Segunda-feira é o dia 1. “O mais difícil começa agora”, já tinha dito António Costa no último frente a frente televisivo com Seguro. Não faltam desafios ao homem que venceu as diretas socialistas. Aqui fica uma lista dos primeiros.

  • Recuperar a imagem do PS Depois de quatro meses de disputa interna sobram as marcas de um partido preso a uma luta demasiado pessoal. A campanha chegou a apresentar-se feia a quem seguia tudo pela televisão ou pelas redes sociais, com trocas de acusações duras, pessoais, feitas de parte a parte. Se isso não desmobilizou os militantes e simpatizantes no dia de domingo, o risco de que tenha desmobilizado o eleitorado do centro (essencial para uma vitória nas legislativas) é real. A batalha de Costa terá necessariamente de começar por aí.
  • Construir uma equipa Vai demorar tempo a formalizar, porque ainda é preciso marcar as diretas para o eleger como secretário-geral do PS e também fazer um congresso. Mas Costa terá que apresentar uma equipa sólida e transversal para mostrar que é capaz de ir buscar melhores do que Seguro no seu Novo Rumo. A campanha deu-lhe bons sinais nesse sentido, mas agora é preciso mais: renovar, requalificar e re…unir. E não dá para esperar as formalidades: a atualidade exigirá resposta pronta e não há segunda oportunidade para criar uma primeira impressão. Já agora, um detalhe: Costa precisará de um homem para lidar com o aparelho – esse não é o seu forte e ele não terá já muito tempo para correr as secções partido (embora tenha de o fazer).
  • Unir as peças de um aparelho dividido A meio da campanha, as eleições nas federações mostraram que os militantes de base não tinham uma preferência clara entre os dois candidatos. Os resultados de domingo mostraram que foram os simpatizantes quem teve o voto decisivo (uma ironia, já que foi Seguro a propor o voto aberto a todos). Agora, a um ano das legislativas, Costa terá que conquistar aqueles que estiveram contra ele – e mobilizar todos, nas bases, para a luta decisiva.
  • Liderar e recompor a bancada de fora desta Costa não é deputado, Seguro é. Costa precisa de um líder parlamentar que fale por ele contra Passos, a cada quinze dias, nos debates parlamentares. Mas há mais: Costa tem na bancada socialista (eleita nas listas de Sócrates em 2011) mais apoiantes do que Seguro, mas não uma maioria esmagadora. Para não ser acusado daquilo que acusou Seguro, terá de fazer melhor do que ele na recomposição da bancada para o ano decisivo. E terá que coordenar a ação política de fora – o que aconteceu, pela última vez, com Luís Filipe Menezes e Marcelo Rebelo de Sousa quando eram líderes no PSD, e com José Ribeiro e Castro no CDS. No PS, a última vez que aconteceu foi com Jorge Sampaio. Nenhum dos quatro chegou a primeiro-ministro (mas também só Menezes apareceu mais perto da reta da meta, os outros foram líderes da oposição no início de uma legislatura).
  • Numa expressão, unir o partido É uma síntese dos pontos anteriores, mas convém explicar melhor – a última guerra interna no PS foi a que opôs Guterres a Sampaio. As feridas nesse início dos anos 90 duraram três anos a sarar, até que Guterres venceu e juntou as peças no poder. Será preciso tanto tempo agora?
  • Encontrar uma estratégia contra o Governo Voltamos ao último frente a frente entre Costa e Seguro. Quando o autarca disse que “o mais difícil começa agora”, acrescentou que agora, passada a troika, o Governo está em condições de dar “boas notícias” aos portugueses. Na última semana, de facto, o Executivo aumentou o salário mínimo. Fala-se de uma possível descida (mínima) do IRS no próximo Orçamento do Estado. Uma pergunta sacramental é como posicionar o PS face a estas potenciais “boas notícias” do Executivo. Antevendo isto, Costa deu já um sinal: a sua base de trabalho para o salário mínimo era muito superior à que foi acordada em concertação: 522 euros contra os 505.
