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Para os homens: Já foi abraçado por um colega ou um amigo sem estar à espera? Estendeu a mão para um cumprimento formal e em troca recebeu um abraço? Talvez isso signifique que a moda dos abraços pode estar a pegar em Portugal.

O site norte-americano philly.com apercebeu-se de uma tendência entre a geração conhecida por millennials (que compreende as pessoas nascidas entre 1980 e os anos 2000), mas que está a alargar-se a outras faixas etárias: há mais homens a abraçar outros homens.

Joey Pasco, um ilustrador de 24 anos, originário de Filadélfia, explicou ao philly.com porque é que gosta de abraçar os amigos e os colegas e rejeita os apertos de mão. “Gosto muito de abraçar pessoas. Aos meus amigos homens dou um grande abraço apertado. Não vou apertar a mão de alguém que conheço há muito tempo. Isso parece-me demasiado formal. Não sou um tipo formal”.

Estaremos mesmo perante uma nova tendência? O site de Filadélfia consultou o sociólogo Mark McCormack da Universidade de Durham em Inglaterra, que estudou o comportamento de jovens nos EUA e no Reino Unido e que considera que este aumento de abraços pode estar relacionado com um declínio na homofobia.

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“Estes jovens não se importam se são entendidos como gay. Nos anos 80 e 90, se eras visto como gay irias enfrentar um grande estigma e serias marginalizado e insultado”, disse o sociólogo. “Agora o comportamento de género já não tem as mesmas regras”, continuou.

“Acho que as gerações anteriores tinham mais receio de demonstrações de afeta a outros homens porque isso era visto como algo pouco másculo”, disse Joey Pasco. Mas agora, diz Pasco, “a palavra bromance [relação próxima, mas não romântica entre dois homens heterossexuais] entrou para a linguagem vernacular e as pessoas já não têm tanto medo disso”.

McCormack e Eric Anderson da Universidade de Winchester, publicaram um estudo sobre o comportamento de atletas heterossexuais britânicos em idade universitária. Os resultados mostraram que, para além dos abraços, 93% dos inquiridos admitiu já ter apertado outros homens de forma carinhosa ou dormido agarrado a um amigo.

Segundo McCormack há um conjunto de influências – do desporto à cultura afro-americana – que estão a facilitar esta mudança. Está a referir-se a determinados gestos encorajados em desportos de equipa, em que é comum que os jogadores deem palmadas nos rabos uns dos outros ou celebrem a vitória com abraços apertados.

Mas também à adoção de uma prática generalizada na cultura afro-americana que o site philly.com designa como o “híbrido aperto de mão-abraço”, ou seja, quando, ao mesmo tempo que se dá um passou-bem, se dá também uma palmada nas costas. Talvez esteja a visualizar os famosos apertos de mão-abraços do presidente Obama. Esses mesmo!

Egyptian President Hosni Mubarak (L) greets his US counterpart Barack Obama at the presidential palace in Cairo on June 4, 2009. Obama is in Egypt to make a much-heralded address to the world's 1.5 billion Muslims, seeking to heal a wide rift between America and Islam. AFP PHOTO/KHALED DESOUKI (Photo credit should read KHALED DESOUKI/AFP/Getty Images)

Obama aperta a mão e toca no braço de Mubarak, antigo presidente do Egito

during day two of the Democratic National Convention at Time Warner Cable Arena on September 5, 2012 in Charlotte, North Carolina. The DNC that will run through September 7, will nominate U.S. President Barack Obama as the Democratic presidential candidate.

Um abraço puro entre Clinton e Obama na Convenção do Partido Democrático em 2012

Mas esta moda dos abraços não é bem aceite por todos. Segundo o philly.com, a tendência dos abraços provoca, muitas vezes, momentos constrangedores entre os millennials e homens mais velhos que “se habituaram a medir a sua masculinidade pela força dos seus apertos de mão”.

As situações mais estranhas não se verificam apenas em diferentes gerações. Voltemos aos abraços de Obama. Um deles, em particular, gerou alguma confusão. Quando Obama e o Governador de Nova Jérsia, Chris Christie, se cumprimentaram à chegada do Presidente dos EUA a Atlantic City depois do furacão Sandy, Christie foi criticado por ter um bromance com Obama. Christie pertence ao Partido Republicano e na altura – a fotografia foi tirada uma semana antes das eleições presidenciais de 2012 – foi acusado de estar a prejudicar o candidato Mitt Romney.

US President Barack Obama (R) is greeted by New Jersey Governor Chris Christie upon arriving in Atlantic City, New Jersey, on October 31, 2012 to visit areas hardest hit by the unprecedented cyclone Sandy. Americans sifted through the wreckage of superstorm Sandy on Wednesday as millions remained without power. The storm carved a trail of devastation across New York City and New Jersey, killing dozens of people in several states, swamping miles of coastline, and throwing the tied-up White House race into disarray just days before the vote. AFP PHOTO/Jewel Samad (Photo credit should read JEWEL SAMAD/AFP/Getty Images)

A combinação do aperto de mão com o abraço gerou polémica

Christie viu-se obrigado a desmentir a acusação de que os dois teriam uma relação próxima e disse mesmo: “Nunca abracei Obama”.

Polémicas políticas à parte, há quem considere que o hábito de dar abraços pode trazer alguns problemas aos jovens que tentam entrar no mercado de trabalho ou adaptar-se à vida adulta. Gail Madison, uma consultora de etiqueta ouvida pelo philly.com e forte defensora do aperto de mão, acha que abraçar a pessoa errada – como o patrão, um cliente ou o pai de uma namorada – pode parecer pouco respeitador ou falso.

Para aqueles que poderão ver-se confrontados com um abraço não desejado, Madison aconselha: inclinem o ombro direito para a frente com a intenção de oferecer um aperto de mão profissional. Se isso falhar, pode sempre dizer que está com gripe…

Mas talvez queira pensar melhor nesta questão dos abraços. É que, segundo o sociólogo McCormack, alguns estudos descobriram que abraçar tem benefícios para a saúde. Pelos vistos, fazem aumentar o número de hormonas que melhora o humor, leva a diminuições na pressão sanguínea e reduz o risco de doenças do coração e de depressões.