João van Zeller está há muitos anos ligado à Escócia por razões familiares e por ter a paixão do golfe. Encontra-se por estes dias na região e tem seguido com interesse e paixão as campanhas para os dois referendos de dia 18: o sobre a independência da Escócia e o que está a dilacerar os sócios do mais antigo e prestigiado clube do golfe do mundo, o Royal & Ancient Golf Club of St. Andrews (R&A), que terão de decidir se vão ou não permitir que mulheres possam entrar para sócias. Tem vindo a escrever um diário que foi partilhando com os leitores do Observador. Última entrada:

 

No Reino Unido e no mundo respira-se fundo. Os convincentes 55,3% a favor do NO, Better Together e a derrota do YES para a independência, com apenas 44,7% dos votos, vão obrigar a um exercício complexo nas costuras que unem os tecidos das frentes inglesas, galesas, norte-irlandesas e escocesas. Nada vai ser como antes. Disso falam hoje mil comentadores, e não sinto necessidade de registar muito mais no meu efémero “Diário de dois Referendos” sobre os clamores de alívio que bradam de Norte a Sul das Ilhas Britânicas.

Mas fico sempre perplexo com a capacidade que os bons políticos têm para engolir com um sorriso aparentemente satisfeito sapos gigantescos e pegajosos nas mais humilhantes derrotas. Prevendo o que vinha aí, o ontem ainda triunfalista Salmond teve uma tirada amaciada, digna de um malabarista do Cirque du Soleil: “a monarquia é epítome da união social, e no meu apoio consistente à Rainha Isabel II como Rainha dos escoceses, assim como aos seus herdeiros. Quero assim passar a mensagem de que há uma união social que vai para além de Westminster”. Antecipando cuidadosamente um resultado nefasto para o YES, estava já a tentar dar a primeira lavagem a seco aos seus abrasivos discursos anti-unionistas destes dois últimos meses e a piscar o olho outra vez à União, que despreza. Admirável.

Com a coragem própria de um homem muito inteligente e dotado do génio dos grandes condottieri, Alex Salmond travou nos últimos meses uma luta corajosa, desassombrada e dantesca. Não o ajudaram muitos dos aspectos irracionais da sua campanha, nem tão pouco os toques algo mussolinianos que aqui e ali esgrimiu. A reconciliação humilde com os adversários vai ser incontornável se Salmond quiser cerzir o tecido político que tanto desgastou, e recuperar da ressaca dos golpes baixos que assestou.

Vou-me ficar por aqui nesta coisa do referendo pela independência. Foram oito dias empolgantes e irreplicáveis, estes em que, à pequena bola de golfe de que o jogador não pode tirar os olhos, houve que associar a angústia crescente quanto à possibilidade de o referendo resultar num YES pela independência. No futuro vou poder regressar a St Andrews, Reino Unido, com a tranquilidade de sempre.

Muitas palpitações ambivalentes causou-me também o referendo do R&A. Se por um lado o meu coração queria votar NO, a minha razão apelava para o YES. Nem às paredes confesso o resultado da luta interior.

E aqui também Fiat Lux: com um número record de cerca de 500 sócios presentes, foi anunciado por Peter Dawson, o Secretário do R&A, que 85,5% dos 1853 votantes (75,9% dos 2440 que podiam votar), se manifestaram de forma esmagadora a favor da admissão da candidatura das mulheres a sócias do Royal & Ancient Golf Club of St Andrews. Notícia de abertura nas televisões britânicas nos noticiários das 19 horas de ontem.

Estou em crer que a fusão dos géneros vai ser suave, muito espaçada e cuidadosa com as almas mais sensíveis que param pelas salas do R&A dia sim, dia sim. Ao longo do ano o Clubhouse é frequentado por uma média de 100 sócios, beatitude quebrada pelo Spring Meeting e Autumn Meeting, em que o burburinho de uns 400 a 600 consócios vindos dos quatro cantos da terra os perturba por um par de semanas. Esses 100 heróis, em que a maioria votou YES à entrada das senhoras, são os herdeiros da alma e da razão de ser original do R&A. Para eles, apesar de já terem cedido com o seu voto, vai ser doloroso quebrar com a tradição da exclusividade masculina. Mas a pouco e pouco vão-se adaptar à ideia que o conforto da intimidade de que gozam desde sempre terá de ser alterado. E os quatro metros quadrados à entrada do Clubhouse ficam agora reservados apenas aos cães que esperam pelos sócios, seus donos. As mulheres que os esperam já podem franquear esse hall.

Curiosamente, os sócios mais jovens, que têm muito com que se entreter na frente feminina, foram NO. Os mais velhos, e os muito mais velhos, ainda cheios de esperança em renovadas alegrias, votaram YES myladies.

Descartando a ironia, a verdade é que este resultado representou uma importante vitória para a consolidação da credibilidade global deste clube, um pouco escondido nas chuvosas, nevoeirentas, frias e ventosas costas escocesas do Mar do Norte. E os 85,5% dos votos a favor, administrados, recolhidos e contados por uma agência independente, tornam o assunto inquestionável. Assim, a responsabilidade informal de que o R&A é desde sempre titular na governação do golfe em todo o mundo (menos nos EUA e México, onde apoiam a liderança local do United States Golf Association), apesar de há muito ser inquestionável e universalmente aceite, saiu muito reforçada.

Todo o brouhaha à volta deste voto não é despiciendo, pois o entorno aconselha a acompanhar os tempos. Exercido com grande discrição, eficácia e absoluta honestidade, o poder do R&A, onde fora das reuniões para o efeito, é desaconselhável, por mal visto, falar em dinheiro, abarca um desporto que factura anualmente dezenas de biliões de dólares em todo o mundo. Para se ter uma ideia da dimensão monetária do golfe, em apenas quatro dias num só torneio, um único jogador, Billy Horschel, o vencedor da Fedex Cup disputada no último fim de semana em Atlanta, Georgia, arrecadou não só a taça, como dez milhões de dólares.

Esta manhã, às oito em ponto, perante numeroso público e como sempre desde 1923, apenas um jogador, George Macgregor, OBE, após um tiro de um pequeno canhão usado para assinalar o início desta partida, saiu do tee do buraco 1 do Old Course para disputar a capitania do R&A durante os próximos 12 meses. A bola alcançou uns 270 metros de distância. Como não se apresentaram adversários, (desde 1923 que é assim), Macgregor foi declarado vencedor de imediato, e regressou ao mítico Clubhouse com muitas palmadas nas costas de conhecidos e desconhecidos, acedendo assim ao prestigiado lugar de Capitão do Royal & Ancient Golf Club of St Andrews por um ano.

Esta noite, o Annual Dinner reúne cerca de 600 sócios. Na mesa da presidência sentam-se os ex-capitães sobrevivos do R&A, em média uns 18, todos vestidos com a tradicional e vistosa casaca encarnada. E, claro, Macgregor, o capitão entrante. O Secretário está na ponta da mesa, de smoking. O porteiro do Clubhouse, figura chave de toda esta máquina e parte da liturgia, fica logo a seguir, na sua farda de gala. Antes de se iniciar o jantar, e perante o recolhimento e silêncio sepulcral de todos os golfistas, enfarpelados nos seus smokings, ou nos kilts de cerimónia, o capelão do R&A faz uma prece, que normalmente conclui pela invocação da ajuda de Deus para que melhore a alma e inspire o swing de todos os presentes. Depois, vai-se interrompendo o jantar para distribuir os troféus do ano, fazer discursos sempre bem humorados, e proceder à cerimónia de posse dos novos sócios. Estes são convidados a beijar “the captain’s balls”, sempre com sorriso maroto da assistência, perante o embaraço dos novatos. São apenas bolas de golfe de prata (de ouro quando o capitão pertence à Família Real), soldadas num taco de golfe, também de prata, e que cada capitão oferece ao clube terminado o mandato. O Vinho do Porto é a bebida de todas as saúdes nesta cerimónia.

Neste últimos 20 anos em que St Andrews recebeu-me como se fosse mais um cidadão desta terra, vivi a Escócia, o R&A, o nevoeiro, a ventania, a chuva, ocasionalmente o sol resplandecente, e vezes sem fim o desespero de não acertar na bola de golfe, face ao raríssimo, inultrapassável e onírico prazer de o fazer com perfeição. Mas diário como este, que uma sombria inquietação me levou a escrever nestes últimos 8 dias, graças a Deus não encontrará motivo para ser repetido. Teve dois fins felizes.

St Andrews, na Escócia, 19 de Setembro 2014

João van Zeller é advogado e empresário