Bolívia

O Governo da Bolívia inverteu o relógio, para passar uma mensagem política

Países do sul devem ter "relógios do sul", defendem os responsáveis bolivianos. Foi por isso que decidiram alterar a numeração do relógio do Congresso do país, um gesto que é mais do que capricho.

O edifício do Congresso, ainda com o relógio de numeração romana

AIZAR RALDES/ AFP/ Getty Images

O relógio do Congresso boliviano, em La Paz, passou esta terça-feira a ter a numeração das horas ao contrário e os seus ponteiros passaram a girar para a esquerda, naquilo que os responsáveis políticos do país definiram como uma afirmação dos povos do sul.

É este o novo aspeto do relógio do Congresso

“Estamos no sul e é tempo de recuperar a nossa identidade”, disse David Choquehuanca, ministro dos Negócios Estrangeiros boliviano, que participou em pelo menos duas conferências de imprensa com o presidente Evo Morales e com os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados. “O relógio invertido (…) significa que, para nós, o nosso norte é o sul. Porque é no sul que nascem ideologias”, declarou na sua conta de Twitter Marcelo Elío, responsável pela Câmara dos Deputados, que referiu ainda “uma nova ordem mundial a nascer no sul”.

“Quem disse que os relógios tinham de girar sempre neste sentido [para a direita]? Porque temos sempre de obedecer, porque não podemos ser criativos?”, perguntou Choquehuanca, que revelou ainda que na recente cimeira do G 77, realizada no país, todas as delegações receberam um relógio com as mesmas características em forma de mapa da Bolívia – incluindo territórios que já não lhe pertencem.

O relógio foi alterado na sexta-feira passada à meia-noite, altura do início do solstício de inverno, explicou o presidente do Senado boliviano. Os atuais números decimais foram pintados por cima da numeração romana que o aparelho tinha desde 1905.

Muitos habitantes de La Paz e a oposição parlamentar boliviana foram apanhados de surpresa pelas mudanças no relógio, o que levou mesmo alguns deputados a pedir explicações ao Governo. “Se quiserem comprar um relógio do sul, façam-no; se querem usar um do norte, poderão utilizá-lo. Não se pode impor”, disse Choquehuanca, quando questionado sobre o novo sistema de relógios seria tornado obrigatório para todos os cidadãos bolivianos.

Lisboa também tem um relógio assim – há décadas

Também há um relógio com os ponteiros a andar ao contrário em Lisboa. Mas sem qualquer mensagem política. É o velho relógio do British Bar, junto ao Cais do Sodré, onde o mostrador enquadrado por uma moldura de madeira é apenas mais uma peça da decoração kitsch daquele velho estabelecimento. “Roda em sentido contrário e marca horas pontualíssimas”, disse dele José Cardoso Pires no seu livro “Lisboa, Livro de Bordo” (1997).

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