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Com o destro ou o canhoto, pouco importa. Golos, vitórias ou derrotas, qualquer pé serve para fazer boa figura a pontapear uma bola. A sabedoria popular, porém, nunca foi neutra. Sempre escolheu um lado e a expressão “arrancar com o pé direito” cresceu como sinónimo de sucesso. Se assim for, o Benfica, nesta pré-temporada, apenas se inclinou para a esquerda: somou seis derrotas nos oito jogos que realizou. Até agora, tudo não passou de um teste. Mas “claro que, mesmo em pré-época, é sempre melhor ganhar do que perder”, avaliou o próprio Jorge Jesus, treinador a quem os números não escondem um facto — em números, este foi o pior arranque dos encarnados com o técnico português ao volante do Benfica.

Duas vitórias e seis derrotas, com 14 golos sofridos e apenas seis marcados pelo meio. O balanço é este. E deu várias estreias. Nunca o Benfica terminara uma pré-época com menos de uma dezena de bolas chutadas para o fundo das balizas adversárias. Em golos sofridos, a história é outra. Os 14 que a equipa juntou não foram o pior que aconteceu na era-Jesus: em 2010/11 e 2013/14 não evitou que o mesmo acontecesse. Mas há uma diferença.

E ela está no número de jogos. Mais jogos implica uma maior probabilidade de sofrer e marcar golos. Com a bola a rolar, porém, a lógica inverte-se. Esta foi a segunda pré-temporada em que o Benfica menos apareceu nos relvados. Em 2011/12, quando teve de madrugar a preparação devido à pré-eliminatória da Liga dos Campeões (em que ultrapassou os turcos do Trabzonspor), o Benfica realizou apenas sete testes. Nas duas épocas em que também sofreu os tais 14 golos, por exemplo, os encarnados cumpriram dez e nove amigáveis.

E motivos de queixa, podem existir? Se sim, só olhando para os adversários. Entre os oito clubes que o Benfica defrontou desde 18 de julho, apenas dois (os suíços do Sion, e os espanhóis do Valência) não vão competir esta época nas provas europeias.

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Ou seja, o nível de dificuldade terá aumentado. Esta temporada, por exemplo, o clube da Luz não partilhou o relvado com uma equipa luxemburguesa ou uma constelação de jogadores amadores. Como na época passada, quando venceu por 6-1 o Étoile-Carouge, ou em 2011/12, quando atropelou uma seleção de Friburgo (9-1). A época de 2009/10, primeira com Jorge Jesus, fora a única em que o Benfica não chocara com um adversário de escalões inferiores.

Logo, do lado oposto do relvado, em teoria, Jorge Jesus nunca antes vira obstaculos tão complicados. Ainda para mais, em ano de pós-Mundial, que dificulta ainda mais as coisas. Certo? Talvez não. Em 2010/11, logo após o Campeonato do Mundo da África do Sul, o Benfica terminou os dez encontros de pré-época com sete vitórias, um empate, duas derrotas e 29 golos marcados.

Tantas e tão tímidas chegadas

Quanto a contratações, houve muitos olás a serem feitos. Para já, 11 jogadores chegaram ao Benfica. Até 31 de agosto — data de fecho do mercado de transferências — mais poderão aparecer. “A adaptação dos novos tem sido difícil”, lamentou Jorge Jesus após a derrota, no domingo, frente ao Valência (1-3), ao falar das caras novas que já viu.

E também se referiu às velhas das quais se despediu. “Espero não perder mais nenhum jogador”, augurou o técnico. E aqui está talvez o maior problema — o Benfica, até ao momento, ainda não conseguiu tapar os buracos deixados pelos ex-titulares que já partiram. À esquerda, Loris Benito vai tentando fazer de Guilherme Siqueira. Na direita, Luís Felipe sofre para preencher a lateral enquanto Maxi Pereira recupera a forma. No centro da defesa, ainda sem Luisão e com Ezequiel Garay no Zenit de São Petersburgo, o brasileiro César tem sido bastante testado.

No meio, uns metros à frente, também há problemas. Matic tinha saído em dezembro mas Feijsa compensou, até se lesionar. Tirando Rúben Amorim, que é uma adaptação, não há  ninguém para esse posto. E as prolongadas férias de Enzo Pérez têm obrigado Jesus a fazer de Anderson Talisca, um número 10, uma solução antecipada para o número 8. Na frente, sem Óscar Cardozo e Rodrigo, Derley ou Jara têm sido a companhia de Lima. Um deles entende-se — é uma contratação e, na época passada, marcou 18 golos no Marítimo. O outro, é um reforço mascarado, pois já tinha estado no equipa há duas temporadas (marcou 11 golos).

As seis derrotas, a meia dúzia de golos marcados e os 14 sofridos provam que as experiências não correram bem. Se contarmos com Jan Oblak, André Gomes e Lazar Markovic, os encarnados já não têm seis dos jogadores que, na época passada, eram dos que mais colavam a equipa titular que levou o Benfica à conquista do campeonato, da Taça de Portugal, Taça da Liga e à final da Liga Europa. E poderão ser sete, caso o Valência insista e consiga roubar Enzo Pérez.

Moral da história: para já, os reforços do Benfica pouca força deram à equipa. No ataque, aliás, Daniel Candeias e Bebé parecem estar ainda na sombra de Nico Gaitán e Eduardo Salvio, extremos já habituados à maneira de Jorge Jesus. “Ainda não entenderam quais as exigências da equipa“, disse o treinador, ao falar, sem especificar, das contratações encarnadas. Victor Andrade, moleque de 18 anos, brasileiro, que o Benfica comprou ao Santos, por exemplo, ainda só jogou pela equipa B. As caras novas mais utilizadas até foram duas que regressaram de um empréstimo — Sidnei e Franco Jara.

Ainda longe do recorde

Em números, as 11 compras que o Benfica fez já davam para fazer uma equipa. O recorde está nas 16 que recebeu em 2011/12, na tal pré-época mais curta que realizou até ao momento. Aí, contudo, a equipa ficou apenas sem três dos habituais titulares: Ángel Di María, Fábio Coentrão e Roberto. Nessa pré-época, os sete jogos foram feitos com quatro vitórias, dois empates, uma derrota, 19 golos marcados e sete sofridos.

Em 2009/10, na temporada em que conquistou o campeonato pela primeira vez, somou dez contratações. Agora, o Benfica tem de “contratar um guarda-redes, um médio defensivo e encontrar um avançado”, sentenciou Jorge Jesus, após sair da Emirates Cup, prova organizada pelo Arsenal, com oito golos sofridos em duas partidas.

Ou seja, restarão pelo menos três contratações por realizar. E assim os encarnados ainda poderão encher o saco das compras como o fizeram há três anos. Para já, uma coisa é certa — em números, esta foi a pior pré-temporada de sempre de Jorge Jesus no Benfica.