  • Posicionar o partido nos temas quentes – BES e o caso Tecnoforma Seguro, enquanto líder, foi cuidadoso no BES (dando por boa a solução encontrada pelo Banco de Portugal e Governo), mas duro com Passos, a quem exigiu até o levantamento do sigilo bancário no caso Tecnoforma. No que respeita a esta polémica, não excluiu uma comissão de inquérito. Costa protegeu-se mais. Mas terá de ser rápido na definição de uma estratégia.
  • Como gerir as negociações da Câmara com o Governo Agora que está na primeira linha da oposição, que fará Costa nas negociações abertas com o Executivo sobre a transferência da Carris para a Câmara de Lisboa? Manterá os seus planos? A pergunta aplica-se também ao Governo: abrirá portas ao líder da oposição para que a sua câmara possa gerir a empresa pública nos próximos anos? Em que condições?
  • Definir um dia para sair da Câmara Não será fácil, com o aproximar das eleições legislativas, acumular os Paços do Concelho e o Largo do Rato. Fernando Medina, o seu número dois, está a postos para o substituir. Mas o anúncio vai ser sempre delicado.
  • As listas Não há momento mais complicado de gerir num partido do que a construção das listas de deputados. Juntar as tendências, unir desavindos, gerir expetativas de centenas de apoiantes com a ambição de ir para o Parlamento. E começar a pensar, enquanto isso, numa equipa para formar Governo. O quebra-cabeças virá dentro de algum tempo.
  • Abrir portas no PSD para um futuro Governo O novo líder terá de pedir a maioria absoluta, mas sabe que isso é difícil (só uma vez o PS o conseguiu, com Sócrates e contra Santana Lopes). Por isso, Costa saberá que tem construir pontos com futuros parceiros de coligação, para que governar a partir de 2015 (se vencer, claro) não seja uma missão impossível. Abrir portas e construir pontes com o PSD (com o de Rui Rio, ou de outros potenciais candidatos à substituição de Passos) pode ser crucial no ‘day after’. O difícil é conciliar isso com um discurso de campanha eleitoral, onde a crítica ao Governo será permanente. Há alternativas? Sim: o CDS, ou a esquerda (com quem Costa nunca se cruzou), ou os novos partidos (o de Marinho Pinto, entre eles). Mas não se sabe se os votos chegam – e se não é mais fácil estabelecer consensos ao centro.
  • Apostar nas presidenciais, gerindo relações com Cavaco Silva Cavaco sai apenas em março de 2016 e Costa terá mais de um ano pela frente com ele em Belém. Será ele a convocar as legislativas (no tempo ou antes dele?) e a dar posse a um Governo (exigirá maioria absoluta?). Construir uma relação saudável com o Presidente pode desagradar a algum PS, mas terá vantagens. Pelo meio, haverá ainda um candidato presidencial (será Guterres). E um discurso de campanha presidencial que terá sempre os dez anos de cavaquismo (presidenciais) como base argumentativa. Não será o dossiê mais fácil de gerir.
  • Construir um programa, mostrando algo de novo: foi uma das principais críticas de que foi alvo nestes quatro meses – faltaram na campanha ideias, um programa, um caminho concreto. Costa definiu antes um calendário: lá mais para abril, maio, haverá um programa de Governo. Até lá, a crítica de Seguro pode ser replicada pelo Governo e também pela esquerda.
    Depois, o mais delicado: Costa terá de ser muito mais específico quanto aos temas financeiros, que são os que mais limitarão o próximo Governo: que medidas para controlar o défice e reduzir a dívida? Aceitar ou não os objetivos definidos com a Europa? O que fazer a impostos, salários, pensões? O que fazer desta Administração Pública, desta estrutura económica? Investir com dinheiro do Estado ou sem ele? É um mundo de perguntas – e algumas respostas terão que aparecer até às legislativas.
  • Gerir expetativas de um grupo de apoiantes muito diverso Falando de programas e alianças futuras, um dos maiores desafios de António Costa será o de manter elevadas as expetativas dos seus apoiantes. Um grupo heterogéneo, que vai de Mário Soares e Ferro Rodrigues (que lhe têm pedido uma plataforma de esquerda e uma negociação dura com a Europa) a António Vitorino (que foi à Universidade de Verão do PSD dizer àqueles militantes que se vão rir quando o Tribunal Constitucional for o grande adversário do futuro Governo PS). Não será fácil contentar todos – mas esse é o verdadeiro desafio de uma liderança forte.