Chama-se Outra Loiça e não é por acaso. O restaurante fica no mesmo local onde, em tempos, funcionava a histórica Fábrica de Loiça de Sacavém. A casa indo-portuguesa, aberta há dez anos por um casal de origem indiana, aposta numa ementa que retrata a gastronomia dos dois países. O negócio de família não fecha os olhos à atualidade e criou um menu que é um sucesso. “Criámos a «dose troika» [há um ano] por causa do aumento do IVA. Decidimos fazê-la mais pequena, com a mesma qualidade, e baixar o preço”, explica Riaz Ali, o filho do proprietário, que também trabalha no restaurante.

Ao que tudo indica, foi uma boa decisão que trouxe novos clientes e fez crescer o negócio entre 15 a 20%. “Tínhamos clientes que vinham duas a três vezes por semana e que, atualmente, vêm com mais frequência. Quase diariamente”, garante Riaz. Uns acham graça ao nome e mesmo quem não gosta acaba por escolher o menu porque o preço, esse, não deixa de ser convidativo. Os pratos do dia são rotativos e podem ser incluídos na “dose troika”, entre 6,50 e 9,50 euros.

Com o fim do programa de assistência, e consequente saída da troika (BCE, FMI e Comissão Europeia), a dose em questão manteve-se, mas foi criada, muito a propósito, a proposta “saída limpa”. O menu, a 7,90 euros, é ligeiramente maior.

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No centro de Lisboa a tendência é a mesma. O restaurante Sessenta, que ocupa o piso térreo de um edifício distinguido com o Prémio Valmor de Arquitetura, na zona de Picoas, adoptou os menus troika apenas para take-away. Os quatro sócios quiseram ironizar com os tempos de crise ao implementar os menus “troika”, “anticrise” e “não há crise” (de 6,50 a 8,50 euros). Os nomes associados à austeridade não assustam ninguém e continuam a ser bem recebidos, conta Ricardo Gonçalves, um dos proprietários. Não são poucas as vezes que geram conversas sobre o estado da nação; a sugestão “não há crise” é, por norma, das mais comentadas, embora a menos pedida.

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Ricardo Guimarães conta que quando comprou o restaurante a crise ainda não se fazia sentir como hoje em dia. Por essa razão, os primeiros seis meses correram bem. O problema surgiu em 2009. Os novos menus, surgidos em finais de 2011, pouco tempo depois do pedido de resgate de Portugal, foram um pequeno contributo para reanimar o negócio. “Não posso dizer que estamos milionários com o take-away, mas vai funcionando”, explica. E qual o futuro deles? “Se calhar está na altura de começarmos a pensar em menus de felicitações!”, brinca.

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A moda que levou a sátira política às mesas dos restaurantes espalhou-se um pouco por todo o país como reação quase imediata ao resgate, em maio de 2011. Nélio Soares, do Apolo, no Funchal, também quer manter o “menu troika” (prato do dia, bebida e café por 6,75 euros). “Não tenciono acabar com ele nos próximos tempos. É importante recordar, sobretudo a história recente”.

À data, foi uma tentativa de combater a perda de receita dos clientes portugueses. “A nossa ideia foi dar um pouco a volta ao texto, como se costuma dizer. Já tínhamos prato do dia, mas ainda estava aquém das posses das pessoas”, explica o gerente daquele que é considerado um dos mais antigos restaurantes na Madeira, aberto em 1945. Os resultados estão à vista: houve quem, no começo, engraçasse com o nome e que agora se mantenha fiel à proposta económica.

O sentido de humor, que deu uma conotação mais leve à palavra russa usada para definir um conjunto de três entidades, estendeu-se a novos produtos. O exemplo mais recente pertence à Real Hamburgueria Portuguesa, inaugurada em 2013, que confeciona hambúrgueres com ingredientes típicos da gastronomia nacional. Entre eles, o “troika” (4,50 euros), que leva alface, tomate, queijo Flamengo e cebola. Destaque ainda para o “Submarino do Portas” (7 euros). Em Lisboa, a fórmula repete-se no Honorato, ao todo são três restaurantes, com o hambúrguer “troika” a ser o mais barato da casa (3,40 euros, em formato mini).

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O Troika Bar, no Bairro Alto, é um caso emblemático. O espaço abriu há cinco anos com o nome Chueca, mas há dois foi reabaptizado. A ideia partiu de Cristina Almeida, que trabalha na restauração há mais de 20 anos. No bar, a bebida mais pedida é o shot “troika”, por 1 euro. A CaipiTroika, 3 euros, também encabeça a lista dos pedidos. É parecida à caipirinha, embora não leve cachaça.

Tem base de vinho do Porto e três bebidas à mistura que Cristina Almeida não quer revelar – “é o segredo da troika”, garante divertida. Menos simpático é o prognóstico das vendas. A proprietária ainda se recorda dos tempos áureos do consumo noturno, quando vendia 12 barris de cerveja de 50 litros numa noite. Hoje, no Troika Bar, vende apenas um. E acrescenta: “antigamente os jovens gastavam a mesada de 50 euros numa ou duas noites. Hoje em dia, andam a contar moedinhas para comprar uma imperial de um euro”.

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Ao que parece, preços baixos e nomes engraçados foram (e são) a resposta generalizada de alguns estabelecimentos face à crise económica. Mas nem todos os restaurantes optam por manter o conceito. O 2Good, no Restelo, é exemplo disso. Até há cerca de seis meses tinha na ementa menus anticrise batizados de “FMI”, “Sarkozy” e “Merkel”. Foram retirados pelos proprietários, que viram os antigos hábitos de consumo timidamente regressar. Ainda assim, e a julgar pela amostra, é caso para dizer que a troika, tão cedo, não se vai embora.