comunidade: os seus lares devem ser ‘igrejas domésticas’, onde a relação natural é sublimada pela celebração da mesma fé, esperança e caridade.

Dificilmente se compreende Fátima, se não se conhecer o ambiente profundamente cristão das famílias dos pastorinhos. Não só eram primos direitos, ou coirmãos – a mãe dos dois mais novos era irmã do pai da Lúcia – como os dois Marto eram irmãos. Este seu parentesco foi importante, sobretudo para a Jacinta, que encontrou no irmão o apoio que os pais nem sempre lhe deram. Com efeito, quando os dois foram detidos e aterrorizados pelo administrador do concelho, os pais Marto não intervieram, pelo que foi o Francisco quem de facto animou a irmã, a quem mais custou aquele aparente abandono dos seus pais. Que bons padroeiros para o Dia dos Irmãos!

Portugal é um dos países europeus com mais baixa natalidade e, não obstante, a maioria de esquerda continua a apostar em medidas contra a vida, quer fomentando o aborto, quer incentivando a eutanásia. Não há políticas que estimulem as famílias numerosas a nível da habitação, da educação ou da saúde. Não se lhes possibilita a opção por uma educação de qualidade em estabelecimentos não estatais, porque os preços praticados nestas escolas são muito superiores aos do tendencialmente gratuito ensino estatal que, por regra, é de menor qualidade, mas mais caro para os contribuintes do que as escolas com contrato de associação.

Atenta-se contra a família natural e o matrimónio, em benefício de outras uniões que, nalguns casos, até excluem a natalidade: a propósito da “Guarda compartilhada” e sob o auspicioso lema “Matar (sic!) o casal conjugal, fazer nascer o casal parental”, dois juízes de Direito, dos Juízos de Família e Menores de Lisboa e Mafra, dissertaram no passado dia 30, no Seixal, depois de o terem feito no Barreiro, em Oeiras, em Sintra, em Évora e em Vila Franca de Xira: uma autêntica tournée ‘conjugalícida’! E, no caso Liliana Melo, foi a própria Segurança Social que retirou a esta pobre mãe a quase totalidade dos filhos, que também separou, impedindo a convivência dos irmãos entre si.

Com tantos ataques à vida, ao casamento e à família, não estranha que se celebre o Dia dos Irmãos: afinal de contas, é mais uma espécie em vias de extinção…

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