Morreu este sábado José Delgado Domingos, ex-professor catedrático do Instituto Superior Técnico (IST) e figura influente em vários debates públicos na área do ambiente. Tinha 79 anos e continuava activo em diversas frentes, pois era presidente da Agência Municipal de Energia de Lisboa (E-Nova) e continuava ligado a um projecto meteorológico no IST, um projecto inovador que permitia fazer previsões muito precisas sobre o vento que depois eram fornecidas às Redes Energéticas Nacionais (REN).

Licenciado em engenharia mecânica (1959), Delgado Domingos esteve toda a vida ligado ao IST e tornou-se conhecido do grande público no final da década de 1970, quando no nosso país se começou a discutir a hipótese de construir uma central nuclear, que chegou a estar prevista para Ferrel, perto de Peniche. Nessa altura foi a voz científica da contestação a essa opção, tendo publicado uma obra de referência – “Inteligência ou Subserviência Nacional?”, 1978/9, Afrontamento, dois volumes – que foi fundamental para dar maior consistência argumentativa aos que contestavam a opção nuclear.

“Veio do mundo da energia para desmistificar a fraude económica e a fraude de segurança que era o nuclear”, lembrou o antigo secretário de Estado do Ambiente, Carlos Pimenta, em declarações ao Público.

Os seus alertas relativamente à segurança das centrais nucleares começaram a ser feitos antes de os acidentes de Three Mile Island e Chernobil terem mudado radicalmente a percepção pública do problema. A sua oposição a esta forma de energia manteve-se sempre, como se pode comprovar visitando o seu site pessoal, onde arquivou e disponibilizou online as suas tomadas de posição ao longo das últimas décadas, assim como textos pedagógicos e de intervenção pública.

Como professor e dirigente do Instituto Superior Técnico, Delgado Domingos foi um dos fundadores do curso de engenharia do ambiente, tendo também fundado e dirigido a linha de Energia e Ambiente no no IDMEC (Instituto de Engenharia Mecânica).

Uma das suas paixões mais recentes, a previsão climática, levou-o a fundar o grupo de Previsão Numérica do Tempo na Secção de Ambiente e Energia do IST, em 1999, e, mais recentemente, a polemizar sobre as alterações climáticas, uma área onde alinhava com os críticos do consenso internacional, assim se distanciando de muitos dos seus companheiros ambientalistas de outras batalhas. Ainda na edição de 2013 do anuário JANUS defendia que “a relação causal entre emissões de CO2 e aumento da temperatura média global não está cientificamente provada.”

Delgado Domingos foi também militante do Partido da Terra, tendo sido recordado pelo seu antigo dirigente, Pedro Quartim Graça, em declarações à TSF, como “um companheiro de luta ecológica durante muitos anos e possuía um conhecimento científico e técnico muito acima da média”.

O funeral realiza-se hoje, segunda-feira, pelas 15h15, a partir do Centro Funerário Santa Joana Princesa, em Lisboa.

Ministro da Educação e ministro do Ambiente lamentam morte

Em comunicado às redações, o Ministério da Educação e Ciência lamentou a morte do professor do IST, que lembrou como um “académico de destaque nas áreas da engenharia do ambiente, energia e desenvolvimento sustentável”. Na mesma nota o MEC recordou os passos essencial da vida de Delgado Domingos, sublinhando que este “deixou também a sua marca numa outra instituição de Ensino Superior, a Universidade Nova de Lisboa, onde, para além de ter pertencido à comissão instaladora da UNL, ajudou a criar as licenciaturas em Engenharia Informática e Engenharia do Ambiente”.

Também o ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia, Moreira da Silva. prestou “público voto de pesar pela morte de José Delgado Domingos”. Nessa nota destacava-se o seu papel enquanto cientista e também enquanto cidadão com “forte intervenção cívica e política”. Para o ministro, a ação do antigo catedrático do Técnico foi “fundamental para aprofundar a base científica das opções de ambiente e energia, demonstrando que o ambiente é, não apenas um direito inalienável, mas também uma oportunidade de desenvolvimento económico e social”.

“O seu talento e a sua coragem — contestando e contrapondo com sólidos argumentos — impediram que alguns erros de política fossem cometidos e contribuíram para que soluções inovadoras fossem concretizadas”, acrescentou, apresentando condolências à família.