Os têxteis e o calçado são os setores da economia portuguesa que mais vão beneficiar do acordo de comércio livre que está a ser negociado entre a União Europeia e os Estados Unidos. Com a previsível diminuição das tarifas aduaneiras e o alívio das barreiras não tarifárias, estes setores podem vir a crescer mais de 18% e vir a exportar mais 200% para o outro lado do Atlântico. A perder ficam os setores da maquinaria elétrica e dos metais. Portugal poderá vir a ganhar mais com este acordo do que a média dos países europeus.

As negociações entre a Comissão Europeia (em nome dos 28 Estados-membros) e os Estados Unidos da América ainda não acabaram e oficialmente pouco se sabe sobre o que está a ser definido sobre o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP), mas um estudo elaborado pelo Centre for Economic Policy Research, um think thank britânico que reúne cerca de 700 investigadores em todo o mundo, a pedido do Governo português indicou que setor têxtil será o que mais vai ganhar, prevendo um crescimento de 18% na produção e 30% nas exportações. Conheça abaixo os principais números do acordo.

Visoes-do-Futuro (1)

Usando um modelo matemático já aplicado para tentar prever o impacto deste acordo comercial a nível europeu, o relatório aponta que tanto num cenário mais modesto, como num cenário mais ambicioso, o PIB português vai crescer 0,66% a curto prazo, cerca de 1164 milhões de euros, com a possibilidade de este aumento ir até 0,76%. Portugal será ainda um dos países a beneficiar primeiro do TTIP já que os setores estratégicos nacionais, como o calçado e o têxtil são dos que enfrentam maiores taxas aduaneiras (cerca de 8,9%). Com o desaparecimento ou suavização destes valores, o estudo antecipa um forte impulso destes setores.

“No caso de Portugal, as exportações estão concentradas em setores que vão beneficiar da eliminação das altas taxas de importação norte-americanas. Os têxteis representam 15,5% das exportações de Portugal para os EUA […] mas apenas representam 2,4% das exportações da União Europeia para o país” explica o estudo encabeçado por Joseph François, professor na Universidade de Berna e investigador do Centre for Economic Policy Research. A produção pode crescer 18% nestes setores e as trocas comerciais com os EUA, que atualmente representam cerca de 25% da exportação de têxteis, podem aumentar mais de 200%, aponta o estudo. Veículos, minerais e agricultura são outros dos setores que podem ver as exportações para os EUA potenciadas pelo acordo.

O aumento da atividade destes setores pode, segundo o estudo, levar ainda ao aumento dos salários dos trabalhadores destas indústrias, que na maior parte dos casos são trabalhadores com poucas qualificações. O aumento pode chegar a 1% para estes trabalhadores e para 0,5% para quem tem mais qualificações. Para além disto, está previsto que o acordo venha a criar a curto prazo mais de 40 mil postos de trabalho e mais 25 mil nos próximos anos. O emprego vai ser criado maioritariamente nos serviços e indústria, enquanto a agricultura pode vir a perder quase 5 mil postos de trabalhos nos próximos anos.

A preparação do acordo entre a Comissão e os EUA é secreta e a última ronda de negociações aconteceu em maio. A ombudsman (ou provedora) da União Europeia para 2013, Emily O’Reilly, anunciou esta quinta-feira que vai pedir maior transparência no processo de negociações, pedindo mesmo a publicação das diretivas negociais da Comissão Europeia. Esta decisão veio depois de vários eurodeputados, grupos de pressão, partidos políticos (especialmente os Verdes europeus), sindicatos e outras organizações pedirem maior transparência. O próprio Jean-Claude Juncker disse na sua eleição Parlamento Europeu que o tratado poderia estar em risco devido ao secretismo que envolve todo o processo